Memória descritiva: Luta armada contra a ditadura (3)

Numa reunião do comité central do PCP, realizada em Agosto de 1963, verificou-se uma grave dissidência entre a linha, estalinista, ortodoxa, a corrente maioritária, a de Álvaro Cunhal, e uma minoritária, liderada por Francisco Martins Rodrigues. Sendo insanável a divergência, este, acompanhado por outros elementos daquele órgão dirigente, abandonou o partido, acusando a linha dominante de ser «meramente eleitoralista».

Em Abril de 1964, esse dissidentes criaram a FAP- Frente de Acção Popular, através de cujo órgão de imprensa (o Luta Popular) defenderam a acção armada como única via de derrube do regime salazarista. Em 1965 os principais dirigentes e outros militantes foram presos pela PIDE. Porém seria a partir deste pressuposto, de que o regime só cairia pela violência e nunca pela luta legal, que iriam nascer organizações clandestinas como a LUAR e como as Brigadas Revolucionárias. Organizações que o PCP sempre acusou de serem «aventureiristas», «divisionistas» e «blanquistas».

Abro um parêntesis, para lembrar que «blanquismo» é um conceito proveniente do nome de Louis-Auguste Blanqui (1805-1881), político francês que defendia que a revolução socialista e a consequente tomada do poder, não seria obra das massas proletárias, mas sim de um grupo reduzido de conspiradores, bem organizados em estruturas secretas. Segundo Blanqui, a revolução seria consumada sob a forma de um golpe de estado. Na linguagem dos partidos comunistas ortodoxos, blanquismo é, portanto, um termo fortemente pejorativo.

Em 17 de Maio de 1967, um grupo comandado por Palma Inácio, assaltou a dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, fugindo depois num pequeno avião e levando cerca de 30 mil contos. Em 19 de Junho desse mesmo ano, fundar-se-ia em Paris a Liga de Unidade e Acção Revolucionária – LUAR, onde militariam figuras como Hermínio da Palma Inácio, Emídio Guerreiro, Camilo Mortágua, José Augusto Seabra, Fernando Echevarria e Fernando Pereira Marques. Em 1968, a LUAR tentou tomar a cidade da Covilhã, falhando no entanto a operação. Palma Inácio, preso na sequência desta operação, fugiu das instalações da PIDE no Porto, protagonizando uma fuga espectacular e que emocionou os antifascistas.

Em 1970 surgiram as Brigadas Revolucionárias, criadas a partir de um núcleo de antifascistas ligados à Frente Patriótica de Libertação Nacional, sediada em Argel. As BR, que em Setembro de 1973 dariam lugar ao Partido Revolucionário do Proletariado, desencadearam diversas acções, tais como a sabotagem nas instalações da NATO na Fonte da Telha em 7 de Novembro de 1971, uma data simbólica; dias depois foi destruída uma bateria de canhões no Barreiro.

Em 1972 destruíram doze camiões Berliet do Exército e assaltaram os serviços cartográficos militares obtendo mapas que enviaram aos movimentos de libertação, em 1973, uma série de operações visando sobretudo instalações e infra-estruturas militares em Lisboa e no Porto. Em 1974 foi levada a cabo uma acção de sabotagem no Quartel-General de Bissau, destruindo o edifício do comando. Foi também praticada uma acção de sabotagem no navio «Niassa» no momento em que ia partir para a Guiné com um contingente de tropas. O navio foi evacuado, sem que houvesse vítimas, pois as BR tinham avisado a PSP uma hora e quinze minutos antes da explosão. Isabel do Carmo e Carlos Antunes foram as figuras mais carismáticas e mediatizadas do PRP, partido que durante o chamado PREC teve grande influência na esquerda militar, sobretudo junto de Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do COPCON.

Já disse que, por princípio, o PCP era contra este tipo de acções. No entanto, a partir da cisão de Francisco Martins Rodrigues, um número cada vez maior de militantes manifestava o seu apoio às operações da LUAR e das BR, embora o comité central continuasse a considerar essas organizações como aventureiristas e objectivamente fazendo o jogo do poder. Até que a pressão dos militantes, sobretudo dos mais jovens, foi insustentável e o Partido criou a Acção Revolucionária Armada (ARA), destacando para a organizar os membros do CC – Rogério de Carvalho e Raimundo Narciso, a que se juntaram Jaime Serra e Francisco Miguel. A ARA praticou diversas acções de sabotagem em instalações militares. A operação mais espectacular e eficaz foi (talvez não só da ARA, mas de toda a luta armada) foi, em 8 de Março de 1971, o ataque à base aérea de Tancos, destruindo 28 aeronaves e cortando as comunicações. Porém praticou outras acções, tais como em 1970 colocação de uma bomba no navio «Cunene», ao serviço das guerras coloniais, em 1971 destruição da central de comunicações nacionais e internacionais, em Lisboa, durante uma conferência da NATO, em 1972 vários actos de sabotagem visando instalações militares. Entre os elementos operacionais da ARA, encontram-se nomes como o do romancista, dramaturgo e jornalista Carlos Alberto Coutinho e o de José Brandão, historiador especializado no período entre o final da Monarquia e a I República.

