À consideração dos professores do meu país

Santana Castilho

“Quando eu tinha cinco anos, a minha mãe dizia-me que a felicidade era a chave da vida. Quando fui para a escola, perguntaram-me o que queria ser quando fosse grande. Escrevi feliz. Então eles disseram-me que eu não tinha entendido o exercício. E eu disse-lhes que eles não entendiam a vida.” (John Lennon)

Como qualquer humano explicado por Freud, somos o resultado da disputa entre o nosso “id”, vertente primária subjugada pelo instinto, o nosso “ego”, bússola de navegação pela realidade externa, e o nosso “superego”, o árbitro implacável que vigia e obriga os outros dois estádios a permanecerem entre os limites da moral vigente e a considerar os seus dilemas.
Poderemos falar de um “superego pedagógico”, que obrigue os que têm por missão orientar os seres em crescimento a não lhes dar o que não lhes deve ser dado, mesmo que imposto pelos normativos modernistas dos que mandam, prolongando a abulia e subjugando as vontades? Deverá esse “superego” atípico impedir que os professores empurrem as crianças pelos corredores da pressa e do utilitarismo, quando as deviam guiar pelos trilhos calmos do personalismo e dar-lhes tempo para terem tempo? Trilhos onde os livros tradicionais ganhem aos meios electrónicos, a memória seja uma qualidade intelectual respeitada e o silêncio cultivado como meio para nos encontrarmos connosco próprios, aprendendo que até um cabelo projecta a sua sombra.
A missão de um professor é também impulsionar e acelerar a evolução da humanidade dos seus alunos, tornando-os mais sensíveis, ensinando-os a distinguir a verdade da mentira, a justiça da injustiça, a humildade da vaidade, a bondade da inveja. [Read more…]

Economia da felicidade

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Há uns dias, em França, no âmbito das 13ª edição das Rencontres économiques d’Aix-en-Provence, o Cercle des économistes promoveu uma iniciativa que teve por base um programa chamado Inventez 2020, la parole aux étudiants (Inventem 2020, a palavra aos estudantes). O programa, participado por centenas de jovens oriundos de toda a França, desafiou-os a escrever um texto de reflexão prospectiva sobre o estado do Mundo em 2020 – nele pondo as suas perplexidades, expectativas e desejos. Seleccionados os cem melhores textos, o Cercle des économistes convidou os seus autores a subir a uma tribuna para dar conta das ideias neles contidas.

O que disseram? Que querem viver num mundo mais compreensível e mais feliz. A felicidade – variável desprezada pela generalidade dos empregadores – é o que os move, e estão certos. Crescimento? Sim, claro, disseram todos, mas antes de tudo o mais um crescimento que faça inflectir o caminho danado do capitalismo financeiro, produtor de grande número de pessoas infelizes em toda a parte. [Read more…]

Felicidade tem U

Procuro notícias interessantes no PÚBLICO de hoje…

“Tal como nós, os orangotangos e os chimpanzés são mais felizes no início da vida e quando ficam mais velhos (…). A curva da felicidade ao longo da vida tem a forma de um U, os portugueses são mais felizes aos 66 anos. (…) Acontece aos homens e às mulheres, aos solteiros e aos casados, aos ricos e aos pobres, aos que têm filhos e aos que não têm“, disse então o economista Andrew Oswald sobre a crise da meia-idade, quando divulgou os resultados do trabalho na revista Social Science & Medicine.”

“Esperávamos compreender o famoso quebra-cabeças do padrão da felicidade humana e acabámos por mostrar que não pode ser por causa de empréstimos, divórcios, telemóveis ou outra parafernália da vida moderna“, diz Oswald. “Os símios não têm nada disso, mas têm uma crise de meia-idade pronunciada.

Ideias que não passam de estatísticas e estudos para «cientista ver» e que não acrescentam nada à nossa vida.

Mas vamos lá contrariar este estudo e aquele U! E trabalhar para sermos mais felizes na meia-idade!!

P.s.- a felicidade interessa!

