Crónicas dos tempos de crise: o PCP, o BE e a Troika

Uma das recorrentes limitações da política portuguesa é a tentativa de tapar o sol com uma peneira. Outra, é passar incólume entre os pingos da chuva. Foi o que fizeram BE e PCP com a troika que por cá anda. No caso concreto, tentaram tapar o sol com as cartilhas que, coitadas, nem tapam o sol nem resistem à chuva.

Não é por não ser recebida por estes partidos que a troika se vai embora e é por não se quererem comprometer (por mero taticismo de imagem, vulgo marketing) que PC e BE não desempenham o papel político que deviam.

Muito mais pragmáticos, realistas, empenhados e positivos foram os sindicatos ou, por exemplo, o Observatório Permanente da Justiça do insuspeito (em relação às suas simpatias pelo FMI) Boaventura Sousa Santos. Dos primeiros espera-se pragmatismo terra-a-terra e que lutem pelos direitos dos trabalhadores que representam, a começar pelos ordenados no final da cada mês. Ora, estando a situação no ponto em que está, não estando nem estes garantidos (a começar pelo funcionalismo público) nada como ir “negociar” com os negociadores e vincar que existem linhas que não podem ser ultrapassadas. Do segundo, como intelectual reconhecido que é, espera-se visão , sentido de antecipação e marcação de terreno. Demonstrou-as, ainda que os resultados possam ser nulos.

Os partidos que dizem representar os trabalhadores, as classes operárias e desfavorecidas, as juventudes urbanas, etc., etc., decidiram não representar coisa nenhuma [Read more…]

Falar com agiotas? Nunca!

O BE e o PCP resolveram não brincar. Patrioticamente, não falam com agiotas, tal como miúdos que fazem uma birra. Dizem que só faz falta que está e acrescento que não vejo em que medida podem os interesses dos portugueses virem a ser defendidos por quem decide colocar-se de fora. Eu sei que o cheiro a eleições manda mais forte do que a racionalidade mas, neste caso, nem me parece que estes partidos venham a facturar votos com esta atitude. Demissionários já temos que baste.

Há gente que é de esquerda e não sabe

Paulo Ferreira, no seu texto de hoje, não perde a oportunidade para dar uma bicada nos partidos de esquerda, elogiando-os por se terem posto à margem da negociação com o FMI: “Merecem um sincero agradecimento. O país não tem tempo a perder – e discutir com eles é, na verdade, uma perda de tempo…”

No resto do texto, descontando a ideia de que o FMI é inevitável, Paulo Ferreira transforma-se em alguém com quem discutir será “uma perda de tempo”, chamando a atenção, imagine-se!, para os impactos negativos que as condições do empréstimo poderão ter sobre os sectores público e privado, sendo, portanto, necessário adoptar uma atitude firme. Pelo meio, ainda critica os dois maiores partidos, voltando a perder tempo.

No final do texto, Paulo Ferreira chega a ficar perigosamente parecido com um bloquista ou um comunista, ao reconhecer o seguinte: “Já sabemos de ciência certa que as loucuras dos nossos Governos e a montanha-russa das finanças e dos mercados internacionais nos roubaram, pelo menos, duas décadas de desenvolvimento sustentado e sustentável.”

Esperemos que Paulo Ferreira não releia o que escreveu: ainda pode ter a necessidade de tomar um anti-histamínico forte.

O CDS já foi negociar com o FMI

“Ainda que a margem de manobra seja pequena, tem de ser resguardada essa escolha soberana do povo português”

diz Paulo Portas, depois de uma delegação do CDS ter ido levantar a patinha ao FMI & filiais. A escolha soberana do povo português é uma belíssima frase, sobretudo se resguardada. O aviso de que vai contar tudo o que negociar a PS e PSD aproxima-se do hilariante. Durante os próximos dias CDS, PSD e PS continuarão a fingir que negoceiam, tipo condenado à morte discutindo com os carcereiros se a sua última refeição será de carne, peixe, ou simplesmente vegetariana.

