Mais uma vez, Manuel Buiça, eles demonstram a tua razão

professor manuel buiça

É rotineiro, caro Manuel Buiça, de volta e meia voltam a insultar a tua memória sem se aperceberem que te estão a glorificar. Os do costume, herdeiros da vil aristocracia, esse gente medíocre e preguiçosa que durante séculos sugou a pátria pela qual morreste.

Nem se apercebem do ridículo, choramingam agora porque um jornalista invocou o pai que foste, e até nisso te sacrificaste. Querem retirar-te o estatuto de humano, tu que amaste, defendendo eles uma das muitas famílias artificiais como sempre foi da natureza dos matrimónios régios, gente que casava por razões diplomáticas, obrigada a viver com quem lhe encomendaram, com a consequência óbvia de se multiplicarem os bastardos e o gosto natural das rainhas pelos tectos elevados, que sempre lhes poupavam as testas.

Invocam que executaste um chefe de estado, sem cuidar da nula legitimidade de quem ocupa um cargo por herança, da sua responsabilidade na ditadura de João Franco, mas esquecendo que quem nasce com direitos superiores ao do comum dos mortais pode bem morrer para se igualar com eles, omitindo que o regicídio é um vulgar acidente de trabalho na vida de um monarca. [Read more…]

Viva o Rei! Abaixo a Intolerância!

Sou simpatizante da causa monárquica. Não gosto do tom provocador do meu amigo João José Cardoso. Mas gosto mais do João José Cardoso do que estou disponível para me escandalizar com o que pense. Não sou comunista nem posso ser anti-comunista.

Ao JJC é preciso respeitá-lo, amá-lo, compreendê-lo e opor-se-lhe com génio e inteligência, especialmente num âmbito muito dado às lógicas branco/preto, maus/bons, quente/frio por que certa cultura de pensar fez o seu trajecto secular.

É preciso também que tenhamos aquela tolerância editorial e aquela paciência benevolente por que se pautou a Monarquia Constitucional na maior parte do tempo e a República inicial destruiu, forjada em sangue, em jacobinice, caos, balbúrdia, acotovelamento ávido do mando, pensamento único, a baixeza indigna dos assassínios, das purgas, sangue e mais sangue, até ao cansaço-acalmia de uma Ditadura da qual alguns depois se queixaram, quando precisamente abriram caminho a ela pela morte estéril e equivocada de um Chefe de Estado. Digam-me um só exemplo de utilidade e benefício humanitário ou democrático de um tal tipo de assassínio.

Notoriamente o País pagou caro o regicídio, a desgraça desse assassínio covarde e inútil. Não será, porém, a revolução, mas a aclamação que mudará as lógicas pervertidas do actual Regime em Portugal com as suas elites viciosas. Não será talvez uma tarefa para esta geração, mas para cem ou mais anos de persuasão, comportamento exemplar, argumentos racionais e de bom senso.

Tenham medo, ele agora está do vosso lado

Manuel Buiça e Alfredo Costa- herois nacionais

Perante uma afirmação de Mário Soares, por menos do que se está a fazer caiu Carlos de Bragança, a extrema-direita entrou em pânico. O problema desta gente é a noção de impunidade que imaginam protegê-los. Não há impunidade. Nem num ciclo político normal, onde se paga nas urnas, muito menos no golpe de estado que vão orquestrando, que conduz inevitavelmente a outras urnas.

Aquilo que estão a tentar fazer em Portugal falha sempre em democracia, seja porque esta funciona, seja porque deixa mesmo de funcionar.

Por enquanto não apareceu um Manuel Buiça e um Alfredo Costa, ilustres portugueses que sacrificaram a sua vida em combate contra uma ditadura, apenas porque ainda não foi tempo disso. Quem ataca doentes e  desempregados com a desfaçatez de saberem que isso não os atinge, quem pensa que a humanidade é uma selva darwinista,  arrisca-se a levar com a selva em cima e está a fabricar Buiças e Costas. Nota-se essa ilusão de impunidade na forma como já nem o sustento do poder, tropa e polícia, escapa à selvajaria. Esquecem-se que neste particular Portugal não é mesmo a Grécia, onde a ameaça de um golpe militar fascista paira todos os dias. Portugal é mais Abril. e também Maria da Fonte.

À memória de Manuel Buíça e Alfredo Costa

Lisboa, lambida na suavidade do seu sol de Inverno, só tinha olhos para as vitrinas, onde se mostravam os bustos dos assassinos reais craionados ou em fotografia.

