As duas caras do destino

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Sabe-se que a memória é coisa curta e volátil, muito sujeita aos desmandos da propaganda e de outros truques hipnóticos muito ao gosto do Príncipe do mundo. Mas ao homem comum, onde quer que ele ainda exista, não há-de ser permitido esquecer que a anterior legislatura, comandada por PSD e CDS, foi um dos mais brutais exercícios de destruição anímica, social, política e humana, de que há memória na história recente de Portugal.

O regime policial, persecutório e em muitos casos criminoso do Estado Novo e da sua ditadura, não ousou chegar tão longe na destruição de um país e na humilhação do seu povo, como o fizeram PSD e CDS nos quatro anos de vergonhosa e inesquecível liderança dos destinos de Portugal.

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Educação: o que há para mexer

É um lugar comum em Portugal – na Educação mexe-se muito e essa instabilidade é um dos problemas mais decisivos para as dificuldades que, em particular a Escola Pública, vai sentindo. Costumo dizer que a Escola funciona apesar do Ministério da Educação.

E, em boa verdade, nunca a Escola mudou tanto como com Nuno Crato que fez letra morta da Lei de Bases do Sistema Educativo (uma espécie de Constituição para a Educação), o que, na ausência de um tribunal constitucional para o sector, permitiu todo o tipo de barbaridades. E, quando atribuo a Nuno Crato esta capacidade falo do centro da Escola, da sala de aula, dos conteúdos, daquilo que é suposto os alunos aprenderem.

Com a mudança de governo chegou um Ministro com um perfil surpreendente – um jovem cientista que passou uma parte importante da sua vida fora do país e de quem, em boa verdade, nunca se ouviu ou leu, uma linha sobre Educação. Nos primeiros dias manteve um silêncio que se mostrou prudente e, há uns dias, quando falou, na Comissão Parlamentar, revelou uma surpreendente capacidade política que é, em boa verdade, aquilo que se exige a um Ministro – ser político.

Mas, o primeiro momento verdadeiramente político aconteceu com a comunicação às escolas da proposta de alteração na avaliação do ensino básico – repito o que antes escrevi: é um texto que subscrevo integralmente e, nem sequer sou muito sensível aos argumentos de quem diz que a mudança, a acontecer, deveria coincidir com um ano lectivo. Levar essa regra ao extremo impediria o Ministério da Educação de trabalhar de setembro a julho e, em boa verdade, errado seria obrigar alunos a fazer uma prova que está completamente desajustada.

Tiago Rodrigues tem em mãos uma tarefa ingrata. Até Nuno Crato houve um acordo não escrito entre o PS e o PSD para gerir as grandes questões da Educação, nomeadamente ao nível curricular – foi havendo uma linha condutora que Nuno Crato, de forma radical, quebrou. O novo Ministro tem, por isso, muito onde mexer: [Read more…]

Pré-ruptura?

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Almada (Av. 25 de Abril) e Lisboa (Metro Restauradores)

Quase seis mil empresas falidas em 2012 and counting (vinte e cinco por dia declaram insolvência), o País cheio de jovens sem hipótese nem de pagar propinas nem de vir a arranjar trabalho, a vida portuguesa cheia de desempregados, as casas que começaram a comprar quando tinham emprego tornadas propriedades irrelevantes, milhares de esfomeados pelas ruas, crianças a passar fome nas escolas, os velhos sem dinheiro para se tratarem, as farmácias com problemas graves de fornecimento de medicamentos, um em cada cinco portugueses a viver no chamado limiar da pobreza (fronteira esbatida e vaga dos números euro-oficiais irrealistas), os empresários da restauração sem liquidez possível para aguentar os absurdos 23% de IVA exigidos pelo Governo, as lojas vazias, os funcionários de tudo em greve, a revolta a estoirar em cada português indignado, a fazer novos doentes entre os que calam a indignação, o PM a dizer em Cabo Verde que pode andar à vontade nas ruas de Portugal (piegas?), a justa greve dos estivadores de Lisboa e de Setúbal a perder força pela força dos desembarques de mercadorias que se estão a transferir para os portos do Norte, a polícia apedrejada com violência por miúdos doentes de revolta perante a passividade cúmplice dos mais velhos, as pessoas cada vez mais frágeis a chorar em todos os canais da tevê (piegas?), o realismo épico dos graffiti-stencils que se reproduzem em grande quantidade pelas ruas das cidades, os negócios sinistros com as escolas privadas em cima da escolaridade obrigatória paga pelos contribuintes, um milhão de manifestantes não-organizados a marchar contra a TSU em 15 de Setembro passado, e o PS a falar ainda e sempre de pré-ruptura social, enquanto se chega à frente (mas não demasiado) para defender os interesses subitamente superiores de Portugal junto da UE. Não é só Pedro Passos Coelho que tem problemas com a realidade. Também o PS não parece ser capaz de ver num país em escombros aquilo que todos nós (o povo, entenda-se) vemos: o fim da linha. Ou seja, o abismo de onde nos despenhamos há muitos meses, um estádio de ruína (e também, e como nunca, de ruína moral da governação) muito para além da ruptura. O que será preciso para sê-lo, sem eufemismos, no discurso da classe política dominante?