Não sei o que diria o jornalista homónimo sobre estas coisas, mas gostava imeeeenso de saber, pecebe?:

Vídeo via Klepsýdra

Portugal processa Tintim: Oliveira da Figueira é um ataque ao Sócrates

No seguimento da interessante polémica em torno do processo contra a venda de “Tintim no Congo” por se considerar que se trata de uma obra racista e após a reflexão suscitada pela crónica de Manuel António Pina, penso que é de toda a justiça que o Estado português ponha Hergé em tribunal, tendo em conta que o autor belga terá usado a personagem Oliveira da Figueira para atingir o José Sócrates.

Na realidade, tirando o bigode tipicamente português, a careca lustrosa e a ausência de critério nas vestimentas, Oliveira da Figueira é, igualmente, alguém que anda pelo mundo a vender seja o que for. Se isto não é uma censura inaceitável ao Sócrates, não sei o que será.

O programa eleitoral do PSD

De acordo com o que acabo de ouvir numa rádio, a versão Coelho do programa do FMI resume-se a isto: sopa dos pobres e privatizações. Parece que o estado ainda tem empresas que dão lucro, e se dá lucro privatiza-se. Parece que o estado ainda presta serviços públicos, um verdadeiro desperdício, serviços privatizados podem sempre dar lucro a um pobre qualquer, tipo Mello, que por sua vez pode muito bem organizar uns torneios de golfe para ajudar os pobrezinhos ainda não privatizados.

Em 1917 o golfe ainda não ajudava os pobres, mas já era assim:

A comissão de festas da Cruzada de Mulheres Portuguesas, realizou uma festa (venda de flores e rifas) no Jardim Zoológico de Lisboa, a favor da Sopa para os pobres, uma obra de beneficência do Século. Nas imagens de Benoliel: na barraca da Sopa para os pobres, entre outras, Angélica Pereira da Rosa, Camila Meireles e Eugénia Magro; e na barraca da Cruzada das Mulheres Portuguesas, Gabriela Aragão Morais, Ermelinda Cordeiro e Angelina Chagas.

Citado do excelente blogue Ilustração Portuguesa, que teve de sair do blogger acusado de pornografia. Realmente, se isto não é pornografia, parece.

Freitas do Amaral votará BE ou PCP?

freitas do amaral Freitas do Amaral assevera que não votará em Sócrates, nas próximas legislativas. Aproveitou também para fazer uma revelação: o ministro Teixeira dos Santos não se demitiu, porque Sócrates não deixou. Ele, que por acaso foi ministro do mesmo Sócrates e se demitiu, sabe do que fala e o que sofreu para sair do governo socialista – a imagem é elucidativa.

Ao mesmo tempo, tece críticas a Passos Coelho, acusando:

“Estão há seis anos na oposição e ainda não apresentaram nenhum programa eleitoral”

Sabendo-se que não é homem para ‘brancos e nulos’ e sendo há muito conhecido o recíproco ódio de estimação em relação a Paulo Portas, surge-me a natural e confinada dúvida: Freitas do Amaral votará no BE ou no PCP? Pela imagem antes exibida, do veterano e inefável político, estou mais inclinado para o PCP. Mas, quem sabe se com uns banhos escoceses, massagens e mais umas terapias de SPA não o verei aos saltos ao lado dos jovens do BE. Aguardemos.

Imagem de juizdemeiatigela.blogspot.com

Dois homens, duas campanhas, um programa

A 5 de Junho os portugueses decidem que partido se coliga melhor com o FMI. O programa de governo será ditado de fora, a personalidade dos candidatos e uma ou outra marca ideológica marcarão as diferenças. Também isto explica o tom crispado da pré-campanha, os sms e as conversas por telefone ou pessoalmente.

a usura dos membros da confissão católica

usura

Usura-pintura a óleo de Van Dyck, Século XVI.

É bem conhecido o texto de Max Weber (Erfurt, 21 de Abril de 1864Munique, 14 de Junho de 1920) sobre A ética protestante e o Espírito do capitalismo, de 1905, resultante do trabalho de campo que Weber fez entre os católicos no sul do rio Elba (Alemanha). Embora de fé agnóstica, toda a sua obra está dedicada à religião. Estimando que a dedicação ao credo e à fé enriquece os protestantes, isto é, os cristãos separados da Igreja Católica Romana no Século XVI.

A sua curiosidade científica levou-o, em 1888, a morar entre católicos alemães, para entender a sua pobreza e comparar essa condição com a dos protestantes, que eram ricos ou tinham uma ética da riqueza.

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