O direito à felicidade

Tinha passado pouco mais de um quarto de hora e já todos bocejavam. Era um daqueles filmes românticos, de uma época em que os melodramas de amores impossíveis faziam suspirar as audiências e as deixavam, quando finalmente irrompia o The End, chorosas e reconfortadas em partes iguais. Uma história de amores impossíveis, de amantes que silenciavam o apelo do coração e se afastavam para ir viver, cada um para o seu lado, uma vida de renúncia. Enfim, uma seca dos diabos.

Para a minha geração, não há amores impossíveis. Quem hoje está nos trintas já cresceu numa era alimentada por um mito poderoso, o mito da felicidade pessoal como valor absoluto. Atingi-la é, mais do que um direito, um dever, uma cruzada à qual cada um deve dedicar a sua vida, com absoluta seriedade e persistência. E a felicidade, como se sabe, não o poderá ser se alcançada tarde. Queremos ser felizes e queremo-lo agora.

O mito da felicidade não é compaginável com amores impossíveis, com adiamentos, com sacrifícios, com a impossibilidade do Ter (esse outro grande valor). A felicidade imediata é uma imagem mobilizadora que faz avançar com a tenacidade e o ímpeto de uma locomotiva.

Eu, que tenho o direito a ser feliz, moverei montanhas, passarei por cima de qualquer obstáculo, e ai daquele que me negar esse direito inalienável. E se algum imprevisto irromper no caminho, se algum desvio me afastar da minha meta, aí estarão os antidepressivos, as terapias de retalho, os manuais de auto-ajuda para me colocarem outra vez nos trilhos.

Estamos cercados de promessas de felicidade – na publicidade, na indústria do entretenimento, nas relações pessoais. Somos incentivados, empurrados, obrigados a trabalhar para a nossa felicidade incondicional e imediata.

Sendo a felicidade um conceito que tem sofrido grandes transformações, desde os antigos gregos, que primeiro o formularam, até aos nossos dias, que significa hoje ser feliz?  E o que significa não o ser?

A busca da felicidade tem sido um motor poderoso na história da Humanidade. Tem inspirado lutas contras as injustiças sociais, impulsionou o avanço da ciência, tem guiado uma reflexão profunda sobre o Humano. Mas como é apanágio da nossa época, foi tomada pela febre imediatista, que a tudo retira o seu sentido profundo, e a tudo exige rapidez e eficácia. E esquece que, nesta, como noutras buscas, o caminho não é menos importante do que a meta.

Dou por mim a pensar que é prioritário educar para a frustração, para o adiamento, para a espera, para a persistência, para o sacrifício dos interesses pessoais quando valores mais altos se levantam. Tudo isto sem perder de vista a necessidade de perseverar na luta pela conquista dos objectivos pessoais e sociais ou, por outras palavras, a busca da felicidade. É difícil? Pois é, mas se não fosse não valia a pena.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Grande texto!E o caminho é, realmente, ainda mais importante que a meta. Porque a meta é o caminho, estarmos de bem connosco e com os outros, todos os dias numa procura incessante, num caminho que nunca alcança o fim. É no caminho que temos que ser felizes. A maioria acha que há um dia que alguem “proclama” sou feliz! Daí a pressa, a vida a passar pela gente, não ter tempo para olhar para o fim da tarde, ou os filhos a crescer…


  2. A felicidade é saber fazer sacrifícios pelo outro e esperar que o outro saiba sacrificar-se por nós. A felicidade é perceber que não é o “eu” mas o “nós”. Julgo que esse é o grande problema e a razão do falhanço de tantos casamentos.

    A nossa geração, Carla (e nossa pois sou da tua geração), nisso- busca da felicidade – não é assim tão diferente da anterior. A felicidade, a busca da, não é um mito, e a razão de ser do ser humano – na vida em comunidade passa a ser uma razão plural.

    Penso eu de que…como diz o outro, ehehehe.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Exacto. «É prioritário educar para a frustração». Ensinar a ouvir a palavra não.

  3. Carlos Loures says:

    Há mais de 150 anos, acho eu, o nosso Camilo escreveu um romance com o título «Onde está a felicidade?» onde equaciona a questão em termos que ainda me parecem válidos. Em meados do século XIX, tal como hoje, o valor do dinheiro e do lugar que cada um alcançava na sociedade, definia um paradigma de felicidade muito próximo do actual. O dado novo mais relevante, talvez seja o papel da mulher que, à época, era de uma quase total submissão e passividade – lembro-me de uma rapariga que os pais queriam casar com um rico industrial, amando ela, salvo erro, um primo pobrezinho. O que eu não sei, colocando o romance nos dias de hoje, é se a heroína não escolheria ela o ricaço, mesmo sem a imposição dos pais. Afinal quem é que gosta dum pobretanas, tendo ao seu alcance um empreendedor de sucesso, um gajo assertivo e triunfante? Quem é que escolhe um perdedor? A natureza humana hoje, como há mil anos, prefere o ter ao ser. O ser humano muda pouco – se calhar o que muda são os modelos literários. Bom trabalho, Carla, o essencial está dito no teu texto.

  4. Luís Moreira says:

    Mas, Carlos, uma mulher gostar de um homem de sucesso não é normal,possível,recomendável ? Gostar de uma mulher não tem a ver com o que ela é, e sendo ela, é-o por ser inteligente, ter sucesso e ser bonita, aos meus olhos? Gostar de um pobretanas, sem nervo,inculto,sem capacidades, é uma pova de “honestidade” nos sentimentos? Ou é uma paixão burra, sem explicação, que vai dar com os burrinhos na água?
    Eu percebi isto quando vi o Carlo Ponti casar com a Sofia Laurem. O que procurava Sofia, num gajo baixote, gordo e careca, se não a inteligência, o nervo e a capacidade de sucesso? Beleza já ela a tinha!

  5. Carlos Loures says:

    Foi o que eu quis dizer. Uma pessoa (M/F) de sucesso sempre foi mais atraente do que outra que a vida tenha derrotado. A natureza humana é como é e já era assim na sociedade romana. A literatura, a filosofia, a arte, que são os testemunhos que ficam, é que vão mudando.

  6. carla romualdo says:

    Aqui está um exemplo de como os comentários podem enriquecer, e de que maneira, um texto. Obrigada a todos.


    • Luís Moreira says:

      É mesmo por isso que você tem muito a aprender com o Frederico. Uma visão diferente da sua…

  7. carla romualdo says:

    Pronto, já respondeste como cientista, agora responde lá como poeta…

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