Miguel Delibes (Poesia & etc.)

Com 89 anos, morreu ontem um dos grandes escritores de língua castelhana, Miguel Delibes. Numa entrevista em 2007 ao El País, evidenciou o seu cansaço, devido à saúde precária (desde os anos 90, padecia de cancro. Foi operado com êxito em 1998, mas ontem, ao cabo de anos de luta, foi vencido). Nessa entrevista, à tradicional pergunta de quais os seus projectos para o futuro, confessou: “Já não posso fazer mais nada. Saltou-me a corda como acontece com os carros dos meninos pequenos”.

Nasceu em Valhadolid em 17 de Outubro de 1920 e morreu em 12 de Março na «sua» cidade. Membro da Real Academia Espanhola desde 1975, foi um dos escritores que, no período pós-guerra civil mais contribuíram para restituir o prestígio à literatura do seu país. Alguns dos seus romances foram adaptados ao teatro e ao cinema. Uma obra vasta, prémios, doutoramentos honoris-causa… Cerca de 15 mil pessoas desfilaram ontem diante da câmara ardente instalada no município de Valhadolid. Hoje, na catedral, far-se-á o funeral. Delibes será sepultado no Panteão dos Homens Ilustres da cidade.

O primeiro livro que li de Miguel Delibes foi o que a colecção Miniatura dos «Livros do Brasil», publicou – “Duelo no Paraíso” ou «Luto no Paraíso», procurei o livro e não o encontro (não devia emprestar livros – dar livros é bonito, emprestar nem tanto). Mas sei que na altura concluí que, em português, se perde o sentido duplo que Delibes deu ao título, pois “duelo”, em castelhano, além de significar o mesmo que em português, significa também luto, além de outras acepções (dó, lástima, etc.).

Lembro-me da impressão que a sua leitura, há cinquenta anos atrás, me produziu. Delibes conseguia criticar a ditadura em que vivia sem ser agressivo, da leitura do seu texto depreendia-se uma grande nostalgia da liberdade, mas sem que palavras incendiárias, demagógicas, dessem azo a que a tesoura censória entrasse em acção. Nunca sendo capaz de escrever de maneira tão discreta, a leitura desta sua pequena novela despertou-me uma grande admiração. Com ternura, com alguma piedade embrulhada em ironia, transmite-nos essa sensação, pois não é expressamente afirmada, de que tudo se passa numa sociedade disfuncional, castrada, privada de liberdade.

Depois, fui lendo em castelhano algumas das obras seguintes – tenho à minha frente “La hoja roja”, com um magnífico prefácio de Francisco Umbral (1932-2007). Um outro romance importante na sua obra é “Señora de rojo sobre fondo gris”, que publicou em 1991. Baseia-se na dor que sentiu quando sua mulher morreu em 1974. «Ela era a melhor metade de mim mesmo”, disse. De resto, quase toda a sua obra é, de certo modo, autobiográfica. Note-se que para aceitar ser sepultado no Panteão, exigiu que a seu lado ficassem as cinzas de sua esposa.

Era o chamado “homem de família”. Num texto manuscrito e reproduzido em fac-simile no seu livro para crianças ”El príncipe destronado”, diz: «A minha vida sempre decorreu rodeado de crianças: terceiro de oito irmãos, pai de sete filhos, avô de dez netos, os problemas infantis sempre despertaram o meu interesse». Actualizando o censo familiar, sua neta, Elisa Silió, diz hoje em texto publicado no El País: «Sete filhos, 18 netos e dois bisnetos. Ele era o patriarca de uma extensa família com um arreigado sentimento de clã.» E falando da herança deixou a esse clã, termina: «E quero pensar que teremos herdado um pouco da sua absoluta integridade e dignidade, o seu compromisso relativamente ao próximo, a sua repulsa pelo consumismo feroz e o seu espírito de independência».