Átrio dos Gentios

Decorre durante os próximos dois dias o Átrio dos Gentios, em Braga e Guimarães, subordinado ao tema “O Valor da Vida”.

Ana Luísa Amaral (“não sei se sou crente”; “tenho saudades de Deus”) confessa que gostava de ter fé e D. Carlos Azevedo explica o conceito do Átrio dos Gentios, no debate que ocorreu hoje à hora do almoço na Rádio Renascença.

“Crentes e não crentes amam a vida, defendem a dignidade e têm inquietações sobre estas questões.”

Vale a pena ouvir, não demora muito tempo. São dezoito minutos que ainda cabem na nossa vida!

“Felicidade inteligente”; “todos sentimos a dor, todos pensamos”; ” a arte pode ser um caminho para expandir os afectos”; “a compaixão, sentir com o outro”; “ver o outro feliz”; “o futuro exige de nós que sejamos ponto de partida” ; “precisamos de recantos e cantos onde a nossa alma se anime”; “narrar a vida torna-a mais preciosa”; “a poesia é a versão laica da oração”- são algumas das ideias que se podem ouvir entre a poetisa e o sacerdote.

Não há muros entre nós, crentes, e não crentes.

Ele diz coisas elementares e contudo…

O homem pouco formal, guarda-roupa descuidado para o evento, subiu ao estrado, colocou os óculos e começou por proferiu o seu discurso, pausadamente, gestos lentos, palavras sensatas – seria dos seus setenta e sete anos?- como se mastigasse cada uma delas, revestindo-as de importância e beleza, antes de as fazer ouvir a si mesmo e aos ouvintes na Rio+20, junho de 2012.

Ouvi duas vezes o seu discurso, tirando apontamentos, admirando esse homem uruguaio, agricultor e presidente do seu pequeno país. Sim, Pepe é esse presidente que doa 90% do seu salário para pessoas carenciadas e ONG’s:

“(…) deixem-me fazer algumas perguntas em voz alta. (…) falamos sobre desenvolvimento sustentável. De como eliminar o imenso problema da pobreza. Que se passa em nossas cabeças? (…) o que aconteceria com este planeta se todos os habitantes da Índia tivessem a mesma proporção de carros que os alemães possuem? Quanto oxigénio teríamos para respirar? (…) Porque nós criámos esta civilização (…) filha do mercado, da competição que se deparou com o progresso material enfático e explosivo. (…)

Estamos governando a globalização, ou é a globalização que nos governa? [Read more…]

A felicidade também faz um jornal

Hoje, Miguel Esteves Cardoso (Público) sacia-nos com estas palavras, poesia perdida (?), poesia que não é um engano nos dias que correm, poesia que é a nossa maior necessidade. As suas palavras – intencionalmente encaixadas entre notícias de austeridade, troika, dívidas, TSU, pobreza, desaparecimento da classe média, etc.- que, com amor se casam uma às outras, como MEC e Maria João, falam do que verdadeiramente interessa na vida, ofuscado pela miséria que nos aparece mais visível:

O futuro contém a nossa morte e, depois dela, o infinito de nadas, chato como o ferro do cosmos, que antecedeu os nossos nascimentos.

A felicidade, se calhar, é desejar que as coisas não piorem muito, de dia para dia, para não se notarem tanto.

O presenteaquilo que ainda se tem, a começar por estar vivo e lembrarmo-nos de termos estado pior — é a felicidade maior, somada às memórias de felicidades que continuam vivas e que nos fazem sorrir, pertencer e desejar bem aos outros que ainda não as tiveram. Se não nos lembrarmos de termos estado pior ou não tivermos a esperança de ficarmos melhor, já não conta como felicidade; já não conta como presente. Não é só dizer “eu ainda consigo”: é preciso também haver a consciência de ter prazer, não em conseguir, mas nas coisas que se fazem.

Todos sabemos o que nos espera. Interessa apenas decidir não tanto o que fazer enquanto esperamos como descobrir as formas que ainda nos restam de nos distrairmos. A distracção é a forma mais exaltante da vida. Quem se pode distrair — amando, lendo, pintando, trabalhando, coleccionando, politicando — não pode ser inteiramente triste, não por não estar apenas simplesmente não-morto e vivo, mas por ter encontrado a maneira de fazer pouco do presente, em atenção ao passado ou ao futuro lembrado ou desejado, como momento e movimento em direcção a eles.

