Foi bonita a festa, pá

Foto do Diários de Lisboa

diria Chico Buarque. E foi. Havia berimbaus e liras, touros e forcados, desfolhadas, megafones e homens da luta. O protesto era apartidário mas a propaganda estava por todo o lado. E o laico e pacífico eram expressões menores para um desfile encenado, numa espécie de palco pop-culture-retro, onde só faltaram as calças à boca de sino e a floral chita.

Estas manifestações ritualísticas de contra-poder, encenações de revolução, ainda que anacrónicas, são catárticas e, de certa forma, desinibem franjas da população para a intervenção. Eu sugiro que se aproveite a força anímica para começar a trabalhar, mas a sério. Para começar a revolução de dentro, aproveitando recursos, em vez de pedir mais; recusar superficialidades, em vez de exigir que um Estado impessoal e pesado as alimente.

Por que não reclamar um governo menos interventivo, e iniciar um processo de intervenção individual? Recusar o partidarismo, por exemplo, e dar força aos movimentos cívicos? Compreender que, quer o BE, quer o CDS-PP, quer o PS, o PSD ou a CDU pensam primeiro nos seus eleitores e só depois nos cidadãos; que Democracia não rima com Partidocracia? Ou que tal dar uso às palavras activismo e cidadania? E, finalmente, concluir que “manifestarmo-nos” todos os dias, ainda que isolados, também é uma forma de luta? Porque a grande conquista da democracia, quanto a mim, não é a voz da multidão (que se ouve bem), mas que uma só pessoa consiga fazer a diferença. Perceber isto é importante. E abdicar de certos luxos também.

Estas manifestações estavam repletas de gadgets da última geração: foram fotografadas, filmadas e comentadas em telemóveis, laptops e ipads. A geração à rasca é também a geração dos telemóveis de última geração. Os protestos foram combinados e geridos a partir do facebook, mas “curiosamente”, ainda há quem não saiba o que é um teclado, não tenha dinheiro para googlar, ou não possua a distante e cosmopolita e complexa consciência cultural desta juventude burguesa que vai desfilar, em roupa de marca, na avenida da Liberdade em Lisboa.

Dizem que foram cerca de 300 mil pessoas em todo o país. É significativo. Ainda assim o número de desempregados ultrapassa o número dos 500 mil. E pobres, serão 2 milhões. E esta gente, pá? (*)

(*) Esta “gente” vive à rasca há dezenas de anos, no interior, nas cidades, sem ou com pouquíssimos recursos e, se calhar (e felizmente), sem a superficialidade da juventude licenciada que reclama por um emprego – não um emprego qualquer, mas um emprego à altura. § Por outro lado extrapolações e comparações feitas a partir destas manifestações são, no mínimo ridículas. Em 1975 (até em 1985, vá!), fazia sentido o protesto, hoje não faz. E muita gente que o comparou ao 25-4, esquece-se de algo muito importante: a Revolução dos Cravos aconteceu porque uma classe o desejou. Não foi o povo de megafone que derrubou o regime. Foi um militar, politizado, que de megafone em punho exigiu a sua queda. Hoje, não existem militares interessados nessa mudança, e o tal “povo”, despolitizado, que durante 30 anos bocejou e engordou quanto passou o poder, de mão beijada, para a mão dos os políticos devia saber que é muito difícil contestar o usucapião…

Comments

  1. Diário de Lisboa says:

    Olá,
    tenho recebido algumas visitas vindas daqui, o que não é normal e vim cá espreitar.
    As fotografias que constam da reportagem feita apenas reflectem a linha editorial do blog, pois outra coisa não fazia sentido. Se o olho, ou a objectiva, fugiu para estas pessoas foi apenas por isso. Nesta manifestação estavam pessoas de todas as proveniências e muito diferentes umas das outras.Não me parece também que para protestar ou participar numa manifestação as pessoas tenham que ir rotas e cheias de fome, podemos e devemos protestar muito antes de isso nos acontecer.Podemos também protestar por solidariedade para quem está pior que nós.Posso ,ou não concordar com o geral , ou com pormenores da Manifestação, posso admitir oportunismo de alguns, excessos de outros, mas uma coisa é certa ,no geral,foi uma manifestação e um acto de cidadania muito bonito.Que consequências vai ter apenas o futuro o dirá.
    Obrigado.
    Cumprimentos.


    • “Não me parece também que para protestar ou participar numa manifestação as pessoas tenham que ir rotas e cheias de fome, podemos e devemos protestar muito antes de isso nos acontecer”. Tem toda a razão. Esta amálgama de protestantes, que protestava por tudo e, ao fim e ao cabo, por nada em concreto (sendo que precariedade é um termo demasiado vago, onde cabem inúmeros conceitos), já devia ter protestado ao longo dos últimos anos. A escolha de uma fotografia do seu blogue, não é por acaso. Esta “geração à rasca” é uma geração informada, cosmopolita, representante de uma classe ou classes familiarizadas com a moda e com as novas tecnologias. Se fosse uma manifestação SÓ de pessoas rotas e cheias de fome, creio se seria levada mais a sério. Infelizmente…

  2. Xokapic says:

    Só gostei e muito da exigência de um emprego… faz-me lembrar uma tirada que anda
    por um texto que deveria servir para muito mas.. não (começa em C e acaba em …ÃO e não é CORÃO.)

  3. José Carlos Costa says:

    A mediatização é do pior… que eu saiba (e sou “filho da madrugada”, produto dela) não foi apenas o “povo fardado” (no dizer de Eça) que fez a Revolução. Foram muitos e muitos 28 de Fevereiro, muito associativismo a criar consciências, muitas prisões, muitos desfiles do 5 de Outubro, muitas Catarinas e muitas greves em muitas EFACECs. Nem todos aqueles jovens de 12 de Março são despolitizados ou anti-politização. Nem todos são burgueses, ou ricos. Nem todos querem votar pela Net. E nem todos são jovens.


    • Não foi apenas o “Povo fardado”, mas foi preciso o “Povo fardado”. E foram precisas as prisões, e a clandestinidade. De resto, José Carlos Costa, as comparações não se podem fazer. A 24 de Abril de 1974 vivia-se uma ditadura. Hoje, podemos viver numa democracia de fim de semana, mas a liberdade de expressão de hoje canaliza a força de ontem, e empalidece-a. Toda a gente pensa que o facebook muda alguma coisa. Há grupos para derrubar o governo, para vaiar o governo, para insultar o governo. Mas o governo e a democracia (ainda) não se desmancham pela net. O que desfilou no dia 12 de Março, como disse e bem, foram burgueses, ricos, pobres, politizados e despolitizados, interessados e desinteressados. E isso é que fez daquela manifestação, um desfile de triste apatismo e incoerência.

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