Falemos de Portugal, da Zona Euro e dos UE dos 27

Sabe-se que o desempenho do País, a somar às influências externas, é fundamentalmente resultado da qualidade dos dirigentes  que o têm governado – em Portugal, como em qualquer lugar. Parece, todavia, útil desprezar os actos burlescos do quotidiano político, como a reacção de Nogueira Leite ao “erro tecnológico foleiro” de José Lello. De resto, ambos foram membros do XIV Governo Constitucional, de António Guterres, e eventualmente, a esta hora, já resolveram arquivar o ‘dossier’ próprio de quem se sabe merecer entre si.

Trate-se do que é relevante para os portugueses. Fale-se, pois, com seriedade de Portugal, mas igualmente da Zona Euro e da UE dos 27. Hoje, a imprensa portuguesa relata que o nosso País tem o 4.º maior défice e a 5.ª maior dívida da Zona Euro.

Sem deixar de ser verdade o anunciado, este carece de complementar e detalhada análise.  É, portanto, necessário  examinar com minúcia toda a informação hoje publicada pela Eurostat, da qual há a extrair conclusões interessantes:

  • Portugal, considerado no conjunto dos 27 Estados-membros da UE, melhora a posição para o 5.º maior défice, uma vez que o Reino Unido se intromete em 3.º lugar com  – 10,4% do PIB,  o terceiro maior da UE;
  • O total de economias deficitárias, em percentagem do PIB, é de 14 países: Irlanda, Grécia, Reino Unido, Espanha, Portugal, Polónia, Eslováquia, Letónia, Lituânia, França (estes com o mínimo de – 7%, défice da França), Luxemburgo, Finlândia, Dinamarca e Estónia; [Read more…]

Leituras recomendas ao deputado Lello e C.ia

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José Lello disse que chamar “foleiro” a Cavaco foi “mensagem involuntária” e resultou de uma “uma arreliadora deficiência tecnológica, que passou a público” (i e Público). Agora que os corporativos declararam que usar Nokia é contranatura e sabendo que o Magalhães é o computador oficial de todos os ministros (actuais e wannabe), compreende-se que o deputado ainda não esteja à vontade com o seu Blackberry. Já Nogueira Leite parece mais confortável com as coisas geek mas nota-se-lhe um défice de leitura. E assim está conseguido mais um dia de fait divers, a fugir de se discutirem os problemas e soluções para o país.

Vinte Cinco Sempre.

Os intocáveis. A Bola (c)

As comemorações do 25 de Abril são dadas a alguns histerismos. Pouco habituados a conviver com a liberdade de expressão, as televisões mostram e relatam os gritos, os punhos erguidos, as frases de luta e de intervenção. No dia a seguir regressa tudo ao normal. Os portugueses voltam a confiar na providência estatal, no voto como arma e no doce aconchego das instituições bancárias. O 25-4 é o nosso carnaval cívico, o dia da transgressão. O resto do ano podíamos viver numa alienação completa da liberdade. Mas, em Abril, ergueríamos os punhos para derrubar, ainda que efemeramente, as grilhetas da opressão.
De resto, o conceito de liberdade, em terras lusas, é coisa muito particular. Sempre que lecciono alguma disciplina relacionada com História Contemporânea ou Cidadania e pergunto aos meus alunos adolescentes o que significa, para eles, Liberdade, a resposta é, invariavelmente, semelhante: “é poder dizer e fazer aquilo que nos apetece”. Acresce a isto o facto de termos uma Constituição onde os direitos sobrepõem os deveres. Somos educados, desde crianças, a respeitar a Liberdade como um direito inalianável e sagrado, mas somos incapazes de compreender o significado de uma obrigação, seja ela individual ou colectiva. E as obrigações, numa comunidade ou num país são importantes. Nelas assenta o princípio da solidariedade, do equilíbrio e da igualdade – não da Igualdade feroz, jacobina, que a maioria dos interlocutores ejacula em longos discursos inúteis, mas a igualdade de deveres e direitos que faz uma sociedade madura. [Read more…]

Polly Styrene – RIP

Polly Styrene, aliás Marianne Joan Elliott-Said, vocalista do X-Ray Spex, não era a Siouxie, mas andava lá perto. A morte aos 53 anos. RIP.