Restam as consolações.

Quando é ser momento ou movimento a única coisa, para se ser feliz, que se quer.

A Cristiano Ronaldo só falta ser humano

 A capa da revista 2 do jornal Público de hoje é «A tristeza de Cristiano». É a tradução dum artigo do jornalista do El País, John Calin.

Não basta a CR ser rico, giro e um grande jogador…

O dinheiro não traz felicidade, o dinheiro não é tudo, etc., são expressões que fazem todo o sentido aplicadas ao jogador que se “arrisca a ficar alheado da realidade (…) precisa de alguém que iniba a egolatria”.

São muitos os que enganam o rapaz: «Lembra-te que és deus!».

Maradona também era um deus e … a história é conhecida: drogas.

Digam-lhe a verdade: «CR, és apenas humano!»

E ser humano tem muito que se lhe diga!!! É, por exemplo, sentirmo-nos derrubados, sem força para nos levantarmos do «relvado» da vida.

31 de Agosto ou recomeçar de novo

Recomeçar de novo… sempre gostei desta frase.

O realizador Joachim Trier (1974) coloca-a em questão no seu filme Oslo, 31 de Agosto que deve estar a estrear por estes dias: esta é a história de um homem novo, 34 anos, que se pergunta se ainda é possível recomeçar de novo.

J.T. pergunta ainda: «Tínhamos obrigação de ser felizes. Porque é que não somos?»

Porque é que não somos felizes, não obstante termos vidas confortáveis?

As críticas são muitas boas. Talvez seja uma boa sugestão para Sair de casa!

Agora que acabaram as férias e voltamos ao trabalho, recomeçamos de novo, de certa forma.

Mas há outros recomeços importantes a implementar… É positivo termos este sentimento de que nos são dadas outras oportunidades…

E outra coisa: «a obrigação de sermos felizes»…

Ovos estrelados

Em Abril, na revista Fugas/Público, Miguel Esteves Cardoso escreveu deliciosamente sobre a felicidade de comer ovos estrelados! No mesmo dia, li no Expresso que vão ficar mais caros 60% …

Vou escrever sobre eles, hoje, que a minha sogra me trouxe meia dúzia de ovos das suas galinhas!

Um ovo estrelado é uma beleza! Quem não gosta de ovos estrelados? «Espetar» a batata frita aos palitos na gema… ou o arroz misturado com a gema semicrua!!

Lembrei-me neste exacto segundo que costumava misturar açúcar com broa nos ovos estrelados quando era criança. A minha mãe adorava também. Julgo que já não o faz…

O que seria de uma dona de casa sem os ovos? Quando não há nada de jeito para fazer nem tempo para descongelar peixe ou carne, recorro aos ovos, os melhores amigos da cozinheira!! Claro que mais que um já é uma festa!

O que se pode fazer com ovos…quase tanto como com o bacalhau!

Um ovo estrelado dentro de um pão (a gema a cair no prato), acompanhado por uma sopa já desenrasca e nada mais rápido. Comida de pobre? 

Comida de «pobre» é a que me sabe melhor!

A palavra iniciada por F

Enquanto tomo o café, leio uma entrevista à professora Helena Marujo, especialista em Psicologia Positiva:

“A felicidade também se aprende e também se treina.

A felicidade e o optimismo têm impactos profundos nas nossas vidas:

1- melhoram a saúde;

2- potenciam as capacidades cognitivas;

3- aumentam a longevidade; entre outras vantagens”.

Helena Marujo diz-se uma pessoa feliz, mas num trabalho diário de construção da felicidade. Não é algo natural nela, antes algo que busca. Uma sugestão que deixa: apaixonar-nos por aquilo em que acreditamos.

«E em que é que eu acredito?» – pago o café e vou trabalhar.

