Sócrates, nunca mais

A cena é exemplarmente elucidativa. Após a intervenção de Teixeira dos Santos na Assembleia da República aquando do debate do chamado PEC IV que ditaria a queda do governo, Sócrates abandona ostensivamente o hemiciclo sem ouvir o que a oposição, toda a oposição, tinha para lhe dizer. Foi o último acto parlamentar deste “tiranete da Beira”, deste vendedor de ilusões intrinsecamente mentiroso, que acrescentou agora a este “currículo”, mais uma faceta – a cobardia. Sócrates foi o primeiro “rato” a abandonar o barco, quando lhe competia ser o último. Definitivamente, Sócrates não presta. E recorrendo agora “a todos os truques para falsificar a sua responsabilidade”, este malabarista de feira foi “o homem errado no momento que podia ter sido certo”. Porque vaidoso, egocêntrico, arrogantemente convencido de um talento que, de facto, não possui, rodeou-se de apparatchiks e, “a partir de 2009, sentou no Conselho de Ministros, a mais completa colecção de jarrões de sala que alguma vez se viu em Portugal em volta de uma mesa”, conforme ironia feliz de Helena Matos.Repito, aqui e agora, uma confissão já feita. Considero-me, sempre me considerei, um homem de esquerda. Porque defendo, como já escrevi aqui e perdoem-me a explicação simplista, que ser de esquerda é ter “a capacidade de acreditar que o mundo só muda e só pode mudar quando a riqueza nele existente e criada não puder estar desigualmente distribuída”. Por isso, o meu voto foi sempre ideológico. À excepção, vejam a ironia, da primeira eleição de Sócrates. Aí votei útil e votei nele. Arrependimento quase imediato que jamais repeti nem repetirei. Porque Sócrates revelou-se um político sem regras nem princípios. “É a projecção no terreno da política dos métodos do projectista da Guarda, do licenciado da Independente e do ministro do Freeport” (José Manuel Fernandes). Sócrates é o tipo de caudilho tiranete, forte para com os fracos e acobardando-se perante os fortes. Foi ele, adoptando as palavras certeiras de Clara Ferreira Alves, em Junho de 2008, que “com os seus boys, empresários e grupos apropriaram-se do Estado em proveito próprio, traficaram influências, construíram fortunas. E passeiam a impunidade perante as privações”. Por isso é que “a questão esquerda / direita se torna irrelevante perante a confissão da rapina. Para as pessoas, não se trata de saber quem é mais de esquerda. Trata-se de saber quem vai pôr cobro à rapina, agora que a crise veio demonstrar que o dinheiro não chega para todos, e que o Estado rouba os pobres nos impostos e serviços para criar novos-ricos. Este é o estado das coisas e foi aqui que o Estado falhou: não se moralizou e desmoralizou-nos. E esta foi a grande derrota da esquerda.”

Não posso estar mais de acordo. Mais. Diria que, embora não tendo sido Sócrates quem “matou” a esquerda e, diga-se, Mário Soares é, neste aspecto, bem mais culpado, foi Sócrates o grande coveiro dessa mesma esquerda em Portugal. Porque a associação a si próprio e ao comportamento de um partido, este PS, (leia-se Partido de Sócrates) que nunca foi de esquerda. Ou, pelo menos, nunca se comportou como tal. E que acaba agora reduzido a um bando de yes-men a procurar sobreviver à custa de um homem que, politicamente, não vale nada. Porque, como escreveu José Manuel Fernandes no Público, “nele nunca é possível confiar. Não é possível selar um acordo com um aperto de mão, porque no minuto seguinte já o está a trair. Não é possível estabelecer princípios comuns, porque não tem princípios. Não é possível conversar porque só sabe gritar, uma sua especialidade parlamentar.”

Este é o retrato realista e cru de um homem que foi o pior inimigo de si próprio e que foi também, nos últimos seis anos, o primeiro-ministro de Portugal. E que, agora, vem tentar o seu próprio branqueamento por ter conduzido o país à banca rota, tornando-se num verdadeiro fugitivo, “tentando escapar pela única frincha que as circunstâncias lhe permitem”, atirando para cima dos outros as culpas que são exclusivamente suas. Com a conivência e até o apoio de um PS cada vez mais acrítico e absurdamente acéfalo. Que, como escreve Helena Matos, “teve mais que uma oportunidade para afastar Sócrates. Não o fez. Paga agora o preço dessa falta de sentido crítico. Esse preço poderá ser alto para o PS mas será, sem dúvida, muito mais caro para Portugal. A oportunidade perdida protagonizada por Sócrates foi um desastre para todos nós.” Estou plenamente de acordo.

Na história recente de Portugal, nem sempre soubemos vero que separava os homens dos rapazes. Nem distinguir o grande político do “pequeno e médio ambicioso de secretaria.” Sabemo-lo agora. Amargamente. Sócrates nunca passou de um pequeno ambicioso de secretaria. Portugal teve como primeiro-ministro um rapaz quando se exigia que tivesse um homem. Triste sina!

Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos, 30 de Março de 2011.

Comments

  1. Correcção; A criatura é oriunda de Vilar de Maçada, Alijó, é transmontano e não beirão.

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