De Fernando Charrua a Mário Crespo

Os defensores do Governo, os do costume, andam muito escandalizados porque uma conversa privada, num restaurante, foi ouvida por ouvidos alheios e chegou até Mário Crespo.
É muito curioso que essas Virgens ofendidas não tenham tido a mesma preocupação quando, em 2007, o professor Fernando Charrua foi suspenso e processado na base de uma conversa privada, em local público, na qual ele alegadamente chamara filho da puta ao primeiro-ministro.
Pois é, as coisas são sempre vistas pelo prisma que mais interessa. É como as conversas privadas. Podem ser ouvidas, mas depende sempre do que é dito e dos interlocutores envolvidos. É que uns têm mais direito a privacidade do que outros.

COMO UMA MINORIA É ARROGANTEMENTE MAIORITÁRIA

OS CEM DIAS DO GOVERNO

Faltam poucos dias para que este governo, liderado por D. Sócrates II o Dialogador, veja debatido na Assembleia da República o seu Orçamento para 2010. Pelo que se sabe, o executivo conseguiu acordos que lhe são francamente favoráveis, tendo a oposição sido levada, com areia nos olhos, a aceitar a arrogância socialista.
Como é de costume, nesta altura, cem dias passados sobre a tomada de posse do governo, faz-se um balanço da actividade governativa dos nossos mandantes.
Nestes três meses, já foram três as fases por que passaram.
Na primeira, quando ainda não tinham interiorizado que tinham deixado de ter uma maioria absoluta, o governo mostrou-se extremamente arrogante.
Na segunda, a oposição, quando ainda não tinha interiorizado que não era governo, mostrou-se extremamente arrogante, a ponto de querer que o País tivesse o seu Orçamento e não o do governo.
Na terceira, aquela em que agora vivemos, os ânimos acalmaram, o governo mostrou começar a entender que não tinha a anterior maioria, encetando o uso de um diálogo cheio de promessas, e a oposição vai-se deixando embalar pelas palavras doces do governo.
Nas duas primeiras fases, o clima de tensão foi grande, com o casamento gay, o adiamento da entrada em vigor do Código Contributivo, e a extinção do Pagamento Especial por Conta a tomarem conta dessa tensão.
A entrada desta terceira fase coincide com o início do ano. Chegou o ansiado diálogo. As negociações para a aprovação do Orçamento de Estado, culminaram na abstenção dos principais partidos da oposição, garantindo a sua viabilização. Passaram todos a ser amigos do peito. Mas atenção, que a alteração da Lei das Finanças Regionais, pode, de novo, fazer azedar os ânimos.
Estamos nos momentos em que o governo entende começar de novo a adoçar a boca ao zé povinho, através de medidas de carácter populista. E lá surge a abertura de uma conta a prazo, de 200 euros, para cada nascido em território Nacional. Com essa medida espera-se que os casais portugueses, os que podem procriar, queiram ter filhos, quantos mais melhor, já que as condições de vida vão melhorar consideravelmente. Com esse dinheirinho, o Estado espera receber mais um voto no futuro e dois votos no presente.
A par dessa medida, o anúncio da paragem de certas obras públicas, serve também para acalmar certos pensamentos mais pessimistas, mas a posterior mensagem da sua não paragem, em especial as obras do TGV, não é bom augúrio.
Temos ainda a prova provada da enorme amizade que o governo nutre pelos Portugueses. Para nos beneficiar, e apesar da admissão de erro crasso do Ministro das Finanças, os nossos mandantes, dizem que decidiram de moto próprio aumentar o déficit das contas públicas, no ano de 2009. Tudo a bem de Portugal e dos Portugueses.
Por último, não parece ser nada bom, o termos um Primeiro Ministro, que, sempre pelas piores razões, se mantém nas bocas do povo.

