A Formiga Branca (Memória descritiva)



Elementos da Formiga Branca no Arsenal da Marinha.

A luta política na I República entre os diversos partidos e movimentos e, no interior de cada um deles, entre sensibilidades ou tendências, fez-se com uma violência que não se quedou – como acontece nos dias de hoje – pelas batalhasoratórias: atentados, arremesso de bombas, os espancamentos, eram, infelizmente, coisa vulgar. Como se sabe, foi o facto de os diferentes movimentos políticos não se terem entendido que conduziu ao caos político, social e económico, e, consequentemente, à extinção da I República.

Com a eleição de Manuel de Arriaga, a 24 de Agosto de 1911, o Governo Provisório, constituído após a implantação da República, apresentou a sua demissão. Nessa altura, eram já públicos os desentendimentos entre os líderes republicanos. Manuel de Arriaga, apoiado por António José de Almeida e Brito Camacho, obteve 121 votos, contra os 81 de Bernardino Machado, aliado de Afonso Costa. No Outubro seguinte, reuniu o Congresso do Partido Republicano e o novo Directório eleito ficou quase exclusivamente constituído por elementos ligados a Afonso Costa, facto que determinou uma primeira segmentação do PRP.

Em 1912, António José de Almeida formou o Partido Republicano Evolucionista e Brito Camacho, o Partido União Republicana. O «velho» Partido Republicano Português (fundado em 1876) liderado por Afonso Costa foi crismado: Partido Democrático. Os diários das diversas tendências – o Mundo, a República, a Luta, entre outros – divulgavam pormenores da discórdia, analisando-os facciosamente, de acordo com as respectivas ideologias.

Em Setembro de 1911, o Presidente da República nomeara para chefe do I Governo Constitucional o jornalista e diplomata João Chagas, afastando os principais ministros do Governo Provisório. Em 13 de Novembro foi nomeado o segundo governo da República, dirigido por Augusto de Vasconcelos. Manter-se-ia em funções até 16 de Junho de 1912.

Em 9 de Janeiro de 1913, tomava posse o primeiro governo de um só partido, o governo homogéneo do Partido Democrático, presidido por Afonso Costa que sucedeu ao de Duarte Leite, constituído por três membros do Partido Democrático, 2 do Evolucionista e um independente.

Em 27 de Abril, um violento movimento insurreccional dos radicais, liderados pelo herói da Rotunda, Machado dos Santos, veio determinar a criação de uma estrutura armada que permitisse garantir a segurança dos governantes e dos dirigentes partidários. Foi então que, recrutando membros da Carbonária e dos batalhões de voluntários da República se constituiu a chamada Formiga Branca.

Garantir a segurança dos líderes democráticos, era o principal objectivo desta milícia. A estrutura, informal e semi-clandestina, foi criada com recurso aos elementos mais radicais, muitos dos quais ligados à Carbonária, que tinham integrado os extintos batalhões de voluntários da República e teve como organizador Daniel Rodrigues, Governador Civil de Lisboa e irmão do então Ministro do Interior, Rodrigo Rodrigues.

Apesar de inicialmente se destinar apenas a garantir a segurança dos principais líderes democráticos, foi rapidamente transformada num verdadeiro serviço de polícia política, com uma rede própria de informadores e de denunciantes e com numerosos operacionais prontos a levar a cabo acções violentas contra organizações adversárias, organizar barragens nas estradas (os comités de vigilância) e a promover a intimidação dos adversário políticos, exibindo a força e gozando de total impunidade.

A Formiga Branca tanto colaborava com a Polícia regular, como exercia justiça por sua conta e risco, transformando-se a breve trecho em bandos de rufiões que, com prepotência, cometiam actos de violência sobre adversários dos democráticos. Uma certa simpatia que existia a seu respeito na opinião pública, depressa se transformou em repúdio generalizado.

Tiveram, apesar de todas as suas contradições e error, um papel positivo quando da breve ditadura de Pimenta de Castro que, em 14 e 15 de Maio de 1915, ajudaram a derrubar. Após o consulado de Sidónio Pais, a sua influência foi decaindo.

A criação da organização foi logo criticado por Machado Santos nas páginas de O Intransigente, jornal dos radicais que, devido a essas críticas seria alvo de um ataque da organização, sendo defendido pela Formiga Preta, um movimento similar (mas sem a mesma força), organizado pelos radicais. Além de O Intransigente, foram suspensos outros jornais de Lisboa, tais como O Dia, A Nação, O Socialista e O Sindicalista. Dias após a proibição, alguns deles foram novamente autorizados.

A acção da Formiga Branca manteve-se até ser desmantelada após o Golpe de 28 de Maio de 1926, com períodos de maior e menor actividade, segundo a sorte dos democráticos. Ao longo de toda a Primeira República Portuguesa, a Formiga Branca esteve sempre pronta para o trabalho sujo que permitisse um reforço das posições de Afonso Costa e do seu partido.

Reconhecendo implicitamente a ligação, Afonso Costa afirmaria: «A verdade é que a Formiga Branca, como associação ou instituição revolucionária, não existe. A chamada Formiga Branca é apenas o povo que ama a Republica, hoje como em 5 de Outubro, e que, por muito a amar, zelosamente a vigia e a defende»(…) « O Partido Republicano Português não tem que enjeitar essa Formiga Branca, porque o Partido Republicano Português tem de ser, e é, um partido popular, no exacto sentido do termo».

Quando da Revolta de Fevereiro de 1927 em Lisboa, contra o regime da Ditadura Nacional, consta que muitos elementos da Formiga Branca pegaram em armas ao lado dos militares revoltados, tendo alguns deles sido fuzilados junto do chafariz do Largo do Rato.

O grande Stuart Carvalhais publicou este desenho em «A Lanterna»: Cristo agarrado por um homem da Formiga Branca e por um polícia municipal, sendo levado à presença de Afonso Costa.

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