Uns comerciantes arvoravam-nos por simpatia, outros pelo reclame que constituíam esses quadro, pois centenas de pessoas paravam a contemplá-los. Havia quem os afixasse por imitação. Não apareciam as manifestações de saudade para com o Rei nessas exibições: o seu rosto e o do seu filho apenas se podiam ver através dos vidros das urnas fúnebres. (…)

Por fim deixara-se livre a entrada no necrotério e a multidão era tanta que se tornara necessário, a fim de evitar as brutalidades dos empurrões, encharcá-la com agulhetas do serviço. Era assim às primeiras horas e as autoridades estavam tranquilas, diante das manifestações, não vendo o advento da República em cada uma dessas curiosidades de convictos ou de aderentes. A exaltação pela memória dos matadores tinha um ar de alucinação colectiva em certas camadas; as mulheres repeliam esse culto e choravam pelos assassinados; rezavam. (…) [Read more…]

A República

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 É História bem conhecida que a República portuguesa não foi uma opção do povo bem como uma implantação por um grupo do Partido Republicano, pelos maçons e um largo número de apoiantes populares que estavam cansados de serem explorados no trabalho das terras dos Condes, Duques e Barões, que viviam uma rica vida, [Read more…]

No Terreiro do Paço e em Dallas

Há quase cinquenta anos, um misterioso tiroteio em Dallas, tornou possível testemunhar quase em directo, o assassínio de um Chefe de Estado. Na ocasião, John Kennedy – uma das mais colossais fraudes mediáticas do passado século – foi abatido aos olhos de uma população chocada e incrédula. As imagens do acontecimento, são igualmente o testemunho da normal aflição de Jackie Bouvier Kennedy que desvairada, rasteja pela parte traseira da limusina presidencial. O pânico daquela mulher, a cabeça estilhaçada do presidente e a tragédia interiorizada por um povo inteiro, remete-nos para aquele outro dia, pouco mais de meio século antes, quando o landau preto, transportava a família real portuguesa. Os mesmos sons de tiroteio, as correrias apavoradas dos atónitos espectadores da matança, a coragem abnegada de cocheiros, polícias e de alguns populares. Mas neste caso, o que a memória colectiva registará para sempre, foi a atitude de uma mulher que erguendo-se na carruagem, teve o braço firme que faltou ao governo, à policia e à população que escapou amedrontada. Dª Amélia não fugiu nem procurou proteger-se. Mais do que a própria vida, defendeu os seus e com a esta demonstração pública de abnegada coragem, honrou o trono e a sua pátria de eleição.

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A Carbonária, a «coruja» e a conspiração do Regicídio – 2 (Centenário da República)

Bandeira da Carbonária Portuguesa.

Pelos últimos dias do ano de 1907, por ocasião do Congresso Internacional de Imprensa que se realizou em Paris, tiveram lugar algumas reuniões entre políticos republicanos portugueses e revolucionários franceses. Os encontros realizaram-se no café de um hotel, que creio ainda existir, pois não há muitos anos fiquei lá hospedado uns dias – o Hotel Brébant, no Boulevard Poissonière (um hotel relativamente barato, mas que não recomendo – um rato resolveu fazer-me companhia e comer parte de uma tablete de chocolate que deixei sobre a mesa da televisão…).

Nessa reunião de há 103 anos o assunto em agenda era, nem mais nem menos do que a supressão física de João Franco, chefe do Governo português. Na sequência dessa e doutras reuniões, foi criado o «Grupo dos 18», com a missão especifica de organizar a execução de João Franco. Um mês depois, em 28 de Janeiro de 1908, eclodiu a chamada «Revolta do Elevador», da qual falei aqui. Como disse, a revolta falhou e muitos dos líderes foram presos.

Entre os republicanos que a polícia encarcerou, estava Luz de Almeida, o comandante supremo da Carbonária. Grandes vultos do Partido Republicano Português – João Chagas, França Borges, António José de Almeida e muitos outros, foram também presos. Alguns conseguiram fugir, como os monárquicos dissidentes do Partido Progressista, entre eles José Maria de Alpoim e o visconde da Ribeira Brava. Como é que monárquicos estavam ligados a republicanos e com eles conspiravam para derrubar a Monarquia? [Read more…]

A Carbonária, a «Coruja» e a conspiração do Regicídio – 1 (Centenário da República)

Com mais este terceiro texto (desdobrado em dois) sobre o tema do Regicídio encerrarei, para já, este assunto. Com a plena consciência de que muito (ou mesmo quase tudo) fica por dizer. Tendo servido de assunto a muitos livros, a questão do Regicídio não se esgota em pequenas crónicas que, como esta, apenas permitem aflorar, muito superficialmente, alguns aspectos. Nos textos anteriores, além de um enquadramento político do atentado, vimos como ele se passou.

