Por um preço de outro mundo

A coligação PSD/CDS aprovou a redução, no Orçamento de Estado de 2013, do subsídio que a Segurança Social concede para gastos com funerais. De repente, caiu de 2.515,32 Euros para 1.257,66 Euros. Metade, portanto. Acredito que o ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social tenha apresentado a medida com aquela hipócrita expressão de “isto custa-me mais a mim do que a vós” que já se lhe colou à cara.

Ora, um funeral decente – sem luxos, mas digno – facilmente ultrapassa os 2000 euros. E se antes o subsídio cobria os gastos, agora é insuficiente. Por isso há cada vez mais famílias a meterem-se num crédito para enterrar os seus defuntos, afinal um adequado corolário de uma vida endividada.

Já as funerárias cobram como se os salários médios do país fossem o triplo, enquanto os funcionários se desfazem em mesuras e sentimentos postiços. Nesta história, só mesmo o coveiro, com as cinzas debaixo do braço, é que não finge o que não sente.

O título é um verso roubado ao “Coro das Velhas” do Sérgio Godinho.

Morrer pode ser uma cena fixe:

faz-se uma festa, deixa-se de pagar impostos e poupa-se na conta da luz.

Como Se Fora Um Conto – Para Estes Não Há Funerais de Estado

Conheci-a num Centro Comercial. Vendeu-me alguns artigos de que eu necessitava e alguns outros que eu não sabia que queria. A sua simpatia era contagiante e o seu sorriso alegrava a alma.

A conversa, essa, veio naturalmente, e ficamos como que amigos. Fiquei a saber que o trabalho era bom e gratificante, que gostava do que fazia e que fazia o que gostava. Só tinha vinte anos mas já trabalhava há perto de quatro. Por incapacidade económica não tinha estudado mais que até ao fim do ensino obrigatório. Talvez que um dia continuasse. Por agora, sentia-se bem assim. Estava a subir na carreira de ‘balconista’, e até já mandava em parte da sua secção. Para além disso, tinha outros interesses que lhe tomavam todo o tempo disponível. [Read more…]

Outros funerais

romagem-1908-01

Populares depondo flores nas campas de Alfredo Costa e Manuel Buiça

O meu colega Nuno Castelo-Branco escreve sobre os funerais do rei Carlos e  seu filho e faz muito bem.

Já agora aproveito para deixar aqui umas citações sobre as homenagens do povo de Lisboa a Manuel Buiça e Alfredo Costa, executores dos citados senhores.

“Buiça e Costa foram visitados na morgue, como confirmam até mesmo escritores monárquicos, por milhares de pessoas, sobretudo homens e rapazes. (…) o enterro (…) foi rodeado de medidas de segurança, mas realizou-se quase clandestinamente pela madrugada. (…) Este procedimento é fácil de explicar. As autoridades monárquicas não arriscaram a possibilidade de o enterro dos regicidas poder tornar-se uma homenagem aos mesmos.

Apesar das precauções, no cemitério do Alto de S. João as campas não deixaram de ser visitadas, originando mesmo uma verdadeira romagem, que se repetiria nos anos seguintes. O monárquico António Cabral referiu-se-lhe como uma “(ignóbil peregrinação da matulagem republicana (…). Falou-se de 80 mil pessoas (segundo outras fontes cerca de 22 mil) que foram depor flores e deixar bilhetes nas campas

(…).

“Milhares de pessoas foram hoje ao Alto de S. João pôr flores nas covas dos assassinos d’El-Rei e do Príncipie!! Dá vontade de renunciar a nacionalidade! Arre canalha!”, escreve o médico da Real Câmara Tomás de Melo Breyner em 16 de Fevereiro de 1908.”

Mª Alice Samara, O Regicídio

“Aquele mistério dos funerais nocturnos causara grande impressão e viu-se uma cidade dividida em cóleras profundas. Muita gente fechava a janela, envergara o seu luto, quedava-se numa dolorosa expectativa; outros iam para o cemitério e espalhavam flores sobre as sepulturas dos regicidas. Organizavam-se combinações nos centros republicanos e a determinada hora chegavam alguns dos redactores dos jornais avançados, sobraçando ramos, e deixavam-nos sobre as campas. Conheciam-se as dos assassinos; a do assassinado, por engano, durante o tumulto, não recolhia uma só pétala. Ousadamente atiravam-se bilhetes-de-visita para terra seca diante da polícia, num desafio. (…)

Nas montras continuava a exposição dos seus retratos. A fama dos dois homens enchera as bocas e as almas; à porta da necrópole, durante alguns domingos, vendiam-se postais com os seus bustos e os garotos gritavam: “Olha o retrato do Costa e do Buiça… Olha o retrato dos mártires!”

Rocha Martins, O Regicídio