Pré-ruptura?

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Almada (Av. 25 de Abril) e Lisboa (Metro Restauradores)

Quase seis mil empresas falidas em 2012 and counting (vinte e cinco por dia declaram insolvência), o País cheio de jovens sem hipótese nem de pagar propinas nem de vir a arranjar trabalho, a vida portuguesa cheia de desempregados, as casas que começaram a comprar quando tinham emprego tornadas propriedades irrelevantes, milhares de esfomeados pelas ruas, crianças a passar fome nas escolas, os velhos sem dinheiro para se tratarem, as farmácias com problemas graves de fornecimento de medicamentos, um em cada cinco portugueses a viver no chamado limiar da pobreza (fronteira esbatida e vaga dos números euro-oficiais irrealistas), os empresários da restauração sem liquidez possível para aguentar os absurdos 23% de IVA exigidos pelo Governo, as lojas vazias, os funcionários de tudo em greve, a revolta a estoirar em cada português indignado, a fazer novos doentes entre os que calam a indignação, o PM a dizer em Cabo Verde que pode andar à vontade nas ruas de Portugal (piegas?), a justa greve dos estivadores de Lisboa e de Setúbal a perder força pela força dos desembarques de mercadorias que se estão a transferir para os portos do Norte, a polícia apedrejada com violência por miúdos doentes de revolta perante a passividade cúmplice dos mais velhos, as pessoas cada vez mais frágeis a chorar em todos os canais da tevê (piegas?), o realismo épico dos graffiti-stencils que se reproduzem em grande quantidade pelas ruas das cidades, os negócios sinistros com as escolas privadas em cima da escolaridade obrigatória paga pelos contribuintes, um milhão de manifestantes não-organizados a marchar contra a TSU em 15 de Setembro passado, e o PS a falar ainda e sempre de pré-ruptura social, enquanto se chega à frente (mas não demasiado) para defender os interesses subitamente superiores de Portugal junto da UE. Não é só Pedro Passos Coelho que tem problemas com a realidade. Também o PS não parece ser capaz de ver num país em escombros aquilo que todos nós (o povo, entenda-se) vemos: o fim da linha. Ou seja, o abismo de onde nos despenhamos há muitos meses, um estádio de ruína (e também, e como nunca, de ruína moral da governação) muito para além da ruptura. O que será preciso para sê-lo, sem eufemismos, no discurso da classe política dominante?

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