A resiliência e os seus heróis

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Pensamos sempre que a vida é dura, difícil de ultrapassar essa dor que as relações sociais nos causam. Mais uma vez, cito a minha amiga e colega na ciência que aprendeu comigo e desenvolveu pela sua conta. Viver não custa, o que custa é saber viver, diz Ana Vieira da Silva.

Nem que tivesse lido o texto ou os textos de Boris Cyrulnik (Burdeos, 26 de Júlio de 1937), um neurólogo, psiquiatra, psicanalista e etólogo francês, que retirou da ciência da física o conceito de resiliência para ser usado no saber dos sentimentos dos seres humanos.

Os metais têm essa capacidade de esticar com o calor, o que poderia ser comparado à dor entre os seres humanos, e de encolher com o frio, metáfora da paz e serenidade usadas para esse aprender a viver. Boris Cyrulnik, etólogo, analista, psicólogo, vai ao ponto de definir entre os seus numerosos textos, seminários, análises, o conceito de resiliência como essa inaudita capacidade de construção humana.

  1. De facto, viver pode ser uma traição, e pode haver pessoas traidoras que, sem pensar nos sentimentos dos outros, usam os seus próprios para agir como lhes praz. Exemplos desse comportamento, existem pelo mundo aos milhares. Apenas temos de reparar na forma como vivemos hoje em dia e como vivíamos, nós, a Grécia, a Espanha, a Irlanda, temos de imediato um bom exemplo para entender resiliência. Mas, não é destes casos que desejo falar neste texto, no entanto e embora seja o caso mais próximo de nós para demonstrar como nos defendemos das fatalidades da vida. Não há dinheiro para viver como sabemos e estávamos habituados, porém reduzimos as nossas despesas e passamos a consumir um bom almoço e, mais tarde, apenas um lanche de chá com pão. Se a fome nos acossa, aprendemos a suportar essa falta de comida. Que é devido a uma má gestão de quem nos governa, não para nos zangarmos com eles, é que a capacidade inaudita de construção humana vai acontecer, como referi antes, retirado do seu texto Os vilões pequenos patinhos, editora Odile Jacob, Paris, Janeiro de 2001, com versão portuguesa do Instituto Piaget de Novembro do mesmo ano. Texto que, em síntese, diz: fazer nascer um filho não é suficiente, explica-nos Boris Cyrulnik nesta sua nova obra sobre o tema da resiliência: dá-lo ao mundo colocando à sua volta os tutores do desenvolvimento. Isto começa muito antes do nascimento, através da mãe do líquido amniótico da mãe, do qual se alimenta e navega que banham o embrião uma determinada atmosfera psíquica. Apenas um terço das gravidezes se realizam em condições sãs. As outras são marcadas por problemas emocionais, uma patologia associada ou por angústias que criam um meio sensorial, mais ou menos perturbado, citação retirada da introdução do livro, resumida na capa do mesmo, orelha de trás. Porque os patinhos feios eram vilões ou feios? Por existir entre eles uma entidade diferente, preta, sendo eles louros, logo diferentes, com que não a desejavam perto estar. Os meses passaram e o patinho feio passou a ser um cisne grande, majestoso, de penas pretas brilhantes que nadava com calma entre os que os tinham desprezado. O patinho feio teve a força de aceitar o menosprezo dos vilões e até lhes ensinou como pescar, comer pão molhado em água e ser o seu amigo. Uma vez nascido, o bebé, hipótese do autor que usa aos patos e ao cisne negro como metáfora etóloga, para provar a hipótese central, citada duplamente antes desta linha, segundo provoque prazer ou não no adulto, vai desencadear nestas reacções diferentes que, por sua vez, vão realizar ou não o seu desenvolvimento. A história está retirada de um conto de Hans Christian Andersen (Odense, 2 de Abril de 1805Copenhague, 4 de Agosto de 1875), que escrevia para esquecer o menosprezo dos seus vizinhos e familiares, por ser feio e pobre, de corpo mal formado, o patinho feio que virou cisne para as crianças. Soube suportar esse menosprezo e escrever os contos e peças de teatro que encantavam às crianças. Fonte: ANDERSEN, Hans Christian – Uma visita em Portugal em 1866. 4.ª ed. [S.l.]: Gailivro, 2003. p. 54.

O afecto é de tal modo vital que, quando estamos privados dele, ligamo-nos intensamente a todos os acontecimentos que façam reaparecer em nós um rasgo de vida, seja a que preço for – mesmo em detrimento da nossa integridade física e moral. Aqueles que se recusam a permanecer prisioneiros de uma fenda traumática têm de libertara-se dela para voltar à vida e, frequentemente, torná-la exclusivamente um instrumento para construir a felicidade. Retirado do livro Les murmures dês fantômes, Odile Jacob, 2003, versão luso portuguesa, 2003: O murmúrio dos fantasmas, editado por Rolo & filhos Artes gráficas Ltda, Lisboa.

