Na altura própria

adão cruz

João era agora um homem velho, em paz consigo e com o mundo. Tinha um objectivo e uma ambição, suicidar-se na altura própria. Nem antes nem depois. Não queria morrer ao acaso. Não queria morrer na incerteza com que nasceu. A sua grande angústia residia no medo de não vir a reconhecer a altura própria. Ambicionava o momento exacto, e para tal se ia preparando, criando dia a dia uma espécie de protocolo que o encaminhasse progressivamente para o momento certo.

– Este é um sítio porreiro para alguém se suicidar, na altura própria, não acham?

Mas não havia ninguém à volta para receber a pergunta. Concluiu que falava para si mesmo. É um profundo precipício, com o mar no fundo, basta engatar o carro em primeira e zás. Na altura própria.

João ainda não almoçara, e nesse dia não lhe agradava a ideia de partir, não achava que fosse a altura própria. Além disso, não lhe apetecia ir para o outro lado com a barriga vazia.

João gostava muito de cabeça de pescada cozida com todos. Com todos é, como todos sabem, um acompanhamento variado, constituído por batatas, couves ou grelos ou feijão-verde, cenoura, cebola e ovo cozido.

– Traga-me por favor um galheteiro…azeite e vinagre.

– Quer um dentinho de alho?

– Com peixe não, só com bacalhau.

Ao abrir a cabeça da pescada ele viu que o bicho tinha, entre os dentes, uma coisa estranha. Aquilo que lhe pareceu ser um dedo. Sim, um dedo, um dedo humano. Poderia ser de homem ou de mulher, talvez de homem, a avaliar pela falangeta larga, mais do tipo baqueta de tambor, mas poderia ser de mulher e estar inchado pela água. Mirou, mirou e quando não teve dúvidas de que se tratava mesmo de um dedo, vomitou ali em cima do prato, vomitou tudo, esófago, estômago, duodeno, vesícula biliar e parte do fígado. Não vomitou mais porque entretanto desmaiou.

Quando acordou estava rodeado de caras, ainda mal definidas, que o olhavam de forma estranha, entre o curioso e o chateado. Anjos ou demónios? Estaria já no outro mundo?

– Sente-se bem?

– Acho que sim, desculpem mas perdi-me. Não sei bem onde estou. Boa tarde.

Saiu sem pagar, deixando a comida intacta e o empregado hesitante entre deixá-lo ir ou chamá-lo à atenção. Deixaram-no ir em paz.

Voltou ao alto da falésia onde deixara o carro e pensou:

– Não é a altura própria. Além disso, porra, há alternativas!

Comments


  1. Há sempre, sempre, bons motivos para viver!
    Gostei muito, estimado Adão!

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