As perversas receitas da troika

Ainda recentemente,  9 de Abril, Stiglitz escrevia aqui o seguinte:

Com efeito, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE) estão exigindo por norma a trabalhadores irlandeses e aos cidadãos a suportar o fardo de erros que foram cometidos pelos mercados financeiros internacionais. Mas é importante reconhecer que estes erros sejam, pelo menos em parte, atribuíveis à sequência da desregulamentação e das políticas de liberalização que foram defendidas pelo FMI e pelo BCE e que estas políticas proporcionaram benefícios significativos para o sector financeiro.

Sem esquecer, deixemos, por instantes, as cedências à direita de Sócrates (código do trabalho, isenção de tributação fiscal de mais-valias avultadas e privatizações em sectores estratégicos), assim como as propostas neoliberais de Coelho (redução ao mínimo do Estado Social). Olhemos o longíquo horizonte, do mundo e dos poderes dominantes. Só por incapacidade visual ou falsa fé, é concebível aceitar que este género de receitas, também divulgadas aqui (embora rapidamente desmentidas desta forma: Governo
diz que FMI não propôs trocar subsídios por certificados
),  não são sejam perversas e duras para a economia portuguesa.

Talvez fosse escusado salientar que os significativos efeitos da quebra de rendimentos do funcionalismo público, mediante a conversão do pagamento de Subsídios de Natal e de Férias em  certificados de aforro ou títulos do tesouro, se repercutirão muito negativamente no consumo privado. Com a inevitável intensificação de falências no comércio e pequena indústria, bem como a consequente quebra de receitas do Estado em  encargos sociais, impostos directos e indirectos.

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Jantar com laranjas

Nesta época de pré-campanha eleitoral, o presidente do PSD teve a estranha ideia de reunir todos os antigos dirigentes do Partido. Pretende organizar um jantar-comício num local apropriadamente denominado de Feira (Santa Maria da), servindo este repasto para atestar a “unidade” da organização. Um erro, pois a ruptura com um passado que não deixou saudades, seria uma excelente oportunidade para PPC provar que não se impressiona com os velhos esquemas e truques em que os seus antecessores – especialmente esse discreto em que já estão a pensar – foram exímios.

O problema será sério, se alguns dos convivas discursarem na mesma linha dos recadinhos que todos os dias têm feito chegar às redacções dos jornais. Deixando desconhecidos Machetes para outra oportunidade, se tirarem Marcelo e Mendes do micro-ondas, o repasto será aquilo que se imagina. Sabe-se o que têm dito e feito. Manuela Ferreira Leite enganar-se-á no tempo dos verbos, mas talvez sentir-se-á envergonhada para chegar à provocação e assim, arranjará uma desculpa, ficando em casa a tricotar umas meias de lã para um dos netos. Todos ainda se lembram das “excelentes e leais” relações que Marcelo, Santana – o tal 1º Ministro “dissolvido” por uma espécie de Bozo ex-ruivo – , Leite, Mendes ou Meneses (já não me lembro dos outros) cultivaram entre si.

 Só falta o Sr. Pacheco Pereira como escanção, pois sonhando-se com a enigmática presença do Sr. Cavaco Silva, urge alguém com coragem para testar o vinho, não vá algum malandro dar uso ao seu anel de câmara falsa.

25 de Abril, balanço final das comemorações

-Vasco Lourenço disse esta frase:

a perda de confiança nos dirigentes políticos é bem mais perniciosa do que a dívida pública.

-Os cravos vermelhos estavam a um euro cada.

-A garrafa de água de litro e meio estava a dois euros.

Apresentação de livro: a PIDE contada por quem a sentiu

Hoje, na Universidade Católica do Porto, às 18 horas, será apresentado o livro “Gente comum – uma história da PIDE”. A autora, Aurora Rodrigues, conta a sua experiência como presa política, com realce para as terríveis torturas a que foi sujeita. Neste 26 de Abril em que, por vezes, se quer esquecer ou branquear o 24, é importante que se leia e ouça o testemunho, na primeira pessoa, de quem viveu tempos que se deseja que sejam cada vez mais velhos, mas que nunca poderão ter sido bons.

