festa na rua das putas

Na rua das putas há duas instituições: o infantário da segurança social e a pensão das putas. Também há cafés, garagens, marcos do correio, buracos na estrada, uma mercearia, mas tudo isso se secundariza perante o infantário e, mais ainda, perante a pensão das putas. Aliás, toda a gente a conhece como rua das putas, e não a rua do infantário, ou a rua da garagem. Porque são as putas, nos seus sucessivos turnos, que patrulham a rua, vigiam a casa de quem vai de férias, devolvem a bola aos miúdos do outro lado da cerca, convidam os homens solitários a subir com elas, e seguem os casais com um olhar onde jogam, às escondidas, a discrição e a insolência.

Por estes dias, acaba o ano escolar no infantário e faz-se uma festa. A festa é no pátio, semioculto por um portão, e para espreitar lá para dentro há que ter saltos bem altos. Na festa, o director fala ao microfone, e a rua toda ouve o que ele diz, e também apresenta os cantores, que não são as crianças nem os professores mas uns artistas convidados que costumam cantar muito mal.

As crianças andam por ali, a correr, desinteressadas da festa, e os funcionários aplaudem ao ritmo das canções. Quando isto acontece, uma vez por ano, a rua espreita a festa mas não pára. E as putas continuam encostadas à fachada da pensão, aos postes de electricidade, à porta do café, mas sorriem para os possíveis clientes com desinteresse, estão como que alheadas do negócio, porque estão a ouvir a música que os altifalantes roufenhos despejam para a rua, e de quando em vez saem mesmo do seu posto e vão espreitar pelo portão.

É então que se ouve o ruído de uns tacões que se aproximam, tacões desajeitados porque não foram feitos para correrias, e a virar a esquina aparece a mãe de todas, aquela a quem chamam mãe porque é a mais antiga. É uma mulher alta e seca, esconde a idade das pernas numas calças de ganga muito apertadas, e usa sempre rabo-de-cavalo. Corre para o portão e há outra que lhe aponta, com cara de zanga fingida, para o relógio no pulso, e a mãe encolhe os ombros e faz uma careta de desagrado, que quer dizer que vem de trabalhar.

Corre para o portão e agarra as grades para ver melhor, para descobrir mais depressa, entre os pequenitos, o seu neto. O segurança do infantário aproxima-se do portão e ela encara-o de frente, já pronta para o confronto. Mas ele estende a mão para a fechadura e abre-lhe o portão sem dizer uma palavra.

A rua detém-se em silêncio e assombro. Jamais uma delas cruzou o portão. Deveriam ter parados os carros de passar, deveria o tempo ter ficado suspenso, porque nenhuma viu o sinal de um cliente, nenhuma ouviu o que lhe diziam, nenhuma fez caso a uma piscadela de olho ou ao insulto lançado de um carro. A mãe passou os dedos pela camisola de alças, como se assim tentasse que ela se esticasse um pouco, se fizesse mais comprida, mais decente, respirou fundo e entrou. O portão fechou-se e a música não parou. A rua das putas não voltou a ser a mesma, mas ninguém soube, só elas.

Comments

  1. Chicken(雞肉)Nababo dos Nabais Sem Sol Em 2035 recebe a pensão en notas de 100 Marxs como na alemanha da natsozi? says:

    acho que paraste no século XX
    as prostitutas em portugal são escravas sexuais de importação na sua maioria
    e estão em aluguer em prédios de gente fina
    as ruas de putos e putas era no tempo da outra senhora

    mesmo os putos à venda são romenos e moldavos e já não andam no Rossio a partir das 19 horas como nos anos 90
    nem nas portas traseiras dos jardins ali do jardim botânico e da estrela nos anos 70

    também não andam no parque Mayer porque a revista morreu com o regime velho e agonizou durante uns 15 anos no novo que envelhecia a olhos vistos.

    Logo clichê mêmo Kitsch…ch che…bué vara


  2. Belíssimo texto!

  3. Maria do Céu Mota says:

    Muito bom, Carla!

  4. maria celeste ramos says:

    Mas putas propriamente ditas sem serem “as outras” já não vão para o Parque de Monsanto – vão para a avenida do Restelo – o bairro mais aristocrata, porque até a Lapa “morreu”


  5. Gostei do texto!

  6. Amadeu says:

    Vêm-me à memória uma frase batida
    As putas ao poder que os filhos já lá estão


  7. Uma história muito bonita, no caso de ser real, eu faria a mesma coisa. Lindo

  8. Manel says:

    Foi um presente para o dia dos avós.Obrigado.

  9. Carla Romualdo says:

    aproveito para agradecer e para deixar um aviso, que talvez peque por tardio: este texto é ficcional e é inspirado numa história verídica

  10. Armindo de Vasconcelos says:

    Brilhante e comovente. Como são as melhores ficções, como devia ser a realidade

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.