Sem metafísica

E tu, preferias uma morte súbita ou ter tempo para preparar-te?

Eu pestanejo. Aclaro a garganta. Hesito com um “Bem…”.

Que diabo, na antevéspera de Natal, que raio de pergunta é esta?

Lembro-me de que há dias ouvi um podcast já com algumas semanas do “Questões de moral”, do Joel Costa, que era uma curiosa e muitas vezes divertida reflexão sobre a morte. Também ele aflorava essa questão, e até aventava que as suas últimas palavras poderiam vir a ser “Teve piada”.

Os compradores de última hora, entontecidos pelo circuito de hamster nas ruas da Baixa, roçam os ombros nos nossos mas nada ouvem da conversa.

Pergunto se preferias uma morte súbita ou ter tempo para preparar-te?

Esta gente assim, tão metafísica, esta gente que acha que não se pode desperdiçar um minuto que seja com um pensamento fútil, eu a esta gente nem sei que responda, a não ser que vi um casaco numa montra da rua Formosa que me vai ficar mesmo bem.

Levo um saco cheio de figos e alperces secos. Comprei um livro que me apetece mesmo ler. Tenho as mãos geladas e quero ir-me embora.

Ó Jorginho, eu preferia morrer de repente, mas para já deixa-me passar o Natal sossegada.

Lá se foi o Jorginho filósofo a remoer uma angústia e eu toda contente a caminho do metro.
Eu não sabia, claro, mas o Jorge era afinal um reles profeta. Porque poucas horas depois iria cair morta alguém a quem eu já não via há muitos anos, mas que foi uma das mulheres da minha infância, e se houve coisa que a minha infância teve foi mulheres inspiradoras.

Não quero contar nenhuma história dessa vida, por respeito à família e a quem já não está cá, mas a Alzira, acreditem no que vos digo, foi uma mulher extraordinária. Tinha um sentido de justiça, de lealdade e de honradez admiráveis. Era valente e abnegada. Já passara há muito dos 60 quando teve de voltar a ocupar-se da família, cuidar do filho a quem a doença iria matar antes do tempo, dar guarida a netos desavindos com os pais, ser outra vez o esteio da família.
E de tão forte e altruísta, nem sequer se permitiu uma doença curta, que a fizesse ter alguém a debruçar-se sobre a sua cabeceira. Tinha mais de 80 anos e continuava a sair sozinha todos os dias. Tombou em plena rua, prestes a chegar à casa onde passaria a consoada, e apressou-se a partir sem que alguém tivesse tempo de ocupar-se dela.

E até tenho a certeza de que teria sido feliz se tivesse podido antever que seria esse o fim e só deve ter lamentado a data, por ter estragado a noite a todos. Sem sofrimento, sem se sentir um fardo, sem lamentar o tempo que fazia perder.

Será isto o melhor? Há tempos surpreendi-me quando ouvi alguém dizer que preferia morrer de uma doença longa, que lhe permitisse despedir-se da gente querida, fazer por última vez aquilo de que mais gostava, ou pela primeira o que sempre adiara por razões que de repente deixavam de ser importantes, e assim poder saldar as contas com a vida e morrer tranquilamente.

Eu sempre ouvira formular o desejo de ter uma morte súbita, indolor, e também pensava que esta seria desejável, e fiquei desconcertada com esta nova versão. Morrer devagar, viver esses dias com a presença da morte, para assim poder fechar o livro sem ressentimentos, sem a angústia da incompletude, sem inquietações.

Jorginho, já sei o quero: sabedoria e sentido de humor para viver até ao último dia, seja qual for o fim o que me tocar em sorte.

Não está mal fechar o ano a falar da morte. Nem escrever estas linhas para a Alzira, como um minúsculo diário de bordo do caminho que ela fez por aqui.

Comments


  1. Bem…, apetece dizer. A cada morte fecha-se um ciclo. Como há o início de outro a cada nascimento. Uma das frases que melhor aprendi é que a morte faz parte da vida.

  2. Luis Moreira says:

    Isso é pura perda de tempo. Eu, por mim, não lhe passo cartão, não a conheço, não gosto dela e acho-a feia. A que título é que íria pensar nela?

  3. maria monteiro says:

    porque a morte não escolhe dias nem idades, o melhor mesmo é pensar na vida, é não desperdiçar o tempo, é fazer das tristezas alegrias e viver, simplesmente viver porque… “acordar vivo” é o melhor do mundo

  4. Ricardo Santos Pinto says:

    Se pudesse antever a minha morte e ver o meu enterro, so ia desejar que todos os meus mais amados estivessem la a ver. Isso significaria que estariam vivos e que a lei da vida se cumpriria. Sem dramas.


  5. Amiga Carla, que de constipada não tem nada, pelo menos no espírito. Bonito texto como sempre. Constipado tenho andado eu, pelo que o café será adiado para o ano, ano esse que espero te traga tudo o que desejas. É um lugar comum mas é com verdade que o digo. Quanto à morte, da qual por força da vida não se gosta mas que se compreende, tenho lidado tanto com ela que quase a trato por tu, mas sem lhe mostrar cara simpática. não vou com ela, mas tenho de conviver com ela, o que não é fácil, sobretudo quando se trabalha em cuidados intensivos, o que hoje felizmente já não me acontece. Só não queria uma morte com data marcada, como a dos condenados. Acho tremendamente penosa e acho uma das mais cruéis e selvagens invenções do homem. Como ainda tenho algum espírito altruísta, e tenho muito gosto em tirar problemas de cima dos ombros dos outros, especilamente dos que me são mais próximos, não gostaria de morrer subitamente. Deixaria, apesar de não ter negócios nem fortunas, dificuladades inesperadas aos filhos. Prefiro a morte a prazo, mas nunca com data marcada, ainda que a saiba mais ou menos próxima. Tu cá tu lá, como disse, talvez nessa altura eu a olhasse de forma mais benevolente, e desse o braço a torcer.

  6. carla romualdo says:

    Adão, recupera-te depressa que temos um café à espera.

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