Outros funerais

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Populares depondo flores nas campas de Alfredo Costa e Manuel Buiça

O meu colega Nuno Castelo-Branco escreve sobre os funerais do rei Carlos e  seu filho e faz muito bem.

Já agora aproveito para deixar aqui umas citações sobre as homenagens do povo de Lisboa a Manuel Buiça e Alfredo Costa, executores dos citados senhores.

“Buiça e Costa foram visitados na morgue, como confirmam até mesmo escritores monárquicos, por milhares de pessoas, sobretudo homens e rapazes. (…) o enterro (…) foi rodeado de medidas de segurança, mas realizou-se quase clandestinamente pela madrugada. (…) Este procedimento é fácil de explicar. As autoridades monárquicas não arriscaram a possibilidade de o enterro dos regicidas poder tornar-se uma homenagem aos mesmos.

Apesar das precauções, no cemitério do Alto de S. João as campas não deixaram de ser visitadas, originando mesmo uma verdadeira romagem, que se repetiria nos anos seguintes. O monárquico António Cabral referiu-se-lhe como uma “(ignóbil peregrinação da matulagem republicana (…). Falou-se de 80 mil pessoas (segundo outras fontes cerca de 22 mil) que foram depor flores e deixar bilhetes nas campas

(…).

“Milhares de pessoas foram hoje ao Alto de S. João pôr flores nas covas dos assassinos d’El-Rei e do Príncipie!! Dá vontade de renunciar a nacionalidade! Arre canalha!”, escreve o médico da Real Câmara Tomás de Melo Breyner em 16 de Fevereiro de 1908.”

Mª Alice Samara, O Regicídio

“Aquele mistério dos funerais nocturnos causara grande impressão e viu-se uma cidade dividida em cóleras profundas. Muita gente fechava a janela, envergara o seu luto, quedava-se numa dolorosa expectativa; outros iam para o cemitério e espalhavam flores sobre as sepulturas dos regicidas. Organizavam-se combinações nos centros republicanos e a determinada hora chegavam alguns dos redactores dos jornais avançados, sobraçando ramos, e deixavam-nos sobre as campas. Conheciam-se as dos assassinos; a do assassinado, por engano, durante o tumulto, não recolhia uma só pétala. Ousadamente atiravam-se bilhetes-de-visita para terra seca diante da polícia, num desafio. (…)

Nas montras continuava a exposição dos seus retratos. A fama dos dois homens enchera as bocas e as almas; à porta da necrópole, durante alguns domingos, vendiam-se postais com os seus bustos e os garotos gritavam: “Olha o retrato do Costa e do Buiça… Olha o retrato dos mártires!”

Rocha Martins, O Regicídio

Comments


  1. O Alfredo Costa e o Manuel Buíça eram dois militantes da Carbonária aos quais calhou a responsabilidade de executar o Regicídio. Está hoje provado que foram manipulados por gente ligada à Alta Venda da organização; pessoas todas elas monárquicas, pertencentes á dissidência do Partido Progressista (tais como José Alpoim e o visconde de Ribeira Brava). Eles eram republicanos, talvez anarquistas, mas estavam numa loja, a Coruja, onde essas altas figuras eram dominantes. Chamar-lhes assassinos, quando sacrificaram a própria vida, parece-me excessivo. Cumpriram ordens e naquela organização havia mesmo que cumpri-las.


  2. Enfim, pelos vistos, continua a normalização do crime. vamos por bom caminho… Quanto ao Ribeira Brava e ao Alpoim, o Carlos esquece-se de falar do Costa e do A. José de Almeida, este último o responsável pelas bombas do prp. Quanto à pistola do regicida Costa, o sr. Afonso Costa gostava de a exibir como tendo por ele próprio sido entregue ao seu homónimo e chegou ao ponto de fazer os seus acólitos beijar o revólver, como se de uma santa relíquia se tratasse. Odiaria viver hoje num país assim.


  3. Meu caro Nuno, chamo a sua atenção para o belo texto sobre o Fontes escrito por um tal Nuno Castelo-Branco (não sei se conhece). Ali se diz do carácter científico da História – cientifismo que não se compadece com maniqueísmos e, muito menos, com ideias feitas. As armas do Regicídio foram compradas pelo Ribeira Brava através do armeiro Heitor Ferreira, também ele monárquico. A Browning do Costa, se lhe foi dada antes, não sei. Todo o Regicídio foi orquestrado por monárquicos, por mais que isso lhe custe. Os executores foram dois pobres idealistas que pagaram com a vida o seu crime. Nâo terão sido mais criminosos os que os manipularam?


  4. Como aos seus olhos serei certamente suspeito, recomendo-lhe o livro de um monárquico – «Diário de D.Manuel II – um estudo sobre o regicídio», de Miguel Sanches de Baêna.

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