Uma reunião que não aconteceu, nem podia ter acontecido

O movimento Mayday tinha anunciado uma reunião com a família Soprano. A bota não batia com a perdigota. Agora está tudo explicado, demonstrando que a ironia é uma arma:

O MayDay Lisboa foi convocado pela troika que está em Portugal para conversações sobre a precariedade laboral, pelo que nos apresentámos esta manhã com uma pequena comissão de representantes do movimento.

O MayDay Lisboa ficou bastante surpreendido com a atitude da troika em relação às questões laborais, tendo havido um reconhecimento por parte da mesma que a injustiça a nível do trabalho se reflecte directamente na vida das pessoas.

Assim sendo a troika garantiu ao MayDay que vai encetar uma luta dura ao trabalho ilegal e precário, especialmente sob a forma dos falsos recibos verdes, contratos temporários contínuos e estágios não remunerados. [Read more…]

E o Comboio, Pá?…

“CAMARADAS PÁ!

Em jeito de homenagem aos Homens da Luta pá! Os Pantomineiros criaram os PANTOMINEIROS DA LUTA e juntaram-se ao movimento pela reabertura da Linha do Douro do Pocinho à Barca D’Alva pá!”E o Povo pá?! E o Povo pá?! E o Povo pá?! Quer o Comboio nesta linha de novo pá!”

Lello, o Tiririca do PS

O homem chamou-lhe deficiência tecnológica. Eu concordo parcialmente. É deficiência, sim, mas não tecnológica.

Segredos de um casamento real

A Royal Romp estreia dia 30 num canal x perto de si, e pretende antecipar o “casamento real” que por estes dias ocorre num ilhéu da Europa, e que vai unir um tal de William com Kate Middleton. Este vídeo promocional é soft, não se assustem.

Parece que a “família real” portuguesa não foi convidada.  A mais velha aliança do mundo (eufemismo para os vários séculos em que fomos methuinicamente uma semi-colónia britânica) já não é o que era.

Enxamear a Administração Pública

enxamear a administração pública

“Não vamos para o Governo para enxamear a Administração Pública de quadros do PSD e não vamos meter nos gabinetes dos ministros e dos secretários de Estado um exército de gente que constitua administração paralela àquela que já existe no Estado”, Passos Coelho, citado pelo jornal i

O mistério das 3 PPP – II

Apesar de termos estado numas mini-férias,  o INE não parou, demonstrando simultaneamente um grande sentido patriótico e um ainda maior sentido de oportunidade pela criteriosa escolha do momento do anúncio. Como se sabe, tal não poderia ter esperado por hoje, ou défice iria muito além dos anunciados 9.1%.

O que eu não percebo é que, apesar do fim-de-semana prolongado, foram abundantes as notícias sobre o caso mas continuamos sem saber quais são esses três contratos (“dois dos quais correspondendo a contratos renegociados de ex-SCUT”, diz o INE).

Não sou jornalista, logo talvez não seja a pessoa mais indicada para opinar, mas parece-me que este aspecto tem muito mais interesse jornalístico do que o desviar de atenções lançados pelo útil Lello com as suas declarações foleiras.

Adenda 1: confirma-se que o caso Lello é para continuar a desviar atenções. Tristes.

Adenda 2: Graças a um comentário neste post, deixo a informação que me havia escapado sobre quais são esses contratos.

Os investimentos em causa são, por um lado, as concessões Scut do Norte Litoral (concessão Euroscut/Ferrovial, com investimento de 318 milhões de euros) e da Costa de Prata (concessão Ascendi/Mota Engil, com investimento de 320 milhões), em que entretanto foram introduzidas portagens e onde se registam elevados volumes de tráfego. Por outro lado, está também a concessão do Túnel do Marão, uma auto-estrada com cerca de 30 km de extensão, situada entre Amarante e Vila Real e que inclui um túnel de 5,6 km, que será o maior túnel rodoviário nacional. Esta obra, orçada em cerca de 350 milhões de euros e concessionada à Somague, apenas deverá estar concluída entre o terceiro e o quarto trimestre de 2012.» Público

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