Etnopsicologia da infância e observação participante

malinowski

Malinowski na Kiriwina

 

São dois grupos de conceitos que precisam de uma explicação. Parece ser o meu hábito começar pelo fim. Em 1986, editado e coordenado por Augusto Santos Silva e Fernando Madureira Pinto, publicamos um livro, escritos por vários de nós, das Universidades do Porto, Clássica de Lisboa, Coimbra, UTAD, Nova de Lisboa e o ISCTE, um texto de 315 páginas, intitulado Metodologia das Ciências Sociais, Afrontamento, Porto.

Éramos poucos nesses dias e, de todos nós, apenas dois ou três éramos doutores de diversas especialidades das Ciências Sociais. Mal falava eu português, uma língua difícil, mal conhecia os hábitos e costumes lusos, mas este livro, fixado para mim por António Firmino da Costa, com santa paciência por causa do luso-galego dominar a minha fala e escrita. Uma Galiza onde morei dois anos com a minha família nos anos setenta para pesquisar para a minha Universidade de Cambridge, Reino Unido. Trazia comigo o saber antropológico de Jack Goody e a sua forma de investigar denominada observação participante, metodologia mal conhecida e Portugal. A ciência era denominada Etnologia e praticada por poucos, começando pelo fundador, Jorge Dias, que chamávamos António por ser esse o seu nome, e a sua mulher Margot, a quem conhecera na Alemanha, onde dava aulas de Português. Escreveu um dia ao meu eterno amigo Ernesto Veiga da Oliveira, uma epístola em que dizia que o que eles faziam em Portugal, era praticar a ciência da Antropologia Social, que requeria estar com as pessoas analisadas, morar com elas, habitar nas suas casas, partilhar a sua comida e anotar todo o que for o que eles faziam, especialmente a sua história local, como ele fez na aldeia de Vilarinho da Furna ao tornar a Portugal por causa da segunda grade guerra mundial do Século XX. Foi e habitou com os membros da aldeia, hoje alagada para construir uma represa de água. Foi o primeiro livro Etnográfico que aparecia em Portugal. Havia outros, como os de José Leite de Vasconcelos que, com o seu assistente e velho amigo meu, Manuel Viegas Guerreiro, especialmente a Revista Lusitana, que publicava as formas de vida, costume, histórias, contos e canções que o Doutor Leite angariava de professores de escolas primárias e de amigos dele, enviando cartas para solicitar esse material.

O Doutor. Leite, como era denominado, nunca fizera trabalho de campo. A sua recolecção era por escrito. Ainda guardo comigo parte do espólio de Leite, oferecido a mim pelo Manuel Viegas, com a condição de analisar as historias recolhido pelo correio, e publicar um livro. O espólio ainda está na minha biblioteca nenhum dos meus estudantes de Mestrado e Doutoramento, tem aceitado o pedido. Falta-lhes o que eu lhes tinha ensinado: o contexto do texto para entender a escrita. O Doutor José Leite era um académico e de alta burguesia. Contava-me Manuel que não gostava misturar-se com o povo.

José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo, mais conhecido por Leite de Vasconcelos (Ucanha, 7 de Julho de 1858Lisboa, 17 de Maio de 1941), foi um linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo português. Desde menino Leite de Vasconcelos era atento ao ambiente em que vivia e anotava em pequenos cadernos tudo que lhe chamava a atenção. Aos dezoito anos foi para o Porto continuar seus estudos, licenciando-se em Ciências Naturais (1881) e, em 1886, em Medicina, na Escola Médico-Cirúrgica. Todavia só exerceu o novo ofício por um ano, em 1887, no Cadaval.

Sua tese de licenciatura, Evolução da linguagem (1886), já demonstrava seu grande interesse pelas letras, que por fim viriam a ocupar toda sua longa vida. As ciências exactas deixaram-lhe o estilo investigativo rigoroso e exaustivo, seja na filologia, seja na arqueologia ou na etnografia, disciplinas em que mais tarde tornar-se-ia uma referência.

Fundou a Revista Lusitana em 1889, o Arqueólogo Português em 1895 e o Museu Etnológico de Belém em 1893.

Doutorou-se na Universidade de Paris, com Esquisse d’une dialectologie portugaise (1901), o primeiro importante compêndio da diatopia do português (depois continuado e melhorado por Manuel de Paiva Boléo e Luís Lindley Cintra). Foi também pioneiro no estudo da onomástica portuguesa com a obra Antroponímia Portuguesa.

Tendo leccionado Numismática e Filologia Portuguesa na Biblioteca Nacional, onde era conservador desde 1887, chegou a professor do ensino superior em 1911, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Faleceu aos 82 anos, deixando em testamento ao Museu Nacional de Arqueologia, parte do seu espólio científico e literário, incluindo uma biblioteca com cerca de oito mil títulos, para além de manuscritos, correspondência, gravuras e fotografias. Fonte: Biografia, a que se pode aceder em http://cvc.instituto-camoes.pt/hlp/biografias/jlvasconcelos.html

Este é um dos problemas que um investigador sempre tem no seu trabalho de observação participante: ou há dados que são ocultos ou que se sabem por outras pessoas, como eu soube do Doutor Leite pelo ultra discreto Manuel Viegas. Nunca se casou. Dedicou toda a sua vida aos estudos, vivendo só com uma criada, um gato e os seus manuscritos.

