Jesus é castigado após a visita do Magos

A criança não se comportou devidamente perante os sábios. Mordeu o nariz ao Gaspar, que lhe segurava com dois dedos uma bochecha enquanto fazia: Buubuu, pausadamente, acrescentando, muito depressa para os seu ritmo habitual:

– Lindo menino, é pena não ter escalão familiar para usufruir do abono de família…

E assim Jesus experimentou de sua mãe as primeiras palmadas.

max ernestMax Ernst: A Virgem bendita castigando o menino perante três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o artista

Calendário da cintura industrial (Poesia & etc.)

Tinha dito que neste série Poesia & etc., publicaria poemas, inclusive poemas meus. Até agora não tinha publicado nada da de minha autoria. Este poema, “Calendário de Cintura Industrial” foi escrito há muitos anos. Foi escrito ao mesmo tempo que os poemas inéditos de «O Cárcere e o Prado Luminoso», publicado em 1990. Sempre o achei um pouco lamecha e, além isso, excessivamente longo para o meu gosto. À última hora, retirei-o do livro. Tenho-o guardado, hesitando entre o deitá-lo fora ou reformulá-lo. Assim, foi mantido inédito durante vinte anos. Até hoje. [Read more…]

Estranhas manobras

O surrealismo lusitano, canta e ri, corre e dança, inebriante, vicioso, contagiante. Num carrossel contínuo que mal permite repor o fôlego. Tudo é informação, tudo é actualidade, e no entanto nada parece verosímil.

Dois episódios de ontem, deste carrossel:

1 – A escova de Francisco Louçã sobre os ombros de José Sócrates, no plenário parlamentar, em híbrido gesto de solidariedade para com o Primeiro-Ministro, acerca das escutas.

Não bate certo, algo está por trás disso. Talvez as presidenciais. Talvez.

2 – O estranho avanço de Paulo Rangel, numa sôfrega candidatura à presidência do PSD, a dividir um eleitorado com Aguiar-Branco, e a solidificar um outro eleitorado, o de Pedro Passos Coelho.

É uma candidatura tardia, incoerente e desleal. Imprópria para quem assumiu o compromisso de que ficaria no Parlamento Europeu, e que as excepcionais razões do actual momento político por ele invocadas, só servem de injusto atestado de incompetência a Aguiar-Branco.

Parece que o Norte continua a assustar as ditas elites do PSD, desde os tempos de Francisco Sá Carneiro.

Pedro Passos Coelho agradece.

Num inebriante começo de mês, estas são apenas duas voltas de um carrossel de estranhas manobras. Tudo à roda, sem tino ou razão.

Poesia & etc. – Manuel da Fonseca

Esta série que hoje inicio tem um formato diferente das que anteriormente dediquei à poesia – neste espaço vão conviver poetas famosos, poetas populares, poetas menos conhecidos… Não será apenas gente já falecida – em alguns casos falarei de poetas vivos. E, de vez enquando, meterei um poema meu.. Para começar escolhi o Manuel da Fonseca, grande poeta e ficcionista.

Falei com Manuel da Fonseca por duas vezes. A primeira, faz hoje (precisamente) 50 anos, foi na noite de 2 de Janeiro de 1960. Como é posso referir com precisão, a data? Porque sei que foi no Inverno de 1960, no dia do aniversário do Mário Henrique Leiria (foi só ver em que dia tinha nascido – 2 de Janeiro de 1923).

Um grupo numeroso – o António José Forte, o Virgílio Martinho, o Saldanha da Gama, o Henrique Tavares e mais alguns de que não me recordo, fomos convidados para a festa de aniversário do Mário Henrique. Quando chegámos à Vivenda Maria Xavier, em Carcavelos, residência do Mário, uma das pessoas que já lá estavam, era o Manuel da Fonseca. [Read more…]

Clube dos Poetas Imortais: Ernesto Sampaio (1935-2001)

Este é o último texto desta série, na qual privilegiei a presença de amigos e de poetas estrangeiros de língua portuguesa, pouco divulgados entre nós. Aglutinando esta a outra série, «Poemas com história», começarei em 2010 a série «Poesia & etc.», onde me debruçarei sobre poetas, vivos ou falecidos, eruditos ou populares, e, de quando em vez, um poema meu, de preferência inédito – sempre com paleio explicativo. Falarei também de poetas que nunca escreveram poemas. Digamos que o «etc.» do título é muito abrangente. Comecei este clube com o António José Forte e termino-o com outro poeta surrealista – Ernesto Sampaio.

Conheci o Ernesto Sampaio no café Gelo, em 1958. Na tarde de 16 de Maio eclodiram motins por ocasião da chegada a Lisboa, vindo da triunfal visita ao Porto, do general Humberto Delgado. Já houvera confrontos na estação de Santa Apolónia e repetiram-se, com maior violência, quando o general chegava à sede da candidatura, que funcionava no Teatro Avenida. No meio da refrega, encontrei-me lado a lado com o Ernesto Sampaio que conhecia, como já disse, do Gelo. E lá andámos na faina do arremesso de pedras, nos avanços e fugas – o trivial, nestas coisas. Já anoitecia, quando chegámos ao Gelo. Contámos aos outros, que tinham ficado à mesa do café a ouvir os rumores dos confrontos, o que se passara. [Read more…]

Clube dos Poetas Imortais: Manuel de Castro (1934-1971)

Conheci o Manuel de Castro no café Gelo, em 1958. Tinha um feitio difícil, passando facilmente de uma extrema afabilidade para uma agressividade também excessiva (ou vice-versa). Se fosse hoje, dir-se-ia que sofria de bipolaridade. Na época atribuíam-se estas coisas a razões mais prosaicas – ao excesso de álcool, por exemplo. Porque Manuel de Castro foi um grande poeta, era uma excelente pessoa, mas abstémio não era. À medida que o íamos conhecendo, ia dissolvendo-se a sua carapaça de formalismo ou de grande animosidade, e aparecia o verdadeiro Manuel – cordial, bem humorado, irónico, com grande capacidade de encaixe para aceitar críticas. Ria-se em prolongadas casquinadas que lhe faziam estremecer os ombros.