 Resiliência ou resiliência é um conceito oriundo da física, que se refere à propriedade de que são dotados alguns materiais, de acumular energia quando exigidos ou submetidos a stress sem ocorrer ruptura. Após a tensão cessar poderá ou não haver uma deformação residual causada pela histerese do material – como um elástico ou uma vara de salto em altura, que verga-se até um certo limite sem se quebrar e depois retorna à forma original dissipando a energia acumulada e lançando o atleta para o alto.

É medida em percentual da energia devolvida após a deformação. Onde 0% indica que o material sofre deformações exclusivamente plásticas (plasticidade) e 100% exclusivamente elásticas (elasticidade).

O cientista inglês Thomas Young foi um dos primeiros a usar o termo. Tudo aconteceu quando estudava a relação entre a tensão e a deformação de barras metálicas, em 1807. Resiliência para a física é, portanto, a capacidade de um material voltar ao seu estado normal depois de ter sofrido tensão.

A resiliência dos materiais, como o aço, é factor determinante para os profissionais de engenharia em todo mundo quando trata-se de estruturas de grande porte como: Ponte Rio-Niterói e a Cidade Administrativa de Minas Gerais e outras inúmeras estruturas construídas pelo homem. Este termo também tem origens na Economia da Natureza ou Ecologia. Pode ser definido como a capacidade de recuperação de um ambiente frente a um impacto, como por exemplo, uma queimada. Logo, o bioma cerrado costuma apresentar uma grande capacidade de resiliência após uma queimada.

Actualmente resiliência é utilizado no mundo dos negócios para caracterizar pessoas que têm a capacidade de retornar ao seu equilíbrio emocional após sofrer grandes pressões ou stress, ou seja, são dotadas de habilidades que lhes permitem lidar com problemas sob pressão ou stress mantendo o equilíbrio.

Resiliência é a capacidade de saber andar três passos em frente e um para trás, sem se amedrontar O próprio Cyrulnik aprendeu esta força de reconstruir a vida, no dia em que na França toda a sua família era levada pelos nazis para serem concentrados num campo, mortos e queimados. Tinha ele 9 anos e uma enfermeira escondera-o na sua camioneta, escapando assim da morte.

Nasceu no seio duma família judia. O seu pai era ebanista, e tomara parte na legião de resistência. Durante a Ocupação, os seus pais o confiaram a una pensão para evitar ser preso pelos alemães, pensão que o levou à Assistência Pública francesa. Posteriormente, foi adoptado por uma professora da infância bordalesa, Marguerite Ferge, quem o escondera na sua casa em Rue Adrien Baysselance. Mas, durante una rusga  policial, foi levado pela polícia com outros judeus à sinagoga de Bordéus. Escondeu-se em todos os sítios, sem temor, até nas casas de banho, evitando assim outras rusgas. A polícia conduzia aos judeus à estação de Saint Jean para serem deportados. Um dia, estava fora da sinagoga, uma enfermeira o levara oculto na sua camioneta. A seguir começou a trabalhar como empregado rural com nome falso, Jean Laborde, pouco antes da Liberação da França. Os seus pais foram deportados, falecendo durante a Segunda Guerra Mundial. Trás a contenda, foi acolhido por uma tia em Paris. Foram todas estas experiências que o motivaram a estudar psiquiatria.

Foi assim que a resiliência passou da teoria física para ser parte da ciência da psicologia, assim com, o conceito resiliência, central na psicanálise.

 Desde 1996 tem sido o Director de estudos da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Sud-Toulon Var e responsável da equipa de investigações em etologia clínica do Hospital de Toulon. Os seus trabalhos têm-lhe permitido desenvolver o conceito de Resiliência, como um renascer do sofrimento. Aportara também precisões ao termo oximoros, mas a sua contribuição na ciência reside no seu compromisso: Cyrulnik aborda a etologia como una encruzilhada de disciplinas. É membro do patronato da Coordination française pour la Decennie da cultura, da paz e não-violência.

Desde 1998 é também presidente do Centre National de Création et de diffusion culturelles de Châteauvallon e membro directivo da oficina en França, coordenadora do programa Decénio das Nações Unidas.

O seu saber tem sido a base da minha criação das especialidades Antropologia da Educação e de Etnopsicologia da Infância, que ainda gostava de ensinar. Mas, como não me é permitido, pelos menos escrevo estes ensaios…

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