Como disse no texto anterior, todas as reconstituições iconográficas do Regicídio são, no mínimo imprecisas. A que vemos acima é, apesar de tudo, uma das menos fantasiosas. O cenário está perfeito, é a Rua do Arsenal sem invenções. O Costa está a ser agarrado pelo cívico que lhe vai disparar um tiro na cabeça. Mas, à esquerda vemos Buíça, que tinha ficado no Terreiro Paço e ali terá sido acutilado e morto. Todavia, mesmo com este erro, talvez seja, entre as muitas dezenas de reconstituições que vi, a que menos mente.

Em todo o caso, ficou na sombra algo que nunca se esclareceu. No Terreiro do Paço, além de Buíça e de Costa, quantos mais elementos intervieram. Pela peritagem da Polícia Científica, chega-se à conclusão de que foram pelo menos cinco, os que participaram no atentado. É uma evidência que os projecteis encontrados, nos corpos, no landau, nas arcadas, foram provenientes de cinco armas diferentes, embora duas delas fossem iguais – carabinas Winchester de calibre 351.

Identificou-se também as munições de calibre 7,65, da pistola Browning do Costa. No landau, foram encontrados vestígios de projécteis de calibre 6,35 e, também no landau, a perfuração de um projéctil 5,5 do chamado tipo «Vello-dog», revólveres de pequeno calibre e fraco poder de penetração que os ciclistas usavam para afastar os cães. [Read more…]

Ainda o Regicídio (Centenário da República)

Este texto é um apêndice de um outro que aqui publiquei no dia 1 de Fevereiro. Como disse na altura, o meu intuito não é resolver o mistério do Regicídio, mas sim esclarecer sobre o que se passou na tarde daquele dia, em 1908, no Terreiro do Paço. Não porque não gostasse de desvendar esse mistério, mas porque os dados que permitiriam saber o que verdadeiramente esteve por detrás do atentado têm sido sistematicamente ocultados.

Embora se saiba, sem margem para dúvidas, que uma conjura de monárquicos, mais concretamente de gente da Dissidência Progressista, liderada por José de Alpoim e pelo visconde da Ribeira Brava, esteve na base da conspiração. Diz José Luciano de Castro, em «Documentos Políticos»: «Os dissidentes, que para a generalidade do país, são os principais responsáveis da tragédia do 1 de Fevereiro de 1908, e que, se não destruíram a monarquia foi porque não puderam».

No meu romance «A Sinfonia da Morte» encontro uma explicação plausível e na qual acredito; mas trata-se de uma ficção, onde as suposições (plausíveis ou não) são permitidas. Inclusivamente, nos chamados romances históricos, é pelos hiatos da documentação histórica que a teia da ficção passa e se constrói. Mas hoje, ainda não vos falarei da tal célula clandestina dentro da própria Carbonária, a «Coruja» que terá, segundo se julga saber, planificado o crime. Isso ficará para um outro texto. Hoje vou falar do que se passou no Terreiro do Paço em 1 de Fevereiro de 1908, cerca das 17 horas. [Read more…]

2010: o Regicídio foi necessário à República


Sugerimos que este estoriador seja urgentemente nomeado presidente da tal Comissão Nacional do Centenário. Ele tem a coragem de dizer desabridamente, tudo aquilo que o bando de percevejos oficialistas pensa em absoluta reserva mental.

‘Estas mortes* foram necessárias e a prova é que imediatamente à morte, o ditador foi exonerado, foi revogado o decreto-lei que mandava para o exílio grandes vultos da República detidos como consequência da sua intervenção de 28 de janeiro, e mais tarde a República que se veio a implantar’, sublinhou.

Por isso, não se incomoda que o regicídio tenha ficado à margem das comemorações oficiais dos cem anos da República.

‘Não estamos nada chocados por causa das comemorações oficiais não integrarem este acontecimento histórico porque todos os historiadores ligados à investigação já provaram que foi importante esse acontecimento para a implantação da República’, sustentou.

* O Regicídio

O Regicídio (Centenário da República)

Já muita coisa foi dita sobre o Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, data sobre a qual passa hoje o 102º aniversário. As versões do que se passou são muitas e, segundo pude apurar, raramente se aproximam da verdade. As que li nos jornais da época, contradiziam-se entre si. As próprias imagens divulgadas não são aceitáveis. Por exemplo, o desenho que vemos acima, publicado na «Ilustração Portuguesa» (e reproduzido de uma revista de Londres), não é rigoroso. A perspectiva que vemos só poderia ter sido tomada já na Rua do Arsenal. Ora, o Buíça que vemos a ser acutilado pelo oficial da Guarda, ficara ainda no Terreiro do Paço, de onde disparara, aí sendo morto.

