O Cristiano Ronaldo é o maior, mas…

deixemo-nos de nacional-parolismos: uma coisa é a marcação cerrada feita pelo entulho cor-de-rosa, que é capaz de dedicar páginas e páginas à cor das unhas da irmã, aos hipotéticos casos amorosos do craque ou à tensão virtual entre a dona Dolores e a Georgina Rodriguez. O entulho cor-de-rosa vive disto e os opinion makers da coscuvilhice têm contas para pagar.

Outra coisa é dar destaque de telejornal a não-acontecimentos. O Cristiano Ronaldo é o maior, já toda a gente sabe disso, mas marcar um golo num jogo-treino, contra a equipa sub-23, é uma não-notícia. E é parvo dar-lhe tanto destaque. Eu sei que estamos na silly season, e que a relação da imprensa com o Ronaldo é ela também bastante silly, mas era importante que essa malta percebesse que existe vida para além do Ronaldo. Que estão a acontecer coisas importantes no planeta Terra, que têm e terão impacto real nas nossas vidas, e que passam despercebidas porque a imprensa nacional prefere noticiar um golo fácil num jogo-treino que conta para coisa nenhuma.

OE2016: estrangulamentos e constrangimentos

cameron

via The Independent (http://ind.pn/209b6Pq)

O Governo reitera que “está tudo a correr bem”. Considerando o passado recente, este “correr bem” é extremamente duvidoso. Ainda por cima, se não correr bem, sabemos que é possível “*contatar o governo”,

contatar

esperar que haja “receção de *contato de qualquer recetor” e manter “contato permanente”.

contato

Estrangulamentos? Constrangimentos? Onde?

Efectivamente, o fluxo não pára

Não para? Para o baile? Ah! Não pára!  OK. Siga.

não pára

Sim, foi no Egipto

egipto

Efectivamente, no Egipto.

Informação relevante: ‘egípcio‘ é relativo ou pertencente ao/natural ou habitante do ‘Egipto’ e, em português europeu, como escrevi em 2009 (p. 60), a grafia ‘Egito’ existe, sim, mas para o Gonçalves.

Mais considerações serão tecidas e outras informações serão prestadas quando houver a tal “discussão mais focada sobre as matérias mais controversas”.

Exactamente, as matérias mais controversas.

Selecção? Exactamente: selecção

selecção

Ontem, por breves instantes, a ortografia regressou à RTP. Os meus agradecimentos à comunidade portuguesa de Newark, nos Estados Unidos da América. Os bons exemplos devem ser seguidos e a comunidade de Newark é um óptimo exemplo. Sim, porque ‘selecção’ ≠ ‘seleção’, como tão bem sabemos.

Post scriptum: Por razões pessoais, estarei ausente do Aventar durante algumas semanas. Até breve e, já agora, boa sorte para a selecção. Sim, exactamente: selecção.

A abertura do ano lectivo correu bem

Na RTP, claro. A abertura do ano lectivo, no Telejornal de hoje. Exactamente: do ano lectivo.

RTP ano lectivo 1692013

Assunção Esteves, porta-voz da Assembleia da República?

ESTEVESAssuncao

http://bit.ly/15kneGw

Será que, em 21 de Junho de 2011, Assunção Esteves foi eleita porta-voz da Assembleia da República? Terá Assunção Esteves sido a primeira mulher a assumir o cargo de porta-voz da Assembleia da República? Será que um porta-voz da Assembleia da República ocupa o segundo lugar nas Precedências do Protocolo de Estado? Poder-se-á dizer que estes cavalheiros foram porta-vozes da Assembleia da República? Claro que não

Ontem, no Telejornal da RTP, a propósito desta notícia, disse-se – e muito bem – que Nigel Evans era ‘Vice-Presidente’ (Deputy Speaker) da Câmara dos Comuns. Por esse motivo, não se percebe a razão de se chamar ‘Porta-Voz’ (sic) ao seu Presidente,  John Bercow. ‘The Speaker of the House of Commons chairs’, ou seja, o Presidente da Câmara dos Comuns preside. Bercow, porta-voz? Nem por isso. Nem John Bercow,  nem os seus antecessores Michael Martin e Betty Boothroyd, nem sequer os homólogos neozelandeses.

JBercow

Aliás, para que não haja dúvidas, o próprio John Bercow esclarece: «(…) the Speaker shall act as representative and spokesman for the Assembly and for Parliament to the outside world». Isto é, nem “the Speaker shall act as speaker”, nem “the spokesman shall act as spokesman“, nem, mais importante, “the spokesman shall act as Speaker“. Já agora, aproveitando a onda dos porta-vozes

Hoje dá na net: em 1974, o telejornal foi assim

Precioso documento encontrado no youtube.

