Memória descritiva: a Operação Dulcineia

1961 foi, como referi num outro texto, um «annus horribilis» para o regime de Salazar. Na madrugada de 22 de Janeiro de 1961, começava a longa sucessão de acontecimentos que iria culminar, no último dia do ano, com o ataque ao quartel de Infantaria 3, em Beja. Pelo meio, ficava o desencadear da guerra colonial, o golpe de Estado do general Botelho Moniz, a perda do Forte de São João Baptista de Ajudá, encravado no território do Daomé, o desvio de um avião da TAP, realizado por Palma Inácio, que lançou depois panfletos sobre diversos pontos do País, a União Indiana invadiu Goa, Damão e Diu, pondo fim á secular presença portuguesa no subcontinente …

O que se passou no dia 22 de Janeiro de há 49 anos? Um comando do DRIL (Directório Revolucionário Ibérico de Libertação), composto por portugueses e por espanhóis ex-combatentes da Guerra Civil, dirigido por Henrique Galvão e Jorge Sottomayor, pôs em marcha a «Operação Dulcineia», tomando de assalto o paquete Santa Maria, ao largo do mar das Caraíbas e crismando-o de «Santa Liberdade». Antes de vos falar da «Operação Dulcineia», vou apresentar o seu comandante: Henrique Galvão.

Militar de carreira, Henrique Galvão (1895-1970) foi um dos apoiantes de Sidónio Pais e participou no golpe militar de 28 de Maio de 1926. Salazarista convicto, foi, em 1934, o primeiro director da Emissora Nacional. Esteve em África, onde organizou acções de propaganda do regime. Nomeado governador de Huíla. Angola, escreveu uma livros brilhantes sobre a antropologia e a zoologia vida das colónias de África.

O ter vivido o regime por dentro levou-o à desilusão. Esteve envolvido numa conspiração em 1952. Foi preso e expulso das Forças Armadas. Em 1959, durante uma consulta médica no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, fugiu e refugiou-se na embaixada da Argentina, vindo a conseguir, tal como o general Humberto Delgado, exílio político na Venezuela.

Foi durante o exílio que começou a preparar uma acção mais espectacular, mediática: o desvio do paquete de luxo “Santa Maria” cheio de passageiros. A operação que parecia megalómana, de difícil concretização, preparou-a de colaboração com Delgado, exilado no Brasil.

O “Santa Maria”, com mais de seis centenas de passageiros e 350 tripulantes a bordo, largara em 9 de Janeiro de La Guaira, Venezuela, numa viagem para Miami. Galvão embarcou clandestinamente em Curaçao, nas Antilhas Holandesas. A bordo já se encontravam os 20 elementos do DRIL, encarregados de executar a operação.

Cumprindo uma ordem de operações cuidadosamente elaborada por Galvão, a acção foi desencadeada na madrugada de 22 de Janeiro – a ponte de comando foi tomada. Um dos oficiais, um ex-graduado da Mocidade Portuguesa, ofereceu resistência e foi morto a tiro. Os restantes, segundo Galvão, apressaram-se a render-se. Vergonhosa e cobardemente, comentaria depois Galvão.

O navio mudou o seu rumo e dirigiu-se a África. Galvão pretendia atingir a ilha de Fernando Pó, no golfo da Guiné, na época, colónia espanhola, partindo daí para atacar Luanda: Este seria o início de uma operação mais vasta destinada a derrubar as duas ditaduras peninsulares.

No entanto o paquete, do qual nada se sabia, com natural apreensão dos familiares de passageiros e tripulantes, foi avistado por um cargueiro dinamarquês, que imediatamente avisou a guarda costeira americana. Começaram a chegar navios de guerra, inclusivamente uma fragata britânica.

Não sendo possível prosseguir com o plano traçado, que exigia o factor surpresa, Galvão e Sottomayor decidiram dirigir-se ao Brasil e render-se às autoridades brasileiras. O novo presidente, Jânio Quadros (1917 —1992) , um homem de esquerda, foi empossado em 31 de Janeiro de 1961, vindo a renunciar em 25 de Agosto desse mesmo ano (declarando que “forças terríveis” o obrigavam a esse acto).

Rumaram então ao Recife onde pediram asilo político, o qual foi prontamente concedido. Desembarcaram no Rio de Janeiro os passageiros. O presidente Jânio Quadros recusou-se a entregar os revoltosos às autoridades portuguesas. O navio esteve em poder dos revolucionários até 2 de Fevereiro, dia em que uma força de fuzileiros da Marinha Brasileira assumiu o seu controlo.

O assalto ao Santa Maria, que forneceu tema para um filme de Joaquim Manso a estrear brevemente, foi naquele Janeiro de 1961 um assunto de grande exposição mediática internacional – jornais de actualidades, canais de televisão, jornais, magazines, dedicaram-lhe grande atenção. Foi o primeiro golpe daquele ano que Salazar iria abominar, o ano de todos os prodígios em que os oposicionistas tiveram motivos para ter esperança na queda da (aparentemente inabalável) ditadura a qual, no entanto, ainda se aguentaria por treze anos mais.

8 comentários em “Memória descritiva: a Operação Dulcineia”

  1. Com que esperança se viveram estes actos. As páginas dos livros escolares, da autoria de Henrique Galvão foram mandadas arrancar.

  2. E alguns dos seus livros foram impedidos de circular. Nas Bibliotecas da Gulbenkian, o seu liuvro «Kurika» era dos mais lidos, embora não tivesse nada de políitico.

    1. E o ditador com aquela voz de velho, no caias de Alcântara: “Temos o Santa Maria connosco! Obrigado, portugueses” ainda hoje dói!

  3. Essa voz do Salazar não tinha a ver com a idade. No célebre discurso da Sala do Risco, em Maio de 1930, com 40 ou 41 anos, já tinha essa voz.

  4. Dominique Lapierre do Paris Match foi o primeiro jornalista a falar com Henrique Galvão numa reportagem de 12 páginas a certa altura escreveu que «O palácio flutuante era o ‘primeiro pedaço da pátria libertada’» hoje no DN – 5 décadas da acção armada em Portugal

  5. Foi o que saltou em para-quedas junto do Santa Maria, não foi? A fotografia que publiquei com o texto é dele. Foi uma reportagem que correu mundo. Em Portugal, esse número do Paris Match foi proibido e só se arranjava com expedientes.

  6. Pois foi, lançado do céu e acabou por entrar no Santa Liberdade disfarçado de bombeiro – uma imaginação fértil para cumprir uma ordem… Falou com Henrique Galvão e publicou 12 páginas sobre os acontecimentos …
    A partir de então um outro Portugal foi dado a conhecer ao mundo

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