Uma Europa que se nega a equipar para a defesa e a colaborar na garantia da sua própria segurança, não podia ter esperado mais de uma cimeira que antes de tudo, serviu para um crucial apaziguamento e até aproximação da Rússia. Estando o gigante do leste perante dilemas de difícil resolução – fronteiras instáveis, separatismos vários, forte quebra da natalidadel, fraca densidade populacional nas fronteiras da parte asiática -, a NATO pode hoje significar o seu auto-reconhecimento como parte integral da defesa de um Ocidente, a que em boa medida pertence. Daí a vinda a Lisboa e o sucesso da Cimeira. Consistiu este, o aspecto fundamental da magna reunião.

Dizer que os trabalhos serviram para consagrar elaboradas negociações ocorridas ao longo de muitos meses, parece ser uma evidência. Escassas horas de conversas, não são suficientes para a superação de incógnitas políticas, económicas e técnicas e quanto a este ponto, os militares tiveram muito para estudar, ponderar e propor. Conseguiu-se algo, é verdade, mas apenas o futuro próximo poderá dizer-nos se se traduzirá em actos concretos, desde o Afeganistão, até à modernização das forças armadas dos países europeus. Se excluirmos o Reino Unido – na prática, o único Estado com experiência de guerra no campo de batalha -, todos os outros padecem de um velho mal, instalado desde os anos 60. Esquecidos dos traumas da II Guerra Mundial, passaram os sucessivos governos por todo o tipo de pressões de rua e dos sistemas partidários eleitorais, tendentes à radical recusa de verbas para o rearmamento ou maior eficácia, na preparação militar para qualquer eventualidade. O exemplo alemão é evidente, com um exército mínimo, quase impedido de sair das suas fronteiras e sempre motivo de desconfiança por parte dos seus próprios aliados. Quando já há décadas, uma pequena unidade procedeu a um competente e fulminante resgate de reféns capturados por terroristas na Somália, por toda a Europa surgiram primeiras páginas, onde se podia ler “A Wehrmacht desembarca em Mogadíscio!”. De facto, o chamado “motor europeu”, sendo o país mais populoso da UE, o mais poderoso em termos económicos e aquele que pela sua posição central, continua a ser apontado como o principal garante da segurança continental, é um anão militar e pior ainda, vive acorrentado por complexos de inferioridade moral que hoje, decorridas três gerações desde a queda de Berlim, não têm qualquer nexo e causam graves transtornos à eficácia da Europa como entidade e à NATO como organização sólida e capaz. O caso da divergência Merkel-Sarkozy a propósito do nuclear, é típico. Se por um lado se compreende bem a relutância alemã pela posse deste tipo de armas, por outro lado torna-se gritante, a evidência do raciocínio francês. Bem vista as coisas, as armas nucleares são o único argumento de dissuasão válido, dada a duvidosa eficácia dos recursos convencionais na generalidade dos países componentes da vertente europeia da Aliança. A França, sendo um aliado que na aparência construiu um imponente edifício militar, apenas pode contar com uma muito insuficiente força de projecção externa, contando com um porta-aviões e uns tantos vasos de guerra capazes de operações anfíbias no além-mar. O Reino Unido é e continuará a ser, a única força com a qual os americanos poderão contar, dada a modernização sempre presente, a experiência nos tetros de guerra, a determinação no prosseguir de uma política que tem raízes num passado não muito distante e a certa colaboração na “special relationship” com os EUA. Contra a esmagadora superioridade da US Navy, poucos argumentos “a Europa” terá, para fazer valer a sua voz. Não passa de um parceiro subalterno, embora a sua posição estratégica seja fundamental para a segurança dos Estados Unidos que simplesmente, não se podem dar ao luxo de a dispensar.

Torna-se duvidosa, a súbita consciência da imperiosa modernização das forças militares dos componentes europeus da NATO. Ainda há dias assistimos a um debate parlamentar, durante o qual ressurgiu a ridícula, mesquinha e até infamante questão dos submarinos da Armada Portuguesa. Choveram dichotes e insultos e o próprio primeiro-ministo – que está de parabéns pela excelente organização e garantia de segurança da Cimeira -, não se coibiu de participar neste suicidário jogo de descrédito e de humilhação nacional. De facto, as lideranças políticas são as principais inimigas das Forças Armadas a quem devem o poder, a ascensão social e os chorudos proventos decorrentes do exercício da potestas. Termos visto o Sr. Santos Silva, o Sr. José Sócrates e o Sr. Luís Amado longamente falarem acerca do interesse nacional e finalmente, sobre assuntos de verdadeiro interesse geral, foi reconfortante. Esperemos que não seja uma fase de adequação ao ambiente da Cimeira e que na próxima segunda-feira, não regressemos às vergonhosas indignidades habituais, tão do agrado de quem manda e de quem se lhe opõe. Nisto, não existe qualquer diferença entre o governo e a oposição e bem podemos utilizar o estafado lema do “todos diferentes, todos iguais”.

Pede-se apenas o óbvio: determinação e firmeza.

Comments

  1. graça dias says:

    A Cimeira em termos de organização,foi um exemplo internacional. O restante aguardemos !…

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