Estas organizações clandestinas, cuja acção se desenvolveu entre o final dos anos 60 e a eclosão da Revolução de Abril, tiveram um papel muito importante, talvez mesmo decisivo, na queda da ditadura. Afinal, Francisco Martins Rodrigues tinha razão: uma ditadura violenta não cederia perante argumentos democráticos – apenas cairia pela força das armas. Salgueiro Maia, Otelo e os seus companheiros do MFA assestaram o golpe final no monstro apodrecido que entre clericais batinas, capelos doutorais e espadas de militares nascera 48 anos antes, gerado no tumulto caótico da I República.

(Continua)

Atenção: Esta série é composta por quatro textos. Após a sua publicação, sairá em três partes a transcrição de uma mesa redonda que o Aventar levou a cabo com operacionais das três organizações clandestinas que lutaram contra a ditadura – a LUAR, a ARA e as BR. Pedimos a vossa atenção para esse interessante debate.

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    Mais um post para “printar” e ficar no arquivo. Faz-me o favor de estar a compilar informação a que recorrerei. Obrigado.

    Há uns dias, aqui deixou um video do Vitorino que misteriosamente desapareceu… Era a Maria da Fonte. Fiquei surpreendido, orque é nada mais, nada menos, senão o Hino escolhido por D. Duarte, no caso de uma restauração. É verdade e cumpre a tradição que vem da Patuleia, onde andavam miguelistas. Por um lado tenho pena, porque A Portuguesa deixa-me com pele de galinha. O da Carta também é muito bonito. Quanto a música, somos pródigos, o pior é o resto.

  2. Carlos Loures says:

    De facto tinha colocado o hino da «Maria da Fonte« num dos posts sobre a Restauração, para contrapor ao «Els Segadors» (não ficou nada dessa época em termos musicais). Com as trapalhadas da mudança de plataforma, o hino foi-se. No próximo dia 9, onde me ocupo, em síntese claro, da génese do republicanismo em Portugal, começo com o Vitorino a cantar a «Maria da Fonte». Porque, como o Nuno dizia ontem, é no Vintismo, na Patuleia, que temos de buscar os primeiros indícios em Portugal da onda de choque provocada pela Revolução de 1789. O espírito republicano alimenta-se primeiro de uma imagética populista (a da «santa liberdade»). Só depois, com Oliveira Martins, Antero e outros, ganha algum lastro teórico. «A Portuguesa» é um belo hino, mas a singela «Maria da Fonte» não me toca menos. Do «Hino da Carta» gosto menos, embora não seja tão feio e ridículo como o Eça o pintava. Quanto a estes textos, são trabalho de formiga. Se têm alguma utilidade, tanto melhor.

  3. Nuno Castelo-Branco says:

    Pois, é isto dos símbolos tem destas coisas. pelo menos, em 1911 tiveram o juízo de não liquidar as quinas. No fundo, a bandeira é a mesma e até o verde e evermelho são, nada mais nada menos, senão as cores das ordens de Aviz e de Cristo que os monarcas usavam na faixa de Chefe de Estado, aliás ainda em vigor.
    Quanto ao Maria da Fonte, tem umas estrofes mais consentâneas com a liberdade, que outras, onde se fala em matar os Cabrais, etc. Nada que chegue, nem de longe, aos “égorgements” da Marselhesa que os franceses tanto gostam de berrar. A Portuguesa não é lá muito republicana, basta ouvir os versos, mas tem uma imponência inacreditável. Há umas semanas, no fecho da cimeira ibero-americana, soou A Portuguesa, exactamente no 1º de Dezembro. Joan Carl I estava ao lado do dr. Cavaco e assim que começou o Hino, empertigou-se todo, aparentemente emocionado. Vê-se que gosta até porque ao ler-lhe os lábios – quando se virou para cavaco e comentou -, disse qualquer coisa do género: “muy bonito, es una maravilla”. Também acho.
    Ainda bem que fala de música anterior ao século XIX. É bem capaz de existir qualquer coisa, do período anterior ou contemporâneo da Restauração. Sabe-se que D. João IV era um bom compositor e até se lhe atribui o Adeste Fidelis que por acaso, teria dado – a música – um excelente e marcial hino nacional 😉 (tocado de outra forma, com mais metais e rufar de tambores, por exemplo). Infelizmente, uma grande parte perdeu-se no terramoto, pois a colecção veio de Vila Viçosa para Lisboa e era vasta e importante.

