França agrilhoada pelos políticos do medo

Os franceses elegem hoje o sucessor de Hollande, tendo, por opção de 45,31% deles na 1ª volta, a escolha entre Marine Le Pen e Emmanuel Macron. O sistema presidencialista francês, optou, constitucionalmente, por uma eleição dualista numa 2ª volta entre os dois candidatos mais votados, com o objectivo de proteger o seu país do vazio de poder e de presidentes eleitos sem uma maioria simples que legitime o seu poder.
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Evitando cair em crítica fácil por reducionismo, aponta-se, desde já, a principal virtude deste sistema – assegurar e reforçar a legitimidade do futuro Presidente, num sistema que o privilegia relativamente aos Parlamentos, sejam eles simples ou composto de câmara alta e baixa, como é o caso de França. No entanto, não podemos deixar de apontar alguns perigos para a Democracia que tal sistema comporta, nomeadamente dois, a saber:
1 – uma minoria pode obrigar uma maioria a votar em quem não se identifica [Read more…]

O erro ético

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O candidato da direita à presidência francesa, François Fillon, depois de se ter descoberto que tinha beneficiado a sua família no contexto da sua actividade política, veio a público reconhecer o “erro ético” e pedir desculpa aos franceses.

Se fosse por cá, era capaz de vir para os jornais negar tudo, mentir descaradamente, evocar os santos e a virgem Maria. Esconder-se-ia em casa durante duas semanas e depois regressaria sorridente, como se nada se tivesse passado, e até receberia um “prémio de prestígio” qualquer.

A França perdeu muito nos últimos anos, mas pelos vistos não perdeu a vergonha toda.

Que fazer com esta vitória, François?

François Hollande conseguiu hoje o mais fácil: derrotar Nicolas Sarkozy.

Sem ter obtido uma vitória retumbante (cerca volta de 4% a separá-los à hora a que escrevo), Hollande fez-se eleger como segundo presidente socialista da França. Sarkozy, por seu turno, tornou-se o primeiro presidente não reeleito.

Agora Hollande vai descer à terra e confrontar-se com questões fundamentais. Romperá ou continuará o caminho que têm levado os socialistas europeus, a chamada terceira via? Manterá a promessa de taxação das grandes fortunas? E as outras promessas de campanha? Aumentará a solidariedade europeia? Dará passos no sentido de maior integração europeia? Conseguirá concretizar os eurobonds? Será capaz de ter voz política face ao primado actual da economia? Como se relacionará com Merkel? Terá peso, perante ela, para influenciar e conseguir mudanças que não sejam apenas cosméticas? E como lidará com os fantasmas franceses, em particular a emigração e o avanço da extrema-direita?

Estas são algumas das questões cuja resposta fará toda a diferença ou quase nenhuma. Que vais fazer com esta vitória, François?