A sua obra mais premiada e citada é “Cinco horas com Mario” (1966) – um longo monólogo que se estende por 27 capítulos. Um dos poucos livros seus traduzido em português, senão mesmo o único actualmente disponível, é “O Herege”, cuja acção se situa em Valhadolid no século XVI, romance escrito em 1998, Com a sua prosa segura e contida proporciona-nos uma visão da época de Carlos V e das lutas religiosas. Foi o último romance que publicou. Depois, como disse, «saltou-lhe a corda». Ontem deixou-nos. Eram sete horas da manhã, hora local.

Comments

  1. carla romualdo says:

    O meu primeiro contacto com Delibes foi através de um filme dos anos 60, uma adaptação de “Os santos inocentes”, que me impressionou muitíssimo e me deixou com um nó na garganta. Recordo-me sobretudo do Alfredo Landa e do Francisco Rabal, ambos extraordinários. É pena que haja tão poucas obras de Delibes editadas em português e quase nenhuma disponível nas livrarias.

  2. Luis Moreira says:

    Estás a ver não conhecia, vou ter que procurar. Serviço Público!

  3. Carlos Loures says:

    Eu vi, Carla, um filme do Mario Camus. Muito bom. DElibes, Luís, é como se diz agora, «imperdível». Gostei muito que o Saramago tivesse ganho o Nobel; mas o Delibes não o merecia menos. Aliás, houve um escritor de língua castelhana que o ganhou, e. quanto a mim, não tem uma obra, nem de longe nem de perto, comparável à do Miguel Delibes. Refiro-me a Camilo José Cela.

  4. ricardo says:

    Conheço muito mal Camilo José Cela, era fascista… li uma parte da Familia Pascualle. Não sabia que tinha ganho um Nobel. Não conheço Delibes, também vou procurar.

  5. Carlos Loures says:

    Fascista, parece-me excessivo. De facto, combateu no exército nacionalista durante a Guerra Civil. O que não tem qualquer significado, pois quem estivesse em território ocupado pelas tropas de Franco era mobilizado para o respectivo exército, como acontecia na zona republicana, aliás. Porém, mais grave do que isso, após a guerra, trabalhou como censor. Mas não era às suas opções políticas que me referia – a qualidade da sua escrita, quanto a mim, foi superada por Gonzalo Torrente Ballester (que também não era de esquerda) e por Miguel Delibes, para falar apenas em escritores da geração do pós-guerra.

  6. ricardo says:

    Caro Carlos Loures
    Fascista foi a expressão que me saiu quando escrevi o comentário. Tinha essa ideia. Se acha excessivo, concordo. Na verdade, emiti um juízo de valor sem conhecer quase nada do homem e da Obra. Sendo eu de esquerda não deixo de gostar de um livro por causa da corrente politica do autor. Referiu Ballester, nunca me vou esquecer da Crónica do Rei Pasmado, simplesmente delicioso.

  7. Carlos Loures says:

    Claro, Ricardo, em linguagem coloquial pode-se chamar fascista ao Cela. Porém, em rigor, ele não o era. Digamos que não teve coragem para remar contra a maré (naquela altura, podia-se ser fuzilado por delito de opinião). Acomodou-se, fez o que era mais fácil. Mas escrevia bem, embora o Nobel me tenha parecido tão excessivo como o seu adjectivo. Um abraço, Ricardo.

  8. ricardo says:

    Carlos Loures
    “Já ganhei o dia ” :
    fiquei curioso com Miguel Delibes e vou arranjar qualquer coisa dele para ler, aliás, gostava que me indicasse uma Obra, para começar….
    fiquei a saber que o Cela não foi um FASCISTA, foi só um fascista… 🙂
    Abraço

  9. Carlos Loures says:

    Exactamente. Porém. se estivesse do lado republicano e a República tivesse vencido, seria um republicano. Há pessoas assim. Mas foi um bom escritor, ainda que como pessoa o achasse antipático, emproado, enfim, não gostava dele.
    Quanto ao Delibes, aconselho-lhe o único livro traduzido em português que julgo estar disponível: «O Herege». Foi editado pela Dom Quixote. O outro, «El duelo en el paraíso», creio que não foi reeditado. Era dos Livros do Brasil. Boa leitura, Ricardo.

  10. ricardo says:

    Obrigado, Carlos Loures

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