Já aqui contei que traduzi o livro «Noites Brancas», de Feodor Dostoievski. Fiz a tradução a partir da edição francesa, pois de russo apenas sei aquela meia-dúzia de palavras que toda a gente conhece. Traduzi a partir da tradução francesa de Pierre Pascal e Boris Schloezer – essa, sim, feita directamente do russo. Havia já as excelentes traduções de Maria Franco e de José Marinho (que fiz questão de não consultar durante o meu trabalho). Houve posteriormente a de Luiz Pacheco para a sua artesanal editora – a Contraponto. Mas não contei os motivos por que fiz a tradução e num tempo recorde, em muito poucos dias. Bem sei que o livro não é grande, mas, mesmo assim, foi uma maratona e tanto. Por que tive de traduzir o livro tão à pressa?
Estávamos na primeira metade dos anos 70, eu trabalhava numa editora internacional e íamos lançar uma «História da Arte» em muitos volumes. Era uma obra preparada com cuidado, com a versão portuguesa dirigida por um grande especialista na matéria, José António Ferreira de Almeida (1913-1981), professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde viria a ser presidente do Conselho Científico.
Lembro com saudade o professor, as reuniões que fazíamos na editora ou na sua casa do Restelo – pois, com aulas também na Faculdade de Letras de Lisboa, de onde, aliás, era natural, dividia o tempo e a vida entre as duas cidades. Numa moradia não muito grande, acumulava mais de 40 mil livros. Salas e corredores, tudo estava forrado de estantes até ao tecto -. um espectáculo impressionante. Era uma pessoa alegre, bem disposta, e com uma cultura vasta que não se restringia à sua área de especialização.
Como sempre, nas vésperas dos lançamentos, a azáfama era enorme – reuniões com a empresa encarregada da distribuição, com a agência de publicidade, telefonemas para a gráfica que imprimia a obra (em Pamplona). Oferecíamos aos leitores, por sorteio, viagens a São Petersburgo, que se chamava ainda Leninegrado.
Tínhamos aprovado as peças que a agência preparara – os mobiles para as livrarias, os encartes para os principais jornais diários e para o Expresso. Tínhamos aprovado o grafismo, porque o texto só o pudemos ver depois de impresso (isto porque não havia tempo para fazer as coisas como devia ser e confiávamos plenamente nas pessoas da agência, gente culta, escritores, jornalistas, com provas dadas).
No dia do lançamento, com sessão de solene apresentação no salão nobre do Hotel Tivoli, enquanto o professor falava para uma assembleia distinta, pus-me a ler os folhetos, os encartes, o material publicitário. E, a dado momento, o coração caiu-me aos pés, como costuma dizer-se, pois li qualquer coisa do género: «Ganhe uma viagem a Leninegrado, a Veneza do Báltico, a cidade das cúpulas douradas e das «Noites Brancas», de Tchekhov.»
Fui imediatamente mostrar o folheto ao director criativo da agência, Orlando da Costa, um grande amigo e excelente escritor, do qual, aliás, já aqui falei. Ele também não tinha lido, tinha confiado na «copyrighter», uma senhora de uma grande cultura que quando a chamámos e lhe mostrámos o seu erro ficou desolada e envergonhada. Lera muito do Dostoievski, muito de Tchekhov, e escrevendo de memória, enganara-se.
Entretanto a sessão acabou e marcámos logo uma reunião de emergência numa sala que para o efeito a gerência do hotel nos disponibilizou. Um administrador queria crucificar a «copyrighter». O Orlando e eu não deixámos. Defendemos a ideia que prevaleceu – a responsabilidade era minha, que tinha confiado cegamente no Orlando e era do Orlando que confiara cegamente na tal senhora.
Ela não tinha culpa de que, quem estava a seguir na cadeia de responsabilidades tivesse abdicado do direito e do dever de ver, rever, ler e corrigir. A obra já estava distribuída por todo o País, a hipótese de tirar os encartes dos jornais e dos livros, estava fora de questão.
Na reunião, começaram a ser postas ideias na mesa. A que parecia mais natural era mandar fazer novos folhetos corrigidos e distribuí-los, fazer mais um encarte para os jornais,.etc. Houve quem dissesse que o melhor era não fazer nada, acreditando que poucas pessoas dariam pelo erro. De notar que tinham sido distribuídas mais de duas centenas de milhares de encartes. Foi então que tive a ideia.
Transformar o erro num concurso. E a ideia foi aprovada. O segundo encarte dizia mais ou menos: «No folheto anterior cometíamos deliberadamente um erro na informação que dávamos sobre os prémios. Se localizar esse erro terá direito a uma oferta». Foi um grande êxito. Muitos milhares de respostas e uma grande parte delas correctas – o autor de «Noites Brancas» era Dostoievski e não Tchekhov. Embora tenha custado muito dinheiro, o erro convertera-se num factor adicional de promoção e com resultados fortemente positivos no volume de vendas.