É pecado não ser feliz

Encontrei um pedacinho de papel entre as folhas de um Moleskine: um recorte da rubrica «Escrito na pedra» (jornal Público). Não sei desde quando…

 A frase é do célebre escritor argentino J.L.Borges (1899-1986):

No passado cometi o maior pecado que um homem pode cometer: não fui feliz.

Como Conquistar a Felicidade

Como Conquistar a Felicidade – Livro escrito em 1989 por dois psicoterapeutas americanos. Um best-seller mundial editado em português pela Impala. Não sei se ainda disponível. Mas devia. Custou-me mil e duzentos escudos!

Eles contam histórias de pacientes, propoêm exercícios e fazem muitas perguntas. Bem que eu gostava de poder transcrever as mais de trezentas páginas do livro. Mas como não é possível, partilho algumas partes curiosas:

(…) Por favor, escreva o seu nome neste espaço:   ___       Depois, escreva – ISMO a seguir ao seu nome. Se alguém lhe pedir que diga o nome do seu sistema de crenças, da sua religião, da psicologia ou da filosofia que norteia a sua vida, apresente-lhe o nome que tiver escrito. É a sua própria via.    

(…) Partida: «Actuar como se» (agindo como se fosse a pessoa que se deseja ser).

(…) O que é o êxito? Quem mede aquilo que você vale? – você ou a sua audiência?

(…) As ideias são drogas. (…) As palavras são a moeda do comércio mental. (…) o uso repetido de algumas palavras-chave revela aquilo em que as pessoas acreditam.

(…) na verdade a mais importante parte da liberdade, consiste em sermos livres de ter as imperfeições e dores de que os seres humanos padecem.

(…) Quem é você? Sabe? (…) Interiormente, os seres humanos estão longe de ser indivíduos. São multidões e «eus» parciais.

(…) A minha vida está a ir para onde quero?

(…) Não estrangule a voz que, dentro de si, o informa de que poderá fazer quase tudo o que quiser.

P.S. Não percebo porque não andam estes livros nas mochilas dos estudantes do ensino Secundário, como fazendo parte de uma disciplina criada por alguém com visão no ME, tão importante como as outras.

Não é em função ou com o objectivo da Felicidade que estudamos?

Já imaginou uma disciplina no horário dos nossos filhos chamada Felicidade? E por que não? Este mundo é muito maluco…

Chorar de felicidade

A amada de Miguel Esteves Cardoso não tem mais metástases no corpo! Uma boa notícia.

“Desta vez estava a chorar de felicidade. Como chora cada vez que ouve ou lê palavras doces, a dar força, a partilhar a dor, a juntar-se para que ela saiba que há muita gente a sofrer com ela, tal é a vontade delas que ela não sofra. Ou sofra pouco.” («Desmorrer», Público, 30-5-2012)

Que doce e fácil é o choro da felicidade.

Chorar de felicidade – que misteriosa contradição humana (que as crianças não compreendem)!

 

FIB- Felicidade Interna Bruta

Parece que só agora os economistas e os políticos se lembraram da Felicidade. Os políticos portugueses são mais lentos, daí que tão cedo (ou nunca) ouvirão a palavra sair das suas bocas. Vitor Gaspar, que é lentíssimo, soletraria a palavra, Fe-li-ci-da-de. Felicidade seria mais um lapso… nos seus discursos.

A Economia integra muito tarde o novo vocábulo e o valor em si. Depois de muita asneira feita. Á custa de muita infelicidade e de inúmeras vidas.

Eis uma história real que já contei no DN:

Era uma vez um rei que se preocupava com a felicidade do seu povo… [Read more…]

Laila

adão cruz

Laila nunca fora feliz. Nem muito nem pouco. A felicidade não engraçara com ela, talvez por ser feia. Feia não era. Até era muito bonita por fora, o que não acontecia por dentro. Tinha sempre a alma do avesso e os sentimentos fora do corpo. Nunca atravessava a rua pela passadeira, entrava nas portas sempre às arrecuas e não beijava o Senhor na visita do compasso. Puxava o manto do Senhor dos passos na procissão da Paixão e fazia caretas às zeladoras do Coração de Jesus. Assistia à missa de costas para o padre. Não rezava nem comungava. A bruxa já havia dito que algum mau-olhado caíra sobre ela quando era criança ou que o diabo lhe cravara as garras na gola do casaco. [Read more…]

A Razão

adão cruz

A razão

tamanho de todos os céus no silêncio de sonho-menino os olhos cheios de serenas manhãs na frouxa luz do fim da tarde.

