Classe nédia: a dicção de Mira Amaral

São conhecidas as dificuldades de dicção de Mira Amaral. Só isso explica que o jornalista tenha percebido que o banqueiro se tenha considerado um membro da “classe média”.

Do mesmo modo que transforma os RR num G, Mira Amaral (Miga para os amigos) trocou um N por um M. Na verdade, Mira Amaral pertence à classe nédia, um conjunto de pessoas assim conhecida porque as respectivas contas bancárias estão anafadas, uma vez que, sem se mexer, vão engordando, graças ao dinheiro – agora, sim – da classe média.

O ex-ministro, num raro assomo de honestidade, acredita que é tempo de pagar os favores que tem recebido do país e é por isso que defende que lhe devem aumentar os impostos.

Espero que isto esclareça algumas pessoas mais impulsivas que declararam que o senhor, por estar a brincar com quem vive com dificuldades, devia ir – e passo a citar – “ para a puta que o pariu!”. Também não me parece correcto afirmar que o senhor, para além de precisar de terapia da fala, seja merecedor de terapia do falo. Contenção, senhores!

Uma puta é uma puta mas é uma puta

Vender o corpo incluindo o uso sexual do mesmo chama-se prostituição. Trabalhadora sexual, diz-se agora.
No meu dicionário, é assim.
bois
Puta é outra coisa. Ao contrário de uma prostituta, que vende o que lhe resta ou porque não a deixam vender menos ou porque lhe apetece, as putas, e os cabrões, concorrem a sufrágios, até os vencem, chegam ao poder e deixam morrer pessoas por falta de assistência médica em hospitais arruinados para abrir o mercado ao livre empreendedorismo das companhias de seguros.
Faz uma certa diferença.
E já agora: os cabrões também não são necessariamente homens traídos,  mas são sempre filhos da puta.
É o dicionário que uso, tal e qual como se fala na minha rua, bem perto de um largo onde trabalham prostitutas. Fica esta nota semântica a propósito de dúvidas geradas por causa de uma frase onde incluí a puta da Maggie, e posso acrescentar cabrões como o Ronaldo, o George e o Augusto, aquele amigo da puta Thatcher de apelido Pinochet.

Pintura: Bois de Ole Ahberg

festa na rua das putas

Na rua das putas há duas instituições: o infantário da segurança social e a pensão das putas. Também há cafés, garagens, marcos do correio, buracos na estrada, uma mercearia, mas tudo isso se secundariza perante o infantário e, mais ainda, perante a pensão das putas. Aliás, toda a gente a conhece como rua das putas, e não a rua do infantário, ou a rua da garagem. Porque são as putas, nos seus sucessivos turnos, que patrulham a rua, vigiam a casa de quem vai de férias, devolvem a bola aos miúdos do outro lado da cerca, convidam os homens solitários a subir com elas, e seguem os casais com um olhar onde jogam, às escondidas, a discrição e a insolência.

Por estes dias, acaba o ano escolar no infantário e faz-se uma festa. A festa é no pátio, semioculto por um portão, e para espreitar lá para dentro há que ter saltos bem altos. Na festa, o director fala ao microfone, e a rua toda ouve o que ele diz, e também apresenta os cantores, que não são as crianças nem os professores mas uns artistas convidados que costumam cantar muito mal. [Read more…]