Sans Port, sans Prince

Do Haiti pouco se conhece mundo fora. Correm dichotes acerca daquela primeira-dama fanática por visons e que para vaidosamente se passear pelos corredores do agora destruído palácio presidencial, mantinha o ar condicionado à temperatura mínima, enregelando serviçais e visitantes. Do Haiti recordamos todos a República do clã Duvalier, onde o Papa Doc foi sucedido pelo não menos excêntrico Baby Doc, o estremecido filhote de todas as aleivosias possíveis e imaginárias. Quando do Haiti se falava, ribombava a ruidosa granizada de gargalhadas a propósito de crendices em mortos-vivos, o voodoo de todos os terrores ou na mais positiva das hipóteses, nos longínquos ecos do sr. Toussaint L’ouverture, o glorioso escravo que venceu Napoleão.

Terra dos Tonton Macoute – literalmente, os “bicho-papão” -, este pequeno país que com a Rep. Dominicana partilha a antiga Ilha Hispaniola, já não existe há muito tempo. Desespera no confinamento que a geografia lhe impõe como mortal armadilha. Poucos recursos, exiguidade física, Estado semi-anárquico onde campeia a prepotência exploradora, a iliteracia e a corrupção mais desbragada, que relega para a insignificância, qualquer saga mafiosa digna de filme de terceiro escalão.

Um sismo de grau 7 tudo desfez, esmagando no pó ou na lama, as periclitantes construções onde o cimento apenas servia de junta à muita areia que fazia a vez do betão. Montões de corpos inchados pela decomposição, correrias sem rumo carregando preciosos nadas, a falta absoluta da água potável num país de grandes chuvadas. O Haiti deixou de existir e a comunidade internacional não pode simplesmente reconhecer esta clara evidência, sob pena de quebrar um dos misericordiosos tabus que regem as relações internacionais estabelecidas pela Carta da ONU. Conhecem-se muitos outros casos semelhantes, apetitosos engodos de intervenção para centos de ONG’s, umas mais sérias que outras e que justificam plenamente a correcção política a que o mundo se habituou. A solidariedade da hora dos telejornais que passam as imagens da fome, das feridas abertas e corpos estropiados pela impiedosa natureza e desleixo do “bicho-papão” Homem, arreda aquela necessária caridade universal que unanimemente deveria tomar a cargo estes arremedos de Estado, fáceis pastagens para todo o tipo de exploradores e sanguinários profissionais. Alguns vegetam quase inertes, enquanto outros esbracejam e tentam uma improvável sobrevivência. Conhecem-se os nomes sonoros e apelativos de destinos supostamente paradisíacos, plenos de imagens onde mares cristalinos marginam brancas praias pontilhadas de coqueiros. Em duas ou três destas apetecíveis miragens, até se fala a nossa língua.

Os grandes cataclismos proporcionam aos historiadores, filósofos ou arqueólogos, vasto manancial para pesquisa in loco, ou bem longe, nas academias onde surgem teses de doutoramento e se gizam expedições de pesquisa científica que consagrarão reputações de sapiência.

No que ao Haiti concerne, jamais surgirá qualquer futura demanda por um Farol perdido em lendária baía, nem alguém alguma vez esfregará as mãos de contente, sabendo existir sob o pó uma cidade morta, mas preservada entre camadas de pedra-pomes. Não é provável o interesse de qualquer arqueólogo que à maneira das missões de Frank Godio, se disponha a vasculhar ruínas ou fundos marinhos para achar preciosidades de outras eras, as eternas sobreviventes de passados míticos que devoramos em revistas ou programas-video da especialidade.

Em Port-au-Prince, pomposo nome de um amontoado de folhas de zinco, palha, barro e esgotos a céu aberto, nada existiu ou ainda existe para encontrar. Não se descobrirão marmóreas estátuas de deuses, alasbastros, moedas com efígies imperiais, vasos de cerâmica pintada, jóias ou artefactos de perdida civilização. O que ali falta para o recheio de montras museológicas, sobra em anónima chusma de esfomeados, sedentos, mutilados e escravos de uma ordem política que já não tem lugar, nem faz sentido.

Passada a febre mediática que vende manchetes de jornais e sacos de pipocas reservados aos gulosos sentados diante dos televisores, o Haiti infalivelmente desaparecerá da memória de todos, confortavelmente amodorrados na certeza de que se fez o possível e o impossível para justificar a lógica da humanidade.

Estamos todos regalados por nos enganarmos uma vez mais. O Haiti já não é uma antiga colónia, um país ou uma nação em forma de Estado. Tal como outros infelizes exemplos, não passa de uma expressão geográfica, sinónimo de desgraça.

Enquanto a morna ficção a que se dá o nome de Nações Unidas não reconhecer a evidência da falência de muitos dos chamados “Ventos da História”, dúzias de milhões continuarão condenados ao que sabemos e preferimos não querer assumir.

Comments

  1. Pedro says:

    O Haiti não tem meios para reconstruir o Haiti. Quanto ao último parágrafo, de futurologia não percebo nada.

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