Obrigado Fernando Balsinha e Fialho Gouveia, os homens que inventaram faz hoje 39 anos, atrapalhados é certo, o jornalismo televisivo livre, sem censura, e em directo.

A apreensão da lógica e da substância

Uma imagem ilustrativa da apreensão da lógica e da substância do AO90 na RTP. Sim, a RTP adoptou o AO90 há dois anos.

Dizendo a base VIII, 3.º, do AO90 que não se prescinde de acento gráfico n’«a forma verbal pôr, para a distinguir da preposição por», é natural que não se perceba o motivo de na base IX, 9.º, se deixar de «distinguir pelo acento gráfico: para (á), flexão de parar, e para, preposição».

Sim, claro, a lógica. E a substância.

Ao longo de 2010, desenvolveu-se uma intensa atividade [sic] formativa […].

Para este volume, concorreu de forma especial o plano de formação dirigido à apreensão da lógica e da substância do Acordo Ortográfico que a RTP adotou [sic] a partir de janeiro [sic] de 2011. Só nessa formação, realizada num mês, no Continente e Ilhas, foram envolvidos 1.827 [sic] formandos. O parceiro da RTP nesta operação foi o ILTEC.

RTP – Relatório e Contas 2010, p. 62

Telejornal, 21 de JAneiro de 2013

Telejornal, 21 de Janeiro de 2013

Telejornal

O gerente do café explica o funcionamento do mesmo aos clientes. O primeiro-ministro
diz que ganhou a batalha da governabilidade. O governo mantém o aeroporto e a alta velocidade. O ministro das Obras Públicas discursa. o “pivot” do Telejornal é sério e usa gravata. O primeiro-ministro garante que o aumento do défice não foi descontrolo. O país janta e vê o Telejornal. O presidente da Junta anda descontrolado e bate uma punheta. O gerente do café continua a explicar o funcionamento do mesmo. O Orçamento é bom para o país. O ministro das Finanças admite que se engana. A deputada do CDS é boa…para o país. O défice dispara. As agências de rating controlam. O Bloco de Esquerda é bom para o país. Os deputados do Bloco de Esquerda são sérios mas não usam gravata. O gerente do café gosta de Coca-Cola. O governo já aguentou 100 dias. As garrafas estão expostas. O gerente arrota teses de doutoramento acerca do funcionamento do café. O primeiro-ministro é sério e usa gravata. Além disso, nunca se enerva. O primeiro-ministro é bom…para o país. O Presidente da República é sério e usa gravata. O líder do CDS também. O primeiro-ministro dá dinheiro aos bebés. O primeiro-ministro quer casar com a Carochinha. O primeiro-ministro e todos os ministros são bons…para o país. O gerente analisa agora a problemática da cerveja. O Presidente da República é sério e não bebe cerveja. O PPM quer referendar a monarquia. O PPM é sério e usa gravata. A autarca corrupta não vai a julgamento. O Obama continua a pregar. O gerente do café também. Todos os homens do poder são sérios e usam gravata. O Presidente da República é sério, honesto e usa gravata. Uma bombista suícida detonou explosivos em cima dos peregrinos. O México continua cheio de pistoleiros. O Presidente da República é sério, honesto, usa gravata e quer a estabilidade do país. O Leixões defronta o Marítimo. O gerente do café já resolveu todos os problemas da Humanidade. A brasileira alapa o cu ao balcão. O poeta escreve o que vê, o que ouve e o que lhe vem à cabeça. O Presidente da República é sério, honesto, usa gravata, quer a estabilidade do país e não apanha bebedeiras. O primeiro-ministro é bom…para o país e também não apanha bebedeiras. O ministro das Finanças é sério, honesto e usa gravata. Todos os homens públicos são bons…por natureza. A televisão promove os “Ídolos”. Os “Ídolos” são sérios, honestos, querem a estabilidade do país mas não usam gravata. O presidente da Câmara é bom…para a cidade. O TGV mantém-se, apesar do aumento da dívida pública. A sabedoria do gerente do café faz o meu cérebro dar voltas. O poeta é bom…mas também é mau, não quer a estabilidade do país, apanha bebedeiras e não usa gravata. O Pesidente da República é sério, honesto, usa gravata, quer a estabilidade do país, não apanha bebedeiras e só percebe de finanças. O ministro das Finanças é bom…para o país. O Presidente da República, o primeiro-ministro, o ministro das Finanças, todos os ministros, a oposição, o Orçamento, o presidente da Câmara, o presidente da Junta, o “pivot” do telejornal, o Leixões, os “Ídolos”, os pistoleiros mexicanos, a bombista suícida, os empresários dos carrosséis, o CDS, o PPM, o Bloco de Esquerda e o gerente do café são bons…para o país. A Beyoncé mostra as mamas. A Beyoncé é boa…para o país.

ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO, Candidato à Presidência da República

Telejornal: 50 Anos