 A razão

palavra que se prende por entre as folhas dos álamos a doce margem de um regato no sobressalto do pensamento.

 A razão

saber se o tempo vai se o tempo vem no calendário do sonho não dar contas ao tempo de um tempo que se não tem.

 A razão

semente branca da vida no fruto maduro da tarde a esperança dos olhos frios na quente ilusão de outro dia.

 A razão

três lágrimas vertidas na corrente do alto rio um redemoinho de pedra e água brincando à beira do abismo.

 A razão

coração bem apertado nos braços da solidão a felicidade cantada sem voz nova na garganta.

 A razão

a firmeza do vento no rio que não volta atrás …ou a leveza do luar nas margens da sombra.

 A razão

coração cravado na erva espantalho de emoções longos braços de palha entrelaçados de ilusões.

amar e ser feliz

amar e ser feliz

Brevemente deves estar comigo, minha querida neta May Malen. Enquanto não chegas, andam todos a correr porque me amam e querem que seja feliz com a tua visita. Quando Friedrich Engels, companheiro de escrita e de luta de Karl Marx, escreveu A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1a. Edição: 1884 ; 4a. Edição Revisada: 1892), nunca imaginou o ardente carinho que um pai de família, como eu, pode sentir pela sua neta mais nova, talvez porque não tinha filhos nem netos, e como o elo do texto era a relação entre a propriedade e a família, centrou o seu livro (que pode ser lido em http://classiques.uqac.ca/classiques/Engels_friedrich/Origine_famille/Origine_famille.html) mais na propriedade que devia ser comum para todas as pessoas, como acontecia nas famílias mais antigas da sua época. O autor não fala de emoções ou emotividades, não era necessário, porque partilhar tudo o que se tem ou se possa adquirir dentro do grupo doméstico, é bem emotivo sem dar mais explicações.

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amizade e solidaridade

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….para as pessoas que se estimam minhas amigas… e lembram-se de mim…

Hoje em dia, a amizade e a solidariedade, parecem ser dádivas. Mas dádivas raras. Em outros dos meus textos tenho definido, mania académica, o que é amizade: uma atracção recíproca com a pessoa que nos entendemos. Não envolve nem erotismo nem amor, apenas entendimento, alegria de se estar juntos e poder confidenciar assuntos que a mãos ninguém diríamos.

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Um texto meio ao calhas

(adão Cruz)

Caros amigos:

Há já largos dias que não tenho ligado puto ao Aventar. Não é que esteja zangado nem que me tenha esquecido dos amigos. O facto é que tenho estado de molho. E o molho, neste caso é à base de um estupor de uma tendinite na face interna da coxa direita, que me limita grandemente a minha actividade e me faz dizer umas asneiras daquelas que a gente diz quando está fodido e mal pago. Tenho-me valido dos anti-inflamatórios, que são tão bons a aliviar as dores como a dar cabo de um gajo. Ele são dores de cabeça, ele são tonturas, vertigens, náuseas, vómitos, azia e enfartamento pós-prandial, perda de apetite, eu sei lá! De tal modo que eu arrumei com eles, preferindo as dores aos efeitos secundários, já não falando nos efeitos nefastos que vocês desconhecem e ainda bem, muito mais silenciosos e subtis, que quando eclodem são do carago! [Read more…]

Felicidade

Para quem quer escrever um texto sobre este tema, ter lido a bela escrita da Carla e o profundo texto do Adão, é uma felicidade ?

A maioria diz que sim, porque aqueles textos são belos, dão prazer e até  abrem trilhos para o seu próprio texto.  Mas para quem quer ir na frente, ser original, aqueles textos só podem ser olhados como uma infelicidade.

