heróis chilenos. el roto chileno

el roto chileno

Composto em 1839, música de José Zapiola Cortés e letra de Ramón Rengifo Cárdenas, foi considerado até a segunda metade do século XX, praticamente um segundo hino nacional no Chile, pela sua popularidade. 

Heroínas chilenas, heróis chilenos, são a temática que tenho tratado nestes dias. Mencionei um herói, de quem raramente como tal, excepto nos romances ou em histórias da vida real, nos livros de História, ou entre os proprietários de haciendas: o inquilino. O dicionário de la Real Academia de la Lengua Española, DRAE, fornece três definições: Persona que ha tomado una casa o parte de ella en alquiler para habitarla; Arrendatário, comummente de finca urbana; No Chile: Pessoa a viver numa finca rústica, recebe habitação e um troço de terra a ser trabalhado pela sua família, para vender o produto na féria, con la obligación de trabajar en el mismo campo en beneficio del propietario.

O conceito de inquilino, tenho-o também definido como uma metáfora do conceito escravo, como tenho definido nos meus ensaios sobre os heróis chilenos. Escravo, porque não é pago, o dinheiro o obtém das chácaras os canteiros  do campo, na vida rural, em terras exploradas pela família enquanto o chefe de casa trabalha as terras do proprietário da hacienda ou finca agrícola, que usa para semear bens que no mercado são mercadorias, como o trigo, a beterraba e outros produtos que rendem dinheiro, após da sua venda nos mercados nacionais e internacionais. É uma transacção de bens por dinheiro, outros bens que rendem lucro com mais-valia, que passam a ser apenas do proprietário da hacienda e permite-lhe manter a terra e os inquilinos, sustentar a sua família e possuir outros bens na cidade ou em outros sítios geográficos do país, mais espaçosos para semear vides e fabricar vinho que, exportado, criam a sua riqueza e, pelos impostos pagos, a riqueza da nação, como defini no ensaio dos heróis chilenos. O inquilino é praticamente uma propriedade do patrão como se denomina a quem possui terra para explorar e lucrar.

Esta minha afirmação está retirada dos historiadores do Chile, bem como da minha própria experiencia pessoal de família com terra para semear, criar animais ou usar os recursos naturais, como o boldo, que, tratado por meios químicos, passam a ser uma medicina: Arbusto de la familia de las Monimiáceas, originario de Chile, de hojas siempre verdes, flores blancas en racimos cortos y fruto comestible. La infusión de sus hojas es muy aromática y de uso medicinal. É definido na língua luso portuguesa, como Árvore monimiácea cujas raízes têm aplicação medicinal. Plural: boldos |ô|. Esta árvore é também vendida pelos inquilinos nas férias e mercados, apenas que em pouca quantidade, por o patrão quem exporta toneladas de boldo ou bolbo como também se denomina, para países estrangeiros vendidas mais tarde coo medicinas nas farmácias.

Este parágrafo é apenas um exemplo da heróica forma de viver dos inquilinos, conformados com os rastros que ficam do que vende o proprietário eminente nos mercados internacionais, enquanto ele vende nas feiras locais, a través dos ladrões intermediários conchenchos, conceito usado por mim num livro escrito no Chile em 1971, na época que visitei o país para ver como era um país democrata governado por um Presidente Socialista Marxista. O texto denomina-se El paro de los conchenchos, editado pelo nosso Centro de Estúdios Agrários y Campesinos – CEAC, da Pontifícia Universidade do Chile, sede de Talca. O livro foi a fogueira quando mataram ao Presidente e eu tive que regressar a minha Universidade de Cambridge, após campo de concentração e após os inquilinos, que tinham tomado posse das terras, as tiveram que devolver aos patrões, enquanto eles eram fuzilados, aprisionados ou exilados, como eu.

Os inquilinos tinham tido a sua experiência na guerra que a confederação Peruana-boliviana, declarou guerra ao Chile em 1939. Se o inquilino já existia, na guerra nasceu outra imagem para o inquilino: a o do Roto Chileno

O Roto Chileno é a imagem dos inquilinos a tomar por assalto o Morro de Arica, esse rochedo que, se for ultrapassado, penetravam em território peruano, entravam a vila de Yungay e ganhavam a guerra, como aconteceu. A força de baioneta incrustadas na rocha, os inquilinos tomaram o rochedo, sob as ordenes do General Baquedano, mas en quanto mais subiam esses 600 metros de altitude, pelo lado chileno, a suas roupas iam ficando rotas, partidas, o corpo cheio de feridas, até o ponto que entre eles comentavam estás todo roto! O orgulhoso general, ao ver esse esforço, ideia de inquilinos obstinados, os denomina, todo orgulhoso pelo esforço deles, pelas suas ideias e o seu esforço: Mis rotos!

Assim foi que nasceu a ideia e conceito do Roto Chileno, comemorada todos os anos a 20 de Janeiro, data em que o impensável tinha acontecido: escalar o morro uma rocha gigantesca, com sangue, suor e lágrimas, mas pouco falecido pela argúcia dos inquilinos. A batalha parecia impossível, mas para os inquilinos, precisava-se para todo de uma solução, como esta da batalha de Yungay.  Que tem o seu antecedente e a sua história.

