Amigos

amigos

Falar de amizade masculina é um risco. O mundo latino pensa, de imediato, que a linguagem amorosa é de uso exclusivo do universo feminino ou, quanto muito, do foro íntimo de um casal heterossexual (homem-mulher).

Hoje em dia, há homens que rompem as barreiras classificatórias dos sentimentos, recorrendo ao uso das palavras que, até há pouco tempo, eram identificadas com a fragilidade do mundo feminino. [Read more…]

ser amigo

a música, é-me oferecida por J.S Bach; a saúde, por J.António Brito

para José António Brito, o médico que me tem restabelecido…quem me dera essa inaudita capacidade de construção humana, como diz o meu colega do Collège de France, Boris Cyrulnick, salvo de um campo de concentração nazi…

Dizem por aí que o maior de todos os bens, é um amigo verdadeiro. Era fácil definir o conceito a partir do latim, mas como ser amigo é uma emoção, um sentimento, por ser um conceito tão subjectivo, nem o melhor latim serve para ser usado neste curto texto. É uma emoção, quase como um sentimento de fé. No entanto, esse sentimento não tem palavras para o definir. O que existe sãos apenas adágios ou frases de provérbio. Também dizem por ai que na cadeia e nos hospitais é que se conhecem os amigos. Não por sermos apresentados. É porque se estamos na cadeia, precisamos de

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Já não há duros

Já todos lhe conheciam a língua mordaz, o comentário implacável, a resposta avinagrada. À sua mesa ninguém se sentaria; respeitosos acenos de cabeça e até mais logo.

Ágil no raciocínio, lúcido na análise, desapiedado das fraquezas alheias, um duro à moda antiga.

Sentei-me a medo à sua frente, sabendo que corria o risco de ser tida por adversária e desencadear um combate que eu não queria travar.

Que diabo, tinha de me tocar aturar este gajo, um tipo insuportável.

Puxei a cadeira para a frente, endireitei as costas e olhei-o de frente.

E vi-lhe a camisola de lã, pontuada de borboto, a barriga bojuda que a camisola não escondia, o gesto tenso do pescoço, uma incomodidade mal disfarçada que o fazia baixar o olhar. E as mãos, essas mãos gordas e brancas, mãos sapudas, de avozinha, mãos de um homem por quem as mulheres sentem ternura mas não desejo.

As mãos de um homem que ama em silêncio a mesma mulher há muitos anos e nunca lhe dirá nada.  E passa as noites em claro, a censurar-se pelo que disse e pelo que não disse.  E se levanta, já a manhã vai alta, para diluir em sarcasmo o nó de angústia das madrugadas.

Às vezes é assim que se faz um amigo.

Um amigo

(pormenor - adao cruz)

Um amigo

Ambos somos a maior cidade, o seio cálido e palpitante, o êxtase da geração, a excitação amolecida desta idade de volúpia e de efusão.

Moderado, claro!

Estando sempre à mão, sendo um abraço supremo, não deve curvar a gente a qualquer tipo de sensação.

Há os que vêem nele um grama a mais que na gordura. Não bebam, ele não é dieta, é ternura, afeição criada no destino humano para musicar a vida e fazer dela uma canção.

A medida é o espírito de cada um e não o balão.

Se é trágica a sua acção, pena de morte! Proscrito seja a quem da vida não tem questão, a quem o fluido calor da crença enche de momentos incolores que mais não fazem do que criar cataras na razão. Ele é sagrado, poético, linguagem de horizontes que não pode ser bebida aos copos, mas em gotas de emoção. O abuso é uma metáfora da natureza criadora e tem de ser internado. [Read more…]

Poema para o meu pai

(Com um abraço ao José Magalhães)

Tão cedo a esta vida te roubaram

Saudoso pai meu bom e grande amigo

Que mal teus olhos fundos se fecharam

Boa porção de mim partiu contigo.

Flores e velas, preces lacrimosas

Ó alienas artes da razão!

Ainda bem que não te iludem rosas

Meu doce pai que em tudo és meu irmão.

Minha fé, minha crença, minha idade

De homem-filho é grito de homenagem

Que outro não sei, sem lágrimas, sem prantos.

Mãos dadas pelos céus da eternidade

Nesse reino sem trono e sem linhagem

Vives tu, vivem papas reis e santos.

                                                                                1971