Conhecemos pessoas que nasceram com tudo e nunca foram felizes, e há outras que tendo pouco, sempre foram felizes. Há aqui um pózinho de loucura? Pois há! O tolinho, normalmente, é muito feliz, não percebe a sua condição ou percebe que se safou de boa?

Costuma dizer-se que é tudo muito mais dificil para quem é culto. E é verdade! Já pensaram no que será a angústia de um pai médico, percebendo certos sintomas que o filho apresenta? O que pode ser? Um pai que não faz ideia nenhuma acha sempre que é uma gripe.

O primeiro está com o conhecimento e profundamente angustiado, e o segundo está com a ignorância e calmamente feliz

Para sermos felizes a primeira condição é sermos ignorantes e idiotas?

Há gente que pelo seu ADN ou por ter adquirido na vida (normalmente em criança) está impossibilitado de ser feliz?

Então, o que é ser feliz para quem tem as condições que as circunstâncias, ao sabor da vida, se foram reunindo?

Despertar de manhã, acordar os filhos, levá-los à escola, ler o Aventar acompanhado de um cafezinho, o chefe ainda não chegou…

Acordar às três da tarde depois de uma noite copos, primeiro wisky, o fígado a desfazer-se, não tem ninguem, anda de namorada em namorada, telefona aos amigos a dizer que foi ao médico e não tem SIDA…

A felicidade é o caminho, é a vida, é estarmos de bem com a vida, é fazer o que gostamos. E, talvez a única coisa que seja comum a todos nós, é termos consciência do muito que a vida nos dá!

Eu, por exemplo, seria profundamente feliz, se amanhã de manhã acordasse com todos os problemas que os jovens do Aventar têm! É que, sabem, esses problemas resultam do que eu  já não tenho!

E isso não me dá felicidade nenhuma!

No entanto, ontem, quando soube que vem um neto a caminho, vi o meu filho tão feliz, a mãe do meu neto tão consciente da sua condição, que tive que ir à cozinha buscar um prato que não precisava…

A felicidade

Meus amigos:
Os meus amigos e a nossa Carla em particular põem-me cada questão que eu fico sempre naquela…que o mesmo é dizer: é melhor ficar calado. E é, é melhor ficar calado, porque há assuntos em que nos perdemos sempre que neles nos aventuramos a entrar. A felicidade…sei lá eu o que é a felicidade! Sabe lá a Carla o que é a felicidade! sabemos lá nós o que  é a felicidade! A felicidade do meu organismo, ou seja do meu ser global, porque eu não aceito qualquer dualidade corpo-espírito, é aquilo a que chamamos a homeostasia, isto é, a sintonia de todos os fenómenos que em mim se processam. Se há um desequilíbrio, grande ou pequeno,  em toda a constelação de vivências da minha harmonia, há um grito de alarme, mais estridente ou menos estridente. Se eu tenho dor, dita física ou dita psíquica, essa dor é um sinal ou um alarme acusando que a sintonia está perturbada. E a felicidade é a sintonia do meu ser. A felicidade é a ausência do sentimento da dor, dor como sentimento de desequilíbrio, seja ele qual for. Portanto, no seio de tão complexa textura, dizer que a felicidade está no dinheiro ou na carteira vazia, no carro topo de gama ou no andar a pé, no poder ou no desprendimento, no hotel cinco estrelas ou na casa de campo em que a Carla foi passar o fim de semana com lobos à mistura, na vivência da nossa razão ou na esperança das crenças sobrenaturais é puro disparate. A felicidade possível pode estar ou não estar em qualquer destas circusntâncias, porque ela só está na nossa homeostasia, na ausência de dor, como sentimento de alarme. E a dor tem uma escala incomensurável que abrange, felizmente, todos os seres humanos do mais rico ao mais pobre, do mais pensante ao mais irracional. Graduar a felicidade é, no fundo, mas bem no fundo, como pretender guiar o nosso fluxo neuronal através de três biliões de neurónios.