Telejornal

O gerente do café explica o funcionamento do mesmo aos clientes. O primeiro-ministro
diz que ganhou a batalha da governabilidade. O governo mantém o aeroporto e a alta velocidade. O ministro das Obras Públicas discursa. o “pivot” do Telejornal é sério e usa gravata. O primeiro-ministro garante que o aumento do défice não foi descontrolo. O país janta e vê o Telejornal. O presidente da Junta anda descontrolado e bate uma punheta. O gerente do café continua a explicar o funcionamento do mesmo. O Orçamento é bom para o país. O ministro das Finanças admite que se engana. A deputada do CDS é boa…para o país. O défice dispara. As agências de rating controlam. O Bloco de Esquerda é bom para o país. Os deputados do Bloco de Esquerda são sérios mas não usam gravata. O gerente do café gosta de Coca-Cola. O governo já aguentou 100 dias. As garrafas estão expostas. O gerente arrota teses de doutoramento acerca do funcionamento do café. O primeiro-ministro é sério e usa gravata. Além disso, nunca se enerva. O primeiro-ministro é bom…para o país. O Presidente da República é sério e usa gravata. O líder do CDS também. O primeiro-ministro dá dinheiro aos bebés. O primeiro-ministro quer casar com a Carochinha. O primeiro-ministro e todos os ministros são bons…para o país. O gerente analisa agora a problemática da cerveja. O Presidente da República é sério e não bebe cerveja. O PPM quer referendar a monarquia. O PPM é sério e usa gravata. A autarca corrupta não vai a julgamento. O Obama continua a pregar. O gerente do café também. Todos os homens do poder são sérios e usam gravata. O Presidente da República é sério, honesto e usa gravata. Uma bombista suícida detonou explosivos em cima dos peregrinos. O México continua cheio de pistoleiros. O Presidente da República é sério, honesto, usa gravata e quer a estabilidade do país. O Leixões defronta o Marítimo. O gerente do café já resolveu todos os problemas da Humanidade. A brasileira alapa o cu ao balcão. O poeta escreve o que vê, o que ouve e o que lhe vem à cabeça. O Presidente da República é sério, honesto, usa gravata, quer a estabilidade do país e não apanha bebedeiras. O primeiro-ministro é bom…para o país e também não apanha bebedeiras. O ministro das Finanças é sério, honesto e usa gravata. Todos os homens públicos são bons…por natureza. A televisão promove os “Ídolos”. Os “Ídolos” são sérios, honestos, querem a estabilidade do país mas não usam gravata. O presidente da Câmara é bom…para a cidade. O TGV mantém-se, apesar do aumento da dívida pública. A sabedoria do gerente do café faz o meu cérebro dar voltas. O poeta é bom…mas também é mau, não quer a estabilidade do país, apanha bebedeiras e não usa gravata. O Pesidente da República é sério, honesto, usa gravata, quer a estabilidade do país, não apanha bebedeiras e só percebe de finanças. O ministro das Finanças é bom…para o país. O Presidente da República, o primeiro-ministro, o ministro das Finanças, todos os ministros, a oposição, o Orçamento, o presidente da Câmara, o presidente da Junta, o “pivot” do telejornal, o Leixões, os “Ídolos”, os pistoleiros mexicanos, a bombista suícida, os empresários dos carrosséis, o CDS, o PPM, o Bloco de Esquerda e o gerente do café são bons…para o país. A Beyoncé mostra as mamas. A Beyoncé é boa…para o país.

ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO, Candidato à Presidência da República

O discurso da tomada de posse

do Primeiro-Ministro.

Sócrates e as Presidenciais de 2016

José Sócrates assume que nunca quis diálogo com a Oposição nos últimos 4 anos e que nunca se esforçou minimamente para obtê-lo. Porque não precisava. «A situação política mudou e o meu dever é dialogar com todos os partidos».

O tempo de duração deste Governo vai depender em grande parte da estratégia do próprio primeiro-ministro. Hábil nestas coisas, usará a arma da vitimização para evitar ser derrubado ou, ao invés, forçará a queda para haver novas eleições e reconquistar a maioria absoluta perdida.

Resta saber qual será o «timing» da preferência de Sócrates, visto que a Assembleia só pode ser dissolvida entre Março e Setembro de 2010 e, depois disso, só a partir de Março de 2011. Ora, não se espera que um Presidente da República, como primeira medida de um mandato, dissolva a Assembleia. E sendo assim, estaremos a menos de dois anos do fim da Legislatura. E haver eleições nessa altura significaria que novo mandato de Sócrates com maioria levá-lo-ia como primeiro-ministro até finais de 2015.

O problema, e já o disse aqui, é que o horizonte temporal de José Sócrates é as Presidenciais de 2016. 

 Mas para concorrer, não pode ser primeiro-ministro até finais de 2015, caso contrário arrisca-se a perder. Assim, ou termina o mandato em 2013 e agurda dois anos até anunciar a sua candidatura à Presidência da República, dedicando-se entretanto «à família e aos livros»; ou força a dissolução da Assembleia já entre Setembro e Março de 2010 para conseguir depois nova maioria absouta e poder governar até 2014. Dedicar-se-á então apenas um ano à família e aos livros (chega-lhe muito bem, porque as citações já ele as decorou todas) antes de anunciar, em nome do interesse nacional, a candidatura à Assembleia da República.