Eu não valorizaria nem a eventual bipolaridade, nem o real alcoolismo – diria que Manuel de Castro era uma pessoa tímida e sem jeito para o convívio. Não fazia concessões nem fretes – se lhe liam um poema e se ele não gostava, dizia-o logo de forma brutal e demolidora ou de maneira delicada, mas consistente, consoante estava em dia sim ou em dia não. Tinha uma personalidade vincada e, sobretudo, era um grande poeta a quem nunca foi dado o merecido valor. [Read more…]

Clube dos Poetas Imortais: António Maria Lisboa (1928-1953)

Poucos escritores portugueses, como aconteceu com o poeta surrealista António Maria Lisboa, que morreu tuberculoso e louco com 25 anos, terão num percurso tão curto como dele, marcado tão indelevelmente a literatura do seu tempo . Em «O senhor cágado e o menino», auto-retrata-se nestas palavras: «O Menino de bronze repousa na solidão da lua nasceu-lhe um olho de chacal que é o animal que só passa nos caminhos livres e são todos – os lobos é que andam à espreita – e o coração é de Leão. E esta é a sua Lealdade e o seu Amor como o Destino e o seu Sentido que tem e chama-se António Maria Lisboa.»

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Um português que Portugal desconhece

 

Fernando Lemos, 83 anos de idade e radicado no Brasil há quase seis décadas. Fernando Lemos – surrealista que, como Man Ray, se notabilizou através da fotografia…

Em entrevista, ontem, ao Câmara Clara. Um português nem sempre suave.

 

 

 

 

 

Clube dos Poetas Imortais: Pedro Oom (1926-1974)

  Segundo reza a história, a Revolução de 25 de Abril de 1974 apenas provocou quatro mortos. Agentes da PIDE/DGS, aterrados com a multidão que gritava sob as janelas do quartel-general daquela polícia, dispararam sobre os manifestantes, matando quatro e ferindo muitos outros. A História está errada – foram cinco e não quatro os que morreram nesse dia devido à Revolução. A poucos metros do sinistro palácio da Rua António Maria Cardoso, no Largo de Camões, dois poetas seguiam, entre muitas outras pessoas que enchiam o largo naquela tarde de Primavera, as peripécias dos agentes da secreta que, saltando de telhado em telhado procuravam escapar de ser presos pela força de fuzileiros que invadira o edifício. Era o António José Forte (o sócio número um deste clube) e o Pedro Oom. O Pedro estava feliz e comentava para o Forte: «Nunca esperei ver uma coisa destas, os pides a fugir de nós!». Sorria, e de repente, sentiu-se mal cambaleou e caiu. O Forte, ajudado por algumas outras pessoas, estenderam-no sobre um banco do largo e tentaram reanimá-lo. Alguém foi rapidamente telefonar a pedir uma ambulância. Nada feito. O coração do Pedro não aguentou tanta alegria.

 

Nos meses que antecederam a Revolução, encontrávamo-nos, num dia certo da semana, num restaurante da Rua João Crisóstomo, o Forte, a pintora Aldina, sua mulher, eu e a minha mulher, o Camecelha, o Pedro Oom, que éramos o núcleo duro do projecto, e mais alguns que apareciam com menos regularidade. Falávamos da queda do regime (tínhamos acesso aos comunicados que saíam das reuniões do MFA) e projectávamos criar uma comuna. A ideia fora lançada pelo Pedro. Chegámos a ir ver terrenos no Ribatejo – iríamos todos viver para lá e seríamos auto-suficientes. Com a morte do Pedro Oom, o utópico projecto não voltou a ser debatido.

 

 

Pedro Oom nasceu em Santarém no dia 24 de Junho de 1926. Inicialmente ligado ao neo-realismo, aderiu ao movimento surrealista. Foi o mentor da teoria do abjeccionismo, ao redigir, em 1949, o Manifesto Abjeccionista. Até 1974, os seus textos encontravam-se dispersos por jornais e revistas, sendo um dos colaboradores da «Pirâmide». Alguns desses textos poéticos, foram postumamente compilados em Actuação Escrita (1980) e em «Histórias para Crianças (Emancipadas», pequenos poemas ou relatos escritos com um insólito non sense próprio da poesia surrealista. Como o poema «Pode-se escrever» que ouvimos, declamado por Mário Viegas, e como estes «Camaradas»:

 

Os camaradas

 

Os camaradas

 

saíram para a rua

com os bolsos cheios de serpentinas

(o calendário

estava trocado

e de entrudo

nicles

nem um só cabeçudo

ou máscara

até o polícia de giro

com dignidade sui generis

dos pequenos autocratas

participou na patuscada

depois do jogo

– o Benfica foi eliminado)

Os camaradas

compraram fatos novos

nos alfaiates dernier-cri

e botaram as serpentinas

no lixo

para não deformar

os bolsos (novos).