 Em 1839, no sul do sul do mundo ocidental, livrava-se uma guerra entre o Chile e a recentemente criada Confederação Peru-Boliviana. Países recentemente libertados da Monarquia Espanhola. O Chile, em 1818, ajudou o Peru, e em 1820, o Peru a Bolívia. Ganharam a sua autonomia. Do Peru, foi expulso o Vice-rei espanhol e o governador da Bolívia, o Marechal Andrés de Santa Cruz, tomou o mando das duas nações. As nascentes repúblicas sul-americanas enfrentaram um inevitável período de anarquia política até lograr o necessário consenso cidadão para se consolidarem como nações.  A criação da Confederação Peru-Boliviana,  outorgou a Santa Cruz o poder político  e económico suficiente para projectar-se superiormente contra Chile. O Ditador desenvolveu sérias interferências às actividades comerciais chilenas, violando tratados existentes, em quanto buscava fazer cair ao Governo do General José Joaquín Prieto Vial com variadas tácticas de infiltração política, os chilenos não aceitaram, rebelaram-se contra a confederação e a  marcha forçada, cruzaram 3000 quilómetros de território chileno para atacar a quem pretendia derrubar o seu Governo. O ponto nevrálgico para entrar em territórios da Confederação, era assaltar o Morro de Arica, (ver imagem abaixo), um monte de pedra, guardião das fronteiras dos três países, que tinha que ser ultrapassado.

 
morro de Africa

Parecia quase impossível. No entanto, a 20 de Janeiro de 1839, o exército chileno, com facas e muito aguardente, trepou esses 600 metros de altitude, com 56 km de comprimento e apenas 8 km de largura máxima de 914 metros a maior elevação, debaixo do ataque a tiros dos soldados da Confederação. Metralha impossível de atingir aos que escalavam o morro, porque a pendente alta e plana desviava a espingarda para o vazio ou sobre as tropas que protegiam os atacantes e disparavam contra o inimigo. A aguardente, bebida alcoólica do Chile de  40º, sedava, dava forças e embebedava, convertendo os assaltantes em feras sem medo. O calor era insuportável, o assalto ocorreu ao entardecer, os atacantes em silêncio surpreenderam por trás o exército da Confederação, ganhando o morro, sito na vila de Yungay,  na noite de 20 de Janeiro. Comando pelo General Manuel Bulnes, a vitória deve-se aos notáveis dotes militares do comandante e à admirável capacidade guerreira dos soldados chilenos, que tornaram possível a entrada nas terras confederadas, pelo assalto dos cem soldados, todos rotos (rasgados e com várias escoriações corporais)  pela escalada. Foi assim que nasceu a palavra Roto Chileno e a sua comemoração a 20 de Janeiro de cada ano, decretada pelo Allende do Século XIX, o Presidente Liberal José Manuel Balmaceda Fernández,  a 7 de Outubro de 1888, que, para homenagear o Roto Chileno, pela sua participação  no triunfo contra a Confederação Peru-Boliviana, mandou erigir uma estatua na Praça de Yungay em Santiago do Chile. É, pois, nesta praça, que desde o dia em que se decretou esta festa, todas os anos se continua a comemorar o nome do Roto Chileno e o seu contributo fundamental para a manutenção da Independência nacional.

No Chile entende-se por “roto” a toda pessoa de origem humilde que, em geral não sabe comportar-se em sociedade, sendo este uso depreciativo em muitas ocasiões. E o Zé Povinho? Narrado ontem, o Zé Povinho é o Roto Chileno, com uma grande diferença. O Zé Povinho é uma metáfora nacional criada pelos burgueses do seu tempo para especular sobre o povo e considerar a personagem como um parvo que nem falar sabe. Ou simples, o Zé Povinho é uma figura cheia de contradições, tal como foi referido por João Medina em “O Zé Povinho, caricatura do «Homo Lusitanus»”: Mas se ele é paciente, crédulo, submisso, humilde, manso, apático, indiferente, abúlico, céptico, desconfiado, descrente e solitário, também não deixa por isso de nos aparecer, em constante contradição consigo mesmo, simultaneamente capaz de se mostrar incrédulo, revoltado, resmungão, insolente, furioso, sensível, compassivo, arisco, activo, solidário, convivente. Pensa-se dele com estes sinónimos: gentalha fofoqueiro desgraçado povo populares gente simples medíocre.

O Roto Chileno é de cepa diferente: nem parvo, nem se engana ao falar. Pelo contrário, a sua inteligência é grande e arguta e sabe manipular as situações mais difíceis para o seu bem-estar Os dois, com todo, são louvores entregues ao povo para os manter calmos e destemidos nas piores situações financeiras que acontecem quando não existe no país a arte de governar. O Zé Povinho é desenhado como parvo, o Roto Chileno, é considerado como um ser de grande habilidade.

Há outra interpretação: Durante a conquista espanhola Diego de Almagro regressava do sul do continente pelo deserto de Atacama en 1537. A travessia foi desastrosa. O estado em que regressou Almagro e os seus seguidores era tão pesado, que desde esse dia foram denominados os «rotos de Chile» a qualquer um que viesse dessas terras.

No entanto, se o Roto Chileno é resultado de factos de guerra e da sua força para batalhar, é apenas uma metáfora, como o Zé Povinho. Os verdadeiros Rotos e Zé Povinhos, são os pobres da nação, como esta imagem nos mostra:

Zé Povinho

Em minha opinião, as metáforas acima referidas, devem ser rejeitadas por ofenderem pessoas da nossa Soberania