Trump, Bolsonaro e José Miguel Júdice entram num bar…

No seu espaço de comentário político da passada semana na SIC, José Miguel Júdice fez, com alguma subtileza, um exercício de normalização da extrema-direita, ao colocar, no mesmo patamar, os protestos em França contra o aumento da idade da reforma e os ataques ao Capitólio e à Esplanada dos Ministérios.

O objectivo do comentador, parece-me, não é tanto condenar os protestos em França. É, isso, sim, minimizar duas tentativas de golpe de Estado, nos EUA e no Brasil, despromovendo-os à categoria de protesto inorgânico.

Não perderei muito tempo com a absurda comparação, até porque a considero normal, vinda de um salazarista que integrou uma organização terrorista de extrema-direita. [Read more…]

Desordem e retrocesso

Entretanto, no Brasil, apoiantes de Bolsonaro invadiram a Esplanada dos Ministérios, derrubaram gradeamentos colocados pela polícia com camiões e receberam o apoio formal de um dos filhos de Bolsonaro, que foi ao local cumprimentar os membros da seita radical do pai, subindo a um dos camiões para ter o seu momento populista. Ordem, progresso e, é preciso dizê-lo, respeito pela autoridade. A extrema-direita brasileira é uma anedota do Fernando Rocha.

Os protestos de Terça-feira – apoiados e incentivados pelo presidente – que, entre outras coisas, defendem a invasão do STF e a execução de juízes e políticos de esquerda, é mais uma cereja no cimo do bolo extremista do bolsonarismo, uma das mais proeminentes expressões da rejeição do modelo ocidental de democracia, em democracia. E eu ainda sou do tempo em que destacadas figuras da direita nacional, como Portas ou Cristas, trataram de normalizar Jair Bolsonaro, porque entre a receita da extrema-direita e o fantasma de Lula, que foi muitas coisas mas nunca representou a mínima ameaça à democracia, a direita dita moderada escolheu Bolsonaro. Não admira que o CDS (e uma parte do PSD) esteja a ser devorado pelo cheerleader português do troglodita sentado no Planalto.