Entretanto, o problema «sobrou pra mim», como dizem os nossos irmãos brasileiros. Não encontrando ninguém que traduzisse a obra rapidamente, três quatro dias, tive de meter mão à obra e fazer eu o trabalho. As operações de revisão, de composição e de impressão e acabamento, foram também executadas com a oficina a trabalhar de dia e de noite. Poucos dias depois de terem respondido acertadamente, os clientes tinham em suas casas um elegante livrinho com a história romântica de Nastenka e de um sonhador que por ela se apaixona, deambulando pelas noites brancas de São Petersburgo. Começa assim:
«Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos?»







Já apreciei as noites brancas de São Petesburgo e deambulei noite fora, o relógio biológico não trás o sono, as avenidas não têm fim, as mulheres são loiras e lindas. Não me senti nada irritado. mas com algum medo, é dia e não há gente, nem carros, nem barulho.Estranho, mas uma experiência única para um latino.
Li o teu texto e fiquei com a pulga atrás da orelha… Eu tinha lido o “Noites Brancas” na adolescência, numa edição de bolso… seria? E era mesmo! Foi a tua tradução que li, meu caro Carlos. Agradeço esse trabalho em tempo recorde!
Também lá estive três dias. É, sem dúvida, uma das mais belas cidades da Europa – uma cidade construída de raiz e sumptuosa, com o seu Hermitage, com as cúpulas do almirantado, a Perspectiva Nevsky (a tal avenida sem fim de que falas). E, sim, as russas são muito bonitas, sobretudo em jovens. Digo eu.
Pode não ter sido a minha tradução que leste. Há uma mais antiga, editada pelos Estúdios Cor, da Maria Franco. A do José Marinho, também anterior, tem belíssimas ilustrações do grande Manuel Ribeiro Pavia. Depois, na colecção livros de Bolso da Europa-América, saiu a minha em Março de 1973. Mais perto do fim do século, saiu a do Luiz Pacheco. A edição da Inquérito, a do José Marinho, também é em formato de bolso.
É tua, é, está lá o teu nome
Belo texto e bela cidade, que também conheci em plena União Soviética. Sempre fui um fã de Dostoievsky, desde os 18 anos, altura em que li toda a sua obra.
Sobre ele escrevi:
Meu amigo Dostoievsky
nada temos a ver
aparentemente
um com o outro
a não ser o nosso encontro
pelos meus dezoito anos.
Apetece-me chorar ao recordar as noites
em que à luz de um foco olho de boi
debaixo dos lençóis
– para que minha mãe não visse –
eu invadia os teus livros
numa das maiores
e mais deliciosas aventuras da minha vida.
Ainda hoje me são familiares
o rosto de Sónia e a figura de Raskolnikov
luz mítica e mística dos que têm coisas em comum
orientando-se na direcção do símbolo
e do mundo sem forma.
Da mesma forma que te marcaram Balzac
Schiller Victor Hugo e Goethe
tu imprimiste em mim a sensação
que te fez desmaiar
perante a beleza de Seniavina
na casa dos Wielgorsky
e eu não sou homossexual
meu caro Dostoievsky.
Perante a beleza
eu não sei ao certo onde pára o sexo
se no esperma de Úrano derramado no mar
se na poesia da Morte em Veneza.
Não é a realidade física que interessa ao simbólico
mas o significado do sexo na imaginação.
A dualidade do ser funde-se
na tensão interna de quem ama
e a união sexual não é mais
do que o apaziguamento da tensão interior.
Nunca te concebi humano
sobretudo depois dessa manhã
de rosto de pedra e gelo
em que viveste o mais trágico minuto da tua vida.
Um vento glacial varreu-me a fronte
ao ouvir o teu nome na chamada para a morte:
-Akcharumov!
-Shaposhnikov!
-Dostoievsky!
Hoje
depois de ter amado tanto
aceito a tua epilepsia
como o estigma mais marcante
da pureza da condição humana
e passei a considerar-te meu irmão
para o resto da vida.
Por isso me senti prisioneiro
quando entrei na fortaleza de S. Pedro e S. Paulo
por isso chorei na Praça Semenovsky
onde viveste uma vida inteira
em dois minutos de morte.
Era como se fosse eu o condenado!
Também chorei quando reencontraste Suslova
apenas
pelo que sofreste ao ver que o amor não se repete.
A noite e o vazio
estão na origem cosmológica do mundo
e o amor é uma criança que cresce…
e deixa de ser criança.
Amor e morte
quando descobertos
acordam e fogem.
Para escrever bem é preciso sofrer
disseste um dia ao jovem Merejkovsky
quando a vida confundia as chamas do teu inferno
com relâmpagos de visionário.
Sofrer pode ser apenas sorrir…
frente a toda a utopia palpável
não paranóica nem delirante.
Foi a mim que o disseste
meu caro amigo
foi a mim que o disseste
na tarde cinzenta da tua morte
na hora da hemorragia que te vitimou.
Até hoje ainda não te agradeci.
Perdoa não ter acompanhado o teu féretro
mas nessa altura eu não existia…
ou será que te acompanho ainda hoje
neste pesado caminho do fim?
Belo e sentido, o teu poema. Dostoievsky é também santo da minha devoção.