O FC Porto não é o clube da cidade do Porto

O FC Porto é o Porto, quer queiram quer não!
— Pôncio Monteiro (1940-2010), 7 de Março de 2002

O FC Porto é o FC Porto e é o clube da cidade.
— Rui Moreira, 12 de Maio de 2018

… e quem tiver amor à cidade não pode deixar de ter ao FC Porto.
— Pinto da Costa, 31 de Maio de 2020

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Como muito bem escreve Ana Gomes, «Rui Moreira e acompanhantes na lista do Conselho Superior do FCP não se enxergam». Efectivamente, depois do blá-blá-blá (“o azul não tem qualquer conotação clubística“) e da afronta (“o FC Porto é o FC Porto e é o clube da cidade“), só faltava mesmo a Rui Moreira a rampa de lançamento no conforto da estrutura do FC Porto e uma inadmissível espargata entre o comando dos destinos da cidade do Porto e a ambição de ser presidente do FC Porto. Com a rampa de lançamento montada, é claro, veio a anunciada passagem de testemunho. Tudo isto é, obviamente, ridículo e, pior, esta promiscuidade política/futebol é inaceitável.

O FC Porto é um clube da cidade do Porto e merece da parte de Rui Moreira exactamente o mesmo respeito, carinho e interesse que merecem todos os outros clubes onde se pratica futebol na cidade do Porto. Clubes como o Boavista, o Pasteleira, o Salgueiros, o Bom Pastor, o FC Foz, o Académico, o Ramaldense, o Desportivo de Portugal, o S. Vítor ou o Sport Clube do Porto merecem tanto respeito como o FC Porto. O Porto não tem clube de futebol. A Associação de Futebol do Porto tem uma selecção e é muito boa. Mas o Porto, como tereis ainda agora lido, não tem clube de futebol. Dois dos melhores futebolistas portugueses de sempre (o Humberto Coelho e o João Vieira Pinto) são portuenses, nunca jogaram no FC Porto, não são portistas e foram ídolos do Glorioso. Sou portuense, sou benfiquista ferrenho e até sou sócio do Benfica, mas Rui Moreira e Pinto da Costa, garanto-vos, não gostam mais do Porto do que eu. Convém que haja menos propaganda e menos mistura de assuntos sérios (a gestão da cidade e as condições de vida de quem mora e trabalha nessa cidade) com futebolices, vaidades pessoais e rampas de lançamento.

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O directo, o direito e o direto

I know you think you understand what you thought I said, but I’m not sure you realize that what you heard is not what I meant.
— Alan Greenspan (apud Rebecca Saxe)

So, let me play a little bit of my favourite childhood piece.
Lang Lang

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Há uns anos, escrevi sobre um fenómeno perturbador. De facto, a hipótese da idealização de um ‘i’ depois de um ‘e’, por causa da supressão de ‘c’, era corroborada pelas leituras detectadas de direito, em vez de *direto (por directo), em textos escritos “ao abrigo” do AO90. Efectivamente, há quem leia direito em vez de *direto. Lembrei-me disso por causa de um texto aparecido anteontem no jornal A Bola, com direito em vez de *direto (exactamente: *direto).

Convém, neste exacto momento. lembrarmo-nos de dois factores importantes:

  1. A direcção do jornal A Bola não tem modos à mesa de um regime democrático;
  2. Independentemente de o teclado ser AZERTY. QWERTY ou QWERTZ, a distância mais curta entre a letra ‘c’ e a letra ‘e’ é a tecla ‘d’, a distância mais curta entre a letra ‘t’ e a letra ‘e’ é a tecla ‘r’, a distância mais curta entre a letra ‘i’ e a letra ‘e’ são quatro teclas, a distância mais curta entre a letra ‘c’ e a letra ‘t’ é a tecla ‘f’, a distância mais curta entre a letra ‘c’ e a letra ‘i’ são quatro teclas e, para terminar, a distância mais curta entre a letra ‘t’ e a letra ‘i’ são duas teclas — ou seja, a possibilidade de gralha é altamente improvável.

Desejo-vos um óptimo-fim-de-semana.

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Páginas do Barroco (5) – Johann Sebastian Bach

Terceiro Andamento (Allegro) do Concerto Italiano, BWV 971, de J. S. Bach, para cravo, aqui numa interpretação menos habitual pelo grupo Camerata Brasil.
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ser amigo

a música, é-me oferecida por J.S Bach; a saúde, por J.António Brito

para José António Brito, o médico que me tem restabelecido…quem me dera essa inaudita capacidade de construção humana, como diz o meu colega do Collège de France, Boris Cyrulnick, salvo de um campo de concentração nazi…

Dizem por aí que o maior de todos os bens, é um amigo verdadeiro. Era fácil definir o conceito a partir do latim, mas como ser amigo é uma emoção, um sentimento, por ser um conceito tão subjectivo, nem o melhor latim serve para ser usado neste curto texto. É uma emoção, quase como um sentimento de fé. No entanto, esse sentimento não tem palavras para o definir. O que existe sãos apenas adágios ou frases de provérbio. Também dizem por ai que na cadeia e nos hospitais é que se conhecem os amigos. Não por sermos apresentados. É porque se estamos na cadeia, precisamos de

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Se hoje evocamos a primavera e a poesia

porque não havemos de lembrar também, antes que o  dia se esgote, o sr. Johann Sebastian Bach, que veio ao mundo a 21 de Março de 1685?

Carlos Vidal – Saramago deita a arte fora*

 

Esta conferência de imprensa é deprimente e desoladora. Vi um minuto e, por favor, mais não. A crueldade e o incesto está em toda a história da arte. A Bíblia é uma grande alegoria da condição humana e das suas misérias. Inspirou quase toda a história da arte.

Só pode satisfazer-se com estas declarações de Saramago quem com a arte não se relaciona, nunca se relacionou, nem se relacionará. Sem o saber, Saramago deita a arte quase toda fora.

E não é preciso ser "Igreja" (que não sou nem nunca fui) para afirmar isto.

Comunista e ateu também eu sou, mas dediquei anos e anos de vida a Caravaggio (uma das bases do meu doutoramento já entregue há algum tempo). Não pode vir um tipo de Lanzarote, tenha o prémio que tiver, deitar isto fora, nem o Caravaggio, nem o meu trabalho sobre o dito cujo.

É só pensar um pouco: Saramago ataca a arte e não a Igreja (instituição que desconheço de todo).

 

* O Carlos Vidal, «blogger» do «5 Dias», comentou desta forma a conferência de imprensa de José Saramago a propósito da polémica que já vai longa. Entendi que este comentário merecia ser transformado num «post». O Carlos concordou.