Teoria da Tradução: temos de enfrentar o fato

Expresso, ao traduzir excertos do discurso de James Comey na Universidade de Georgetown, apresentou (há cerca de uma semana) uma proposta, no mínimo, ousada.

Comey disse:

We need to come to grips with the fact that this behavior complicates the relationship between police and the communities they serve.

Expresso traduziu:

Temos de enfrentar o fato de que esse comportamento dificulta a relação entre a polícia e as comunidades que servem.

enfrentar o fato

Muito bem.

Por seu turno, o Diário da República continua em excelente forma.

o fato

Felizmente, “em Portugal, as novas regras estão a ser aplicadas sem atropelos“.

Óptimo

Há cerca de dois anos, elaborei uma “pequena amostra de levantamento acessório“.

Entretanto, pelos vistos, segundo Barreto Xavier, “em Portugal, as novas regras estão a ser aplicadas sem atropelos“.

Óptimo. “Sem atropelos” e “sem problemas de maior“.

Ficamos todos muito mais descansados.

dre 26012015

Alexandra

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© Miguel Manso

Conheço a Alexandra Lucas Coelho há muitos anos, somos mais ou menos da mesma geração de jornalistas, creio que ela mais nova. Recordo uma viagem que fizemos juntas há muitos anos pela então recém-inaugurada rede de bibliotecas públicas. Creio que trabalhava então para a Antena 1. Conheço-a mal, não somos amigas, há anos que não a vejo, mas conheço o que escreve e gosto do que leio – há um entendimento entre nós que passa pela escrita, pelo jornalismo que olha para as sociedades de hoje, mas talvez, e sobretudo, pelo jornalismo literário, pelos melhores escritores, editores, livros, pelo amor pelas belas letras que formam o poema (e o poema pode não ser poesia), para falar disso que me une a umas esparsas pessoas, que por vezes mal conheço mas que habitam essa parte incerta onde também sou.

Li o discurso que a Alexandra Lucas Coelho proferiu na cerimónia de atribuição de um dos mais importantes prémios literários do País, que este ano a contemplou a ela. Dou-lhe os meus parabéns, tenho a certeza de que o seu livro o merece. Lucas Coelho escreve muito bem, há muito que reconheço nela uma escritora. Hei-de ler o seu livro seguramente. Dou-lhe também os meus parabéns pelo discurso que fez. Numa altura em que praticamente não se ouve ninguém, em que os escritores se calam, num silêncio de chumbo que pessoalmente me pesa (como a muitos mais, tenho a certeza), é muito bom haver alguém que se chega à frente para dizer o que muitos gritam mas ninguém ouve. Talvez tenham medo que Jorge Barreto Xavier os censure por serem «primários». [Read more…]

A ex-ministra amnésica e o secretário da estado burro

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O Jorge já se referiu à questão das obras de Joan Miró.
Tal como a ele, faz-me confusão a amnésia selectiva da ex-ministra Gabriela Canavilhas. Uma das maiores terroristas culturais do nosso país, uma das principais responsáveis pela destruição do Vale do Tua e da sua linha ferroviária única, tem o desplante de vir agora clamar contra a venda de algumas dezenas de quadros de um pintor espanhol. Minha senhora, sou contra essa venda, mas não me esqueço do que fez quando passou pelo Governo com um património mil vezes mais importante do que aquele que está agora em causa.
Quanto ao actual secretário de estado, é de uma demagogia incrível ao perguntar se os portugueses querem que se vá buscar dinheiro à Saúde ou à Educação para pagar aquelas obras. É que as pinturas de Miró já pertencem ao Estado, não é preciso ir buscar dinheiro a lado nenhum porque elas já cá estão. Para injectar mais 510 milhões no BPN (nunca vai parar?), sim, é preciso ir buscar dinheiro à Educação ou à Saúde. Para as pinturas não.
Para além de demagógico, é burro. Ao falar como fala, no fundo está a dizer que a Cultura não serve para nada porque os tempos são de austeridade. Ele próprio não está lá a fazer a ponta de um corno. Ele próprio não tem razão de existir enquanto secretário de estado, nem o assessor que contratou a ganhar 3 mil euros por mês, nem o seu «motorista especial», nem o raio que os parta.

Boys, boys, boys

Não, não é a música da Sabrina. Mas podia muito bem ser até porque, se à coisa que estes gajos gostam, é de mama e de coçar a micose no summertime love das universidades de verão.

Longe vão os tempos em que o grande aldrabão afirmava que não iria “enxamear” a Administração Pública de boys do seu partido. Anos antes, em 2005, Passos ia mais longe e defendia com convicção que “Um membro do governo tem direito a escolher um chefe de gabinete, uma ou duas secretárias de confiança e um ou dois adjuntos. Acabou“. A realidade, essa danada, conta-nos uma história bem diferente: os boys multiplicam-se, podem sair da fábrica imunes a cortes, alguns são pagos pelo orçamento da AR e, imagine-se, chegam mesmo a ser “especialistas” aos 21 ou 22 com a função de acompanhar questões menores como o programa de assistência financeira.

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