Aliás, está errada, como todos as outras reconstituições que foram aparecendo em publicações portuguesas e estrangeiras, dezenas e dezenas de versões iconográficas do atentado. São todas elas mais ou menos fantasiosas. Ou seja, podem ter um ou outro pormenor correcto, mas logo falham, por exemplo, na localização dentro do landau dos quatro membros da família real, no posicionamento dos regicidas ou na correcção do cenário. [Read more…]

A caminho da República: Nos 119 anos do 31 de Janeiro

A caminho da República – Nos 119 anos do 31 de Janeiro . Os Videos do Aventar http://d1.scribdassets.com/ScribdViewer.swf
«Power-point» preparado para a abertura das comemorações do Centenário da República numa escola básica do Grande Porto. O documento aparece desformatado e os filmes que surgem no interior não arrancam neste formato. Por isso, a visualização não é a melhor e por isso peço desculpa. Seja como for, o «power-point» original está ao dispor dos leitores que o desejarem e em especial dos professores de História. Basta que nos peçam.

Centenário da República: a bandeira nacional

Este texto, com ligeiras diferenças, foi publicado em 5 de Outubro de 2009.

Às 9 da manhã de 5 de Outubro de 1910, a bandeira da República foi içada na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. José Relvas fez a proclamação do regime e a nova insígnia nacional, que andava em milhares de mãos, feita artesanalmente, muitas vezes com as cores ao contrário, lá subiu no mastro perante uma multidão que enchia o Largo do Pelourinho (ou do Município). Estas mudanças são sempre traumáticas para quem as sofre com elas não concordando. As duas principais cidades do País eram maioritariamente republicanas e esse factor foi decisivo.

Num país com 80% de analfabetos, as elites culturais eram também maioritariamente pelo fim da Monarquia. Mas, naturalmente, havia um número elevado de monárquicos mesmo entre os que contestavam a situação existente. Desde 1890, com a cedência perante o ultimato britânico, a instituição monárquica sofrera um rude golpe. Não sei onde foram os actuais monárquicos buscar a ideia de que a República foi implantada contra a vontade dos Portugueses.

Desde as comemorações camonianas de 1880, o ideal republicano vinha-se impondo entre grande parte da população – mas, além do ideal político subsidiário da Revolução Francesa de 1789,os dislates, na política e na vida pessoal, de D. Carlos foram uma das alavancas para o triunfo da República. [Read more…]

Outros funerais

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Populares depondo flores nas campas de Alfredo Costa e Manuel Buiça

O meu colega Nuno Castelo-Branco escreve sobre os funerais do rei Carlos e  seu filho e faz muito bem.

Já agora aproveito para deixar aqui umas citações sobre as homenagens do povo de Lisboa a Manuel Buiça e Alfredo Costa, executores dos citados senhores.

“Buiça e Costa foram visitados na morgue, como confirmam até mesmo escritores monárquicos, por milhares de pessoas, sobretudo homens e rapazes. (…) o enterro (…) foi rodeado de medidas de segurança, mas realizou-se quase clandestinamente pela madrugada. (…) Este procedimento é fácil de explicar. As autoridades monárquicas não arriscaram a possibilidade de o enterro dos regicidas poder tornar-se uma homenagem aos mesmos.

Apesar das precauções, no cemitério do Alto de S. João as campas não deixaram de ser visitadas, originando mesmo uma verdadeira romagem, que se repetiria nos anos seguintes. O monárquico António Cabral referiu-se-lhe como uma “(ignóbil peregrinação da matulagem republicana (…). Falou-se de 80 mil pessoas (segundo outras fontes cerca de 22 mil) que foram depor flores e deixar bilhetes nas campas

(…).

“Milhares de pessoas foram hoje ao Alto de S. João pôr flores nas covas dos assassinos d’El-Rei e do Príncipie!! Dá vontade de renunciar a nacionalidade! Arre canalha!”, escreve o médico da Real Câmara Tomás de Melo Breyner em 16 de Fevereiro de 1908.”

Mª Alice Samara, O Regicídio

“Aquele mistério dos funerais nocturnos causara grande impressão e viu-se uma cidade dividida em cóleras profundas. Muita gente fechava a janela, envergara o seu luto, quedava-se numa dolorosa expectativa; outros iam para o cemitério e espalhavam flores sobre as sepulturas dos regicidas. Organizavam-se combinações nos centros republicanos e a determinada hora chegavam alguns dos redactores dos jornais avançados, sobraçando ramos, e deixavam-nos sobre as campas. Conheciam-se as dos assassinos; a do assassinado, por engano, durante o tumulto, não recolhia uma só pétala. Ousadamente atiravam-se bilhetes-de-visita para terra seca diante da polícia, num desafio. (…)

Nas montras continuava a exposição dos seus retratos. A fama dos dois homens enchera as bocas e as almas; à porta da necrópole, durante alguns domingos, vendiam-se postais com os seus bustos e os garotos gritavam: “Olha o retrato do Costa e do Buiça… Olha o retrato dos mártires!”

Rocha Martins, O Regicídio

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