António Serrano: Desta vez, quem os escutou, fui eu

Concurso Aventar: faça a sua transcrição das escutas Vara / Sócrates

S – Já almoçaste?

V- Ainda não. Estou um bocado chateado, perdi o apetite.

S- Ai, é? Então porquê?

V- Ó pá, hoje ainda só ganhei dez mil euros, uma miséria, vê lá se dás a volta à crise que isto, assim, não dá para aguentar.

S- Eh, pá, se eu acabar com a crise há outros amigos nossos que se queixam, topas? A minha posição não é fácil. Isto é muito delicado.

V- Eu sei, meu, mas dez mil euros? Quase que preferia correr uma maratona das tuas…

S- Olha lá, porque é que não te inscreves nas novas oportunidades? Fazias-te engenheiro técnico e desenhavas umas casitas nas horas vagas. Eu já fiz isso e vê lá a casa onde moro agora, compradinha com o meu dinheirinho. Tá bem que tive uma fezada, mas as oportunidades, novas e velhas, são para agarrar.

V- Era capaz de ser uma ideia, mas a Guarda já não dá, o pessoal anda a fugir todo de lá. Agora até para Espanha vão.

S-A Guarda não, pá, desenhavas para Vinhais ou, melhor ainda, para Alcochete. Conheço uns tipos que te tratavam das licenças de construção.

V- Em zonas protegidas?

S- Claro, essas é que estão a dar. Compras barato e vendes caro, não tem espinhas nenhumas, hei-de pedir ao TS que te dê umas lições de economia e finanças.

V- Não sei, pá, ainda se me arranjasses um ou dois PIN para construir uns hotéis e uns resortes. Aí, ainda pensava nas novas oportunidades. Começava já a desenhar e a construir, púnhamos as coisas à venda e, entretanto, eu tentava sacar o diploma. Para isso conheço eu uns tipos.

S- Tá bem, acho que podes começar a fazer os rabiscos. Mas aviso-te que agora, sem o Pinho, está mais difícil desenrascar uns PIN de jeito.

V- Caraças, pá, o gajo lembrou-se de fazer aquela porra dos cornos.

S- Nem me digas nada. Uma ganda tanga, foi o que foi. O gajo nem sequer estava a fazer cornos, é o que dá ser um bom ministro.

V- Ah, não?

S- Aquilo era o sinal das torres eólicas, tás a ver, aquilo era a dizer que, nas energias renováveis, estamos à cabeça do mundo. Aquela gentinha da assembleia é que não atina, ainda andam numa de energias fósseis, BMWs, aquela treta toda.

V- Grandessíssimos cretinos. Às tantas há por lá corruptos e a gente não sabe.

S- A gente não sabe, mas há quem saiba…

V- Ai, é? Porque é que dizes isso?

S- Parece que andam por aí umas escutas telefónicas.

V- Eh, pá, isso é grave. Ainda nos arriscamos a ser escutados. Desconfias de quem faz essas merdas?

S- Lá desconfiar, desconfio. Faltam-me é provas.

V- Ó pá, diz lá quem são os tipos, talvez um lugarzinho na administração de um banco os mantenha sossegados.

S- Não digas a ninguém, mas…

V- Porra, isso nem parece teu. Sabes bem que sou um túmulo.

S- E és, desculpa. Desconfio dos Gato Fedorento. Aliás, tenho quase a certeza que os gajos fazem escutas.

V- Os Gato Fedorento?

S- Claro, caraças, como é que tu achas que os palhaços arranjaram informação para esmiuçar um gajo como eu, como o Gama, como…

V- Ah ah ah, e como a velha.

S- A velha? A velha, cá por mim, podiam esmifrá-la. Estão a ouvir, ó gatos? Estão a escutar? Esmifrem a velha, porra, ataquem o sistema informático da esfinge da presidência, mas a mim, que sou humilde e até tenho sentido de humor – foram os meus filhos que mo disseram – deixem-me governar a merda deste país, ouviram?

V- Boa. E não se atrevam a passar por Vinhais, que ainda levam com um robalo nas trombas. E olhem que eu sou um gajo – para vocês é senhor – sério. Se digo que levam com um robalo nos cornos, levam mesmo, até vos arranco as fundações, não há prevenção nem rodovia que vos salve. Nem que isso me custasse dez mil euros.

S- É isso mesmo. Um robalo nas ventas. Porreiro, pá.

Comments

  1. Luís Moreira says:

    O robalo nas ventas é prova real de que há coisa…

  2. Maria Santos says:

    Tão amiguinhos….
    Genial a “transcrição” desta escuta. Gostei.

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