A Cómoda

Há um erro gigantesco e utilíssimo que todos aprendemos na escola, erro esse que teve e tem a função de nos ajudar a ver o mundo como uma cómoda de quarto, cheia de gavetas.

Uma das gavetas é para as peúgas, outra para as camisolas, outra para as ceroulas, e por aí adiante. As pessoas que percebem desses assuntos chamam-lhe “especialização”, arte que consiste em compartimentar, o mais possível, a realidade, de maneira a fazer dela uma espécie de trama infinita, e infinitesimal, infinitamente segmentada, infinitamente dividida em realidades sempre mais pequenas, micro-gavetas da velha cómoda onde se guardam fibras microscópicas das peúgas, cuja utilidade temos esperança de vir a descobrir.

Este erro gigantesco e utilíssimo é o que vem a constituir o fundamento, a estrutura, não apenas da nossa cosmovisão – uma cómoda do tamanho do Universo -, mas de coisas bem mais terrenas, como a nossa organização social, as nossas teorias do conhecimento, a base doutrinal comum a todas as ciências, a todas as artes e até – daí a sua utilidade – do governo dos países e do mundo.

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Na altura própria

adão cruz

João era agora um homem velho, em paz consigo e com o mundo. Tinha um objectivo e uma ambição, suicidar-se na altura própria. Nem antes nem depois. Não queria morrer ao acaso. Não queria morrer na incerteza com que nasceu. A sua grande angústia residia no medo de não vir a reconhecer a altura própria. Ambicionava o momento exacto, e para tal se ia preparando, criando dia a dia uma espécie de protocolo que o encaminhasse progressivamente para o momento certo. [Read more…]

Eu não te espero!

(adao cruz)

Eu não te espero! Yo no te espero! Jo no t’espero! Eu nom te espero!

Acordei hoje de manhã com uma grande sensação de paz. No entanto, atravessavam-me a cabeça três traves mestras. Duas delas de madeira sã, firme, sem bicho. Outra de madeira podre, carunchosa.

 A primeira era uma reflexão muito agradável e confiante sobre a leitura da véspera, o maravilhoso livro de António Damásio “O livro da consciência”. Li e reli tudo o que ele escreveu. E comparando com tudo o que ele escreveu, este livro parece-me um passo gigante no sentido da firmeza, da confiança e da projecção do ser humano no caminho do conhecimento e da verdade. Quando ele diz que o “eu” que tornou possível a razão e a observação científica, e a razão e a ciência, por seu lado, têm vindo a corrigir as intuições enganadoras a que o eu, por si só, nos pode levar, é um pensamento magistral. Nada há como a razão, a principal riqueza do ser humano. [Read more…]

Vimes

O Importante é Andar com a Cabecinha Erguida

Não nos importem as dificuldades que este governo nos impõe.

Não nos interesse o quanto o fisco nos tenha depenado.

Não nos preocupemos com a fome e o desemprego que grassa no nosso País.

Não nos importe o sexo que o governo quer fazer connosco.

Mantenhamos a nossa auto-estima acima de tudo.

E tudo isto porque: [Read more…]

A dor de cabeça do Zé Manel

No outro dia vi o gajo no Rossio atrelado a uma velha, abraçado a ela como alguem que vai a cumprir uma penitência, tive que me desviar se não "les amoureux" atropelavam-me, tal era a cegueira.

 

O amor é sempre um bocado rídiculo para os outros que o não estão a viver, mas a malta da minha idade não tem noção nenhuma da figura que fazem. Não namoraram em novos, arranjavam uma namorada e ficavam de "olho mortiço" casavam com a primeira, até havia anjinho que arranjava uma "madrinha de guerra" que era mais ou menos a "prometida".

 

Pois o Zé Manel, que já teve dois ataques cardíacos e toma aí uns quinze comprimidos por dia, e tem uma mulher que vale dez vezes ele, felizmente que os filhos saíram à mãe, são bonitos e inteligentes, dele só têm a altura, quiz "concretizar" o seu grande amor.

 

E eu, olha lá, mas como é que tu vais "concretizar"  se já não "concretizas" há anos ? que a culpa é da mulher, vira-lhe as costas, já não o beija "nos lábios" e por isso ele não pode fazer milagres, e eu, com esta paciência que só tenho para os amigos, é pá, como queres tu que ela te beije se já te levou para o hospital montes de vezes, é do coração, é dos diabetes,  são as enxequecas, a mulher anda é a ver se tu não vais desta para melhor, é uma grande prova de carinho digo-te já, ou não achas?

 

No outro dia telefona-me a mulher, Luís, o Zé Manel há dois dias que não sai da cama, diz que tem um AVC, uma dor tremenda na cabeça, importa-se de o levar ao Hospital? estou com medo de chamar o "112" ele só de ouvir a sirene tem um ataque de pânico, e aí vou eu com o "fall in love" no carro, é pá, mas tu deste com a cabeça nalgum lado? que não, "pos-se-lhe a dor" asssim sem mais, e eu a tentar perceber a puxar por ele.

 

Fez um TAC à cabeça, nada de fracturas, TA normal, diabetes normal, tudo normal, e eu a desconfiar. Mas oH! Zé Manel tu já "concretizaste" ? E ele, com a mão na cabeça que a dor não passou, com os olhos vermelhos de não conseguir dormir, geme baixinho.

 

Bem me podias ter dito que era Viagra 50 e não 100…