Calendário da cintura industrial (Poesia & etc.)

Tinha dito que neste série Poesia & etc., publicaria poemas, inclusive poemas meus. Até agora não tinha publicado nada da de minha autoria. Este poema, “Calendário de Cintura Industrial” foi escrito há muitos anos. Foi escrito ao mesmo tempo que os poemas inéditos de «O Cárcere e o Prado Luminoso», publicado em 1990. Sempre o achei um pouco lamecha e, além isso, excessivamente longo para o meu gosto. À última hora, retirei-o do livro. Tenho-o guardado, hesitando entre o deitá-lo fora ou reformulá-lo. Assim, foi mantido inédito durante vinte anos. Até hoje.

Tudo tem de mudar
Na paisagem brumosa:
É urgente inventar
Uma rosa de Maio
No cabelo do vento
Em Janeiro.

Mas primeiro,
Tudo tem de mudar
Neste charco cinzento
É preciso cantar
Já com Março na voz
Em Fevereiro.

Tudo tem de mudar
Quanto antes
(Tem de ser assim)
Sem que nada
Perturbe os amantes
Que estão no jardim.

Tudo tem de mudar
No país sem rosto
Há-que semear
Uma clave de sol
Na face sem luz
Deste Agosto.

Tudo tem de mudar
Neste pulmão esmagado
Há-que plantar
Um prado, um punho, uma ave
Na brisa suave
De Junho.

Tudo tem de mudar –
Tudo está como antes,
Foi por isso que vim
Pedir-te que nada
Perturbe os amantes
As flores e o jardim.

Tudo tem de mudar
Neste céu de betão
É preciso pensar
Numa flor rupestre
Que arda e eleve
A manhã ao rubro

Tudo tem de mudar
A lixeira, a barraca,
Vamos pois levantar
A tal estátua equestre
Que assuma o poder
De outro Outubro.

Tudo tem de mudar
Nesta cidade vil
Neste rosto ensombrado
É urgente hastear
Um sorriso e o esplendor
De um cravo em Abril.

Tudo tem de mudar
Por isso é urgente
Que grites, chores ou cantes
Que garantas que sim,
Que nada irá perturbar
Os amantes que estão no jardim.

Tudo tem de mudar
Neste gueto sem luz
E não basta ocultar
O pus com a flor
E dizer em Novembro
Que é Abril.

Tudo tem de mudar
Neste corpo amputado
Não é justo gritar
Que a mudança trará
A morte e o horror
Doutro Chile.

Tudo tem de mudar
E não basta que cantes
Que sorrias fitando o alem e
Finjas que tudo está bem
Que o calor chegou
Ao jardim e aos amantes.

Tudo tem de mudar
E a palavra não chega
É preciso lutar
Como lutámos antes
Proteger as flores
O jardim e os amantes.

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