Rupturas

Com a Revolução do 25 de Abril, milhões de trabalhadores e de jovens, de todos os sectores da sociedade portuguesa, uniram-se para tomar em mãos os seus destinos.

Apostaram, então, na construção de uma nação livre e independente, que proclama a paz, que quer um País assente na justiça social, na saúde, na qualificação e na cultura, na cooperação entre os povos.

Um segmento importante destes homens e mulheres, destes jovens, voltou-se para o Partido Socialista (PS), construíram-no como o partido que defendia os sindicatos livres (unidade sindical) e independentes, a liberdade e a existência das comissões de trabalhadores, a banca nacionalizada (ao serviço da economia nacional), bem como da nacionalização dos sectores vitais da economia (transportes, energia, comunicações), para uma sociedade democrática e de progresso. [Read more…]

Bloco de Esquerda – Ruptura/FER, a hora da (de)cisão

Que o Bloco não é um bloco tornou-se evidente há muito tempo, especialmente desde os inícios da representação parlamentar, época em que o BE inicial foi invadido por toda a casta de arrivistas atraídos pelo cheiro a poder (neste caso o estatuto de deputado, a possibilidade da presidência de uma câmara municipal, a remota hipótese de uma assessoria bem paga, a mera chance de protagonismo mediático). Chamar trotskistas, marxistas, etc., aos do bloco tornou-se não apenas caricato, mas verdadeiramente ridículo: havia (há) por lá de tudo, social-democratas orfãos de partido, socialistas desenganados, comunistas arrependidos, radicais adormecidos, utópicos desiludidos, anarquistas inconsequentes.

A divisão interna era evidente há muito e a perda de votos nas últimas eleições, somada a uma sucessão de erros e más escolhas políticas, agravou-a. A Ruptura/FER já por lá anda há bastante tempo, mais ou menos amordaçada. Agora ameaça sair e fundar um novo partido. É óbvio que o BE perdeu a sua frescura inicial, esgotou a sua caderneta de causas e aburguesou-se.

A Ruptura, por seu lado, tenta “capitalizar” os novos movimentos sociais, as acampadas, a geração à rasca, etc. Esse é o novo caminho da Ruptura e aquilo que, futuramente, vai ditar rupturas dentro da nova organização. Porque uma organização que nasce com estes alvos não vai permanecer unida, em bloco, durante muito tempo:

“aberto a toda a esquerda, independentes, ex-bloquistas e aos novos movimentos sociais das acampadas, e a todos os que não se revêem nas posições oficiais dos partidos e dos sindicatos institucionalizados”

Paulo Rangel: um paradigma de ruptura

Acredito que o candidato social-democrata procurava uma frase-chave (um chavão, se quisermos). Algo que resultasse como o “Yes we can” de Obama, que fosse apelativo, mobilizador.

Certamente a sua atabalhoada candidatura não deu tempo para mais. Isto é: não deu tempo para melhor.

Terá, por isso, decidido pegar numa palavra, numa só ideia, e repeti-la à exaustão: “ruptura”.

Acontece que “ruptura” reporta-se ao acto de romper, ou seja de rasgar, dilacerar, desfazer. Da ruptura resulta um rompimento, resulta que algo fica rompido, ou seja roto. Ora esta não é uma boa opção para um mote que incentive, que estimule vagas de fundo. Não há grande apelo a ser-se roto ou a participar em rompimentos.

No entanto, Paulo Rangel insiste, investe todas as suas forças, erguendo-se bem alto em bicos-de-pés para exortar uma e outra vez à ruptura. Como se tal lhe estivesse no sangue. E penso que a razão será mesmo essa: a ruptura está-lhe mesmo na massa do sangue. Assim foi quando rompeu com a promessa que ficaria no Parlamento Europeu. E, também, assim foi quando rompeu com o entendimento estabelecido com Aguiar-Branco, quanto ao combate pela liderança do PSD.

Paulo Rangel é o alvo do seu próprio combate.

Se eu fosse militante social-democrata, votaria Aguiar-Branco.

Se tivesse de escolher entre Paulo Rangel e Pedro Passos Coelho, votaria Pedro Passos Coelho.

Tudo faria para romper com paradigmas de ruptura como Rangel.