O melhor jogador em campo

O futebol não é apenas um desporto. É filosofia disposta num esquema tático de 4 4 2. Metafísica à baliza. Um quarteto defensivo formado por ontologia, ética, religião e moral. No meio campo, lógica e epistemologia. Nas alas estética e linguística . Política e economia a pontas de lança. Tudo isto servido por uma reserva de luxo, onde suplentes frequentemente utilizados como retórica, psicologia, psicánalise, antropologia, sociologia e semiótica, saltam do banco para resolver as partidas.

Mas, apesar do que se possa pensar a, sua pátria não é a Grécia nem  a Alemanha é o seu expoente máximo. Filosofia futebolística fala-se em português , e todas as outras línguas são menores. É evidente que tal como no campo, o Brasil ganha com larga vantagem. A atestá-lo estão figuras como Valter Matheus, Galvão Bueno e Nenem Prancha, homens cujo pensamento deveria ser ensinado em todas as faculdades de letras. No entanto, neste Olimpo ombreia um português cuja importância não poderá nunca ser menosprezada. Referimo-nos, como o leitor mais cultivado já deduziu, a Gabriel Alves, injustamente ignorado pelos nossos irmãos brasileiros sem algum chauvinismo. Talvez porque a escola Alvesista constitui um contraponto platónico de raiz lusitana, ao Sambismo aristotélico da tradição brasileira.

Este panorama, é claramente dominada por homens do jornalismo, sendo Matheus, antigo presidente do Corithians, o único dirigente desportivo, que atingiu este Olimpo. Seria no entanto injusto não referir duas importantes correntes portuguesas: o SousaCintrismo, mais empiríco e o PintoCostismo transcendental, pioneiros que abriram novas portas para linhas que despontam hoje debaixo da alçada da escola Vieirista. Seria também injusto, não referir o papel de técnicos e jogadores. Apesar de limitados pela sua disponibilidade, sempre que chamados aos debates, algumas figuras produziram linhas de pensamento coerentes e não menos profundas, ainda que sem a profusão quantitativa dos acima mencionados. Quem se poderá esquecer da famosa frase de Dádá, que resume a todo o programa do verdadeiro futebolista filósofo  : “Tragam- me a problemática que eu chego com a solucionática”. Neste âmbito, bem conhecidos  são o Jardelismo estudado em ambos os lados do Atlântico e cuja prolixidade é sobejamente apreciada. E é claro, o JoãoPintismo, ainda que claramente referenciado ao PintoCostismo, não deixou de lhe dar uma nova perspectiva e colorido.

Não pretendo maçar o leitor com a minha pretensa erudição. Sou apenas um amador auto didacta, que mais não quer do que partilhar convosco o entusiasmo do pouco que sabe. Mas a propósito do jogo de ontem venho evocar duas figuras fundamentais. Nenem Prancha e Nelson Rodrigues.

Nelson Rodrigues é uma figura excêntrica ao mundo do futebol, tendo ficado mais conhecido pela sua obra literária e dramática. A sua filosofia  futebolística versava o tema da realidade. A pergunta fundamental de Rodrigues é o que é a realidade? Tomando como exemplo o jogo de ontem, a realidade será o golo mal anulado do Setúbal ou dois penaltis por assinalar a favor do Benfica? Rodrigues dedicou uma vida inteira a estudar esta problemática. A solucionática que encontrou foi o Video. Assim se o Video mostra que o golo do Setúbal é legal, então o vídeo é burro, logo ficaram dois penaltis por marcar.

Já quanto ao penalti falhado do Cardozo e ao golo na própria do David Luiz, a questão que se coloca é se Deus existe? Que diabo, DavidLuiz como mandam as regras do centralismo democrático, quis mandar a chincha para a tomba da mironga do cabuletê, e não é que esta entra baliza adentro a rir-se. Para Rodrigues como para Kant esta pergunta nunca poderá ser respondida. Se Deus existe como poderia permitir tal injustiça. Mas como então explicar o golo na própria do Ricardo Silva? Não se trata aqui do inverso da medalha. Para responder a tais questões, Rodrigues cria um patamar transcendental a que dá o nome de Sobrenatural de Almeida, a quem atribui a responsabilidade por estas ocorrências. Trata-se de uma figura que paira em todos os estádios e que teima em intervir nos jogos como se de um décimo terceiro jogador de tratasse (reparem que presença do treze não é inocente) . De acordo com esta linha de pensamento  aquele penalti falhado pelo Cardozo foi defendido pelo Sobrenatural de Almeida. Donde se prova mais uma vez que o video é burro, ao mostrar a bola a bater no barra. É pois com algum espanto que vejo A Bola de hoje eleger como melhor de jogador em campo um tal de Bruno Ribeiro, que ninguém sabe quem é nem viu jogar, quando toda percebeu que Sobrenatural de Almeida fez uma exibição do outro mundo(nota dez).

Ainda a propósito do penalti falhado, Nenem Prancha, remete-nos para a dimensão política da problemática, aliás o seu tema predilecto, a que pretendo voltar em posts futuros. Segundo Prancha: Penalti é tão importante que só deveria ser cobrado por presidente do clube. Ainda para mais quando se trata de um penalti decisivo no último minuto. Seguindo este raciocínio, a culpa do empate de ontem só pode ser atribuído a Jesus, não o de Nazaré, mas o de Alcantâra. Após o apito do Árbitro, competia-lhe mandar aquecer o Luís Filipe Vieira, ou na ausência deste o Rui Costa. Só estes estavam plenamente conscientes da importância do momento. Só eles sabiam como marcar aquele penalti. Só eles estariam à altura das responsabilidades.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Do melhor! A problemática é a bola ser redonda.Digo eu…


  2. Aqui está mais um pormenor de fino recorte:

    “Neste âmbito, bem conhecidos são o Jardelismo estudado em ambos os lados do Atlântico e cuja prolixidade é sobejamente apreciada. E é claro, o JoãoPintismo, ainda que claramente referenciado ao PintoCostismo, não deixou de lhe dar uma nova perspectiva e colorido”.

    Em suma, o Miguel é o maior hooligan do Aventar e o resto é treta!

  3. Carlos Loures says:

    Excelente abordagem. Hooligan ou No-Name Boy, o MIguel escreveu um texto de antologia a que a águia Vitória não foi certamente estranha. Parabéns*.
    ——
    *Se me tivesse lembrado de escrever um texto sobre o jogo, talvez não tivesse precisado do Diazepam para dormir.

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