    O Eça dizia que o Hino da Carta era feio? Não sei, até porque existe um texto dele, “A Catástrofe” que acaba por dizer:

    “E depois, nem tudo são tristezas: também temos as nossas festas! E para as festas tudo nos serve: o 1º de Dezembro, a outorga da Carta, o 24 de Julho, qualquer coisa contanto que celebre uma data nacional. Não em público – ainda não podemos fazer -, mas cada um em sua casa, à sua mesa. N’esses dias colocam-se mais flores nos vasos, decora-se o lustre com verduras, põe-se em evidência a linda e velha Bandeira, as Quinas de que sorrimos e que hoje nos enternecem – e depois, todos em família, cantamos em surdina, para não chamar a attenção dos espias, o velho hymno, O Hymno da Carta … E faz-se uma grande saúde a um futuro melhor!”

    Lindo, não é? O homem era mesmo um grande escritor. O pequeno texto remete-nos para tempos mais contemporâneos e nunca sabemos o que estará para vir. Parece actual ou adaptável a um indesejado “futuro ibérico”.

  4. Pisca says:

    A memória já falha por vezes, mas julgo que o Hino da Maria da Fonte, foi em tempos por força de protocolo, tocado quando presente o Ministro da Defesa.
    Coisas

  5. Carlos Loures says:

    É em «Os Maias», que o amigo do Carlos da Maia, o João da Ega, faz a sua apreciação dos hinos: «A Marselhesa avança como uma espada nua; o «God save the Queen» adianta-se, arrastando um manto real; o «Hino da Carta», ginga de rabona». Sei que há outras referências queirosianas ao «Hino da Carta», mas não consigo, do pé para a mão, localizá-las. Essa citação de «A Catástrofe» é mais simpática. O Eça é um dos nossos maiores escritores de sempre, Periodicamente, aí de cinco em cinco anos, faço uma releitura de toda a obra, romances, cartas, crónicas. Só «passo» «O Mistério da Estrada de Sintra». São escritores como ele, e até como o iberista Antero, que garantem a nossa independência (a cultural, porque a económica há muito que a não temos; a política, volta a estar em perigo).

  6. Luis Moreira says:

    Eu acho que os meus amigos deveriam transformar estas sábias conversas ,em postes ! Serviço público !Sem qualquer dúvida!

  7. Carlos Loures says:

    Caro Pisca: o Hino da Maria da Fonte é o hino de continência a todos os ministros e mebros do Governo, não só o ministro da Defesa.

  8. Nuno Castelo-Branco says:

    E o que dá vontade de rir é que é há mais de 50 anos, o hino da Casa Real, ehehehehe. Aliás, informalmente é o 2º hino nacional, tocando-se em todo o lado. Até a cerimónia do 1º de Dezembro, nos Restauradores, tem sempre início com a Maria da Fonte, seguindo-se o hino da Restauração e depois, A Portuguesa, como deve ser. Os hinos são sempre umas marchas emocionantes e até o de Timor Leste parece talhado para uma grande potência, ehehehe. Coisas…

  9. Nuno Castelo-Branco says:

    Já agora, Carlos, como é Dia de Reis (ainda não inventaram o dia de Cavaco), deixo-lhe uma prendinha no Aventar, a aparecer às 11 da noite. Para não atropelar seja quem for.

  10. Carlos Loures says:

    Luís: Estas «sábias conversas» que o Nuno, o Pisca e eu temos desde ontem, são a parte mais importante dos posts. Não são ecos, são prolongamentos, complementos – são os posts em movimento. Nuno, às 11 receberei a tal prendinha – oxalá não seja mais bolo-rei, pois desde há quinze dias já engordei mais do que queria! Mas não resisto: o da Nacional (passe a publicidade) da Praça da Figueira é irresistível.

  11. Carlos Loures says:

    Uma correcção (um amigo, o Pedro Godinho, chamou a minha atenção para ele): O órgão de imprensa da Frente de Acção Popular, era o «Acção Popular» e não o «Luta Popular». Obrigado, Pedro.

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