O meu filho sai ao pai

Um dia o meu filho chegou aqui a casa e diz-me, é pá, levas-me amanhã ao aeroporto? Vou de férias para a Sicilia, com a Crischa. Eu nem sabia quem era a Crisha, mas como desde os dezassete anos que andava de comboio por essa Europa fora com amigos e amigas calculei que fosse uma namorada.
Passados quatro dias, como não obtinha “feed back” (estou muito liberal…) telefonei e diz o gajo, todo lampeiro: estamos bem e casados!
Quer dizer o jovem não está de modas casou-se numa pequena aldeia na pequena ilha, branca, cheia de sol e junto ao mar. E eu sem perceber nada apesar do gajo me ter pedido um casaco escuro, e uns sapatos pretos para as ocasiões “finas”.
Bem, hoje, veio cá jantar com a mulher para me ensinar a fazer “links” e mal me sento, digo-lhes com ar de “pater famílias” estilo Ricardo com a manta pelos joelhos, vão hoje ao Aventar que a Carla escreveu um texto muito importante sobre a felicidade, que vale a pena ler e matutar no que ela diz, e o Hugo Luis não está com modas, diz-me logo é, pá, ainda bem que falas em felicidade porque acabamos de saber que a Crisha está grávida, vais ser avô!
Já marquei consulta para o médico, já para amanhã e ando aqui ás voltas com uma suspeita. Os textos da Carla e do Ricardo estão “feitos” com a Crisha? Estavam a preparar-me?

O direito à felicidade

Tinha passado pouco mais de um quarto de hora e já todos bocejavam. Era um daqueles filmes românticos, de uma época em que os melodramas de amores impossíveis faziam suspirar as audiências e as deixavam, quando finalmente irrompia o The End, chorosas e reconfortadas em partes iguais. Uma história de amores impossíveis, de amantes que silenciavam o apelo do coração e se afastavam para ir viver, cada um para o seu lado, uma vida de renúncia. Enfim, uma seca dos diabos.

Para a minha geração, não há amores impossíveis. Quem hoje está nos trintas já cresceu numa era alimentada por um mito poderoso, o mito da felicidade pessoal como valor absoluto. Atingi-la é, mais do que um direito, um dever, uma cruzada à qual cada um deve dedicar a sua vida, com absoluta seriedade e persistência. E a felicidade, como se sabe, não o poderá ser se alcançada tarde. Queremos ser felizes e queremo-lo agora.

O mito da felicidade não é compaginável com amores impossíveis, com adiamentos, com sacrifícios, com a impossibilidade do Ter (esse outro grande valor). A felicidade imediata é uma imagem mobilizadora que faz avançar com a tenacidade e o ímpeto de uma locomotiva. [Read more…]

Para reflectir

Esta semana dei por mim a ter uma conversa com uns colegas sobre os cursos que vamos tirar. Se têm ou não saída. Sobre o que nos vai acontecer. Sobre o que queremos na vida, sobre a felicidade e a falta dela. Sobre tudo o que pode correr terrivelmente mal. Estamos em humanidades, bolas, estas preocupações são justificadas em todas as áreas e especialmente na nossa. Contudo, ás tantas alguém mencionou o terramoto no Haiti, e nós percebemos que as nossas preocupações, apesar de perfeitamente justificáveis para a nossa idade, e para o nosso contexto, são pouco comparado com as preocupações daqueles desgraçados. Depois de um silêncio há um colega que diz: “a pergunta que eu faço todos os dias, mas mesmo todos os dias, é: se eu morresse hoje, será que moria feliz?”

Hoje em dia, há muito a noção de que toda a gente tem é que ser feliz, e de que tudo tem que ser fácil, e este sentimento está generalizado, especialmente entre os jovens. Eu não concordo nada com isto. Acho que a vida não é fácil, e não é para ser fácil, e não vai ser fácil. E é preciso esforço, muito esforço, e lutar e muito. E no meio disto a chamada felicidade pode ficar pelo caminho. Mas também acho que é bom relativizar as coisas. Parar um pouco, para pensar, realmente, se moressemos hoje, será que morríamos felizes.

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