Caso diferente ao do seu discípulo, Manuel Viegas Guerreiro. Guerreiro, Manuel Viegas (N. Querença-Loulé, 1912; ob. Carnaxide-Oeiras, 1997). Docente: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Área: Etnologia. Aluno: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Curso: Curso de Filologia Clássica. Doutor: Universidade de Lisboa. Discípulo de: Vasconcelos, José Leite de;Abreu, Diogo;Ferreira, Francisco Melo;Magalhães, Joaquim Romero. Colabora com: Dias, António Jorge. Profissão: Etnólogo; Ensaísta. Casado e com filhos.

Esta forma de bisbilhotar na vida dos outros, acaba por ser o que denominamos observação participante. A importância desta observação reside no facto de entender o pensamento da outra pessoa que observamos e que narra para nós a história da sua vida, estando certo que essa história não será narrada a outros. Mas, se ganhamos a confiança desse outro, acabamos por ser os heróis e que se confia e até é solicitado que o seu nome e o da sua família apareçam no livro que estamos a escrever. Acaba por ser um orgulho para os observados, o facto de ver os seus nomes em letras de molde. Para isto poder acontecer, sempre recomendo que não se transfira a história pessoal da pessoa com quem falamos, a outros. É, como digo no meu livro de 1986, citado antes, a prova de confiança do entrevistado com o investigador. Essas pessoas contam-nos a história dos vizinhos, a seguir vão perguntar a esse vizinho se o Doutor ter-lhe-ia contado alguma história deles. Sempre era um não. As vidas privadas são de cada um e não se transferem a outros. É o segredo do trabalho de observação participante como também é nunca perguntar nada sobre ninguém até que quem fala connosco, como sabe que estamos a organizar a história do sítio que estudamos, a aldeia ou lugar em que moram, têm o orgulho de detalhar a importância que a sua família tem tido na aldeia, seja invento ou não. Temos formas de saber, pelos registos da paróquia e do Registo Civil. São os livros da sabedoria do que acontece ou aconteceu também no passado, as pessoas que analisamos.

Finalmente, mas muito importante, é ir aos trabalhos de lavoura com eles, as horas que o grupo que acompanhamos, vá. E ficar com eles, usando a forquilha, o esgaço, o arado, a pá, a fosse para cortar o mato com uma catana, lâmina de aço larga para entrar aos sítios mais difíceis das belgas o de um campo, se tem mais hectares que a belga, sempre pequena e reduzida. São os instrumentos que, usados por um senhor doutor, fazem-nos pessoas de confiança. Nós é que ficamos partidos durante semanas, com u corpo pouco habituado a estes trabalhos. A ironia é a deles, que puxam por nós para provar se somos pessoas interessadas nas suas histórias e trabalhos e das suas histórias pessoais.

De facto, o meu interesse era as pessoas, as suas histórias, mas, principalmente, as suas relações com as crianças. Foi assim que inventei, pesquisei e criei uma nova alternativa científica de pesquisa e metodologia para o entendimento do pensamento humano: a etnopsicologia da infância. Por outras palavras, o que as crianças sentem e pensam sobre os adultos. Escrevi três textos como monografias, que podem ser encontrados no repositório da biblioteca do ISCTE-IUL o no internacional. Na nossa Universidade: http://www.rcaap.pt No internacional: http://www.rcaap.pt

As temáticas são as monografias publicadas pela Universidade de Salamanca e do Rio: A ilusão de sermos pais. Lições de etnopsicologia da Infância; Mis Camélias http://www.monografias.com/trabajos917/camelias-etnopsicologia-infancia/camelias-etnopsicologia-infancia.shtml; O saber sexual das crianças: http://br.monografias.com/trabalhos-pdf/saber-criancas-psicanalise-sexualidade/saber-criancas-psicanalise-sexualidade.shtml; O grupo doméstico ou a construção conjuntural da reprodução social, entre outros.

A etnopsicologia da infância existia apenas no Collége de France em Paris, Universidade na que ensinava com Pierre Bourdieu, Maurice Godelier e Claude Levi-Strauss, com quem aprendi semiologia. Ensinava também Georges Devereux, com trabalho de campo entre os nativos Mohave dos Estados Unidos, apenas que ele dava aulas de etnopsiquiatria, retiradas do saber de psiquiatria da etnia mencionada. Normalmente, antes de escrever um texto, vivemos com os nossos psicoanalisados um ano completo, para depois seguir a história dos grupos sociais ao longo de vários anos, como tenho feito com Vila Ruiva, vila entre Nelas e Mangualde, Vilatuxe em Pontevedra, Galiza, e o clã Picunche de Talca, Chile, Cordilheira dos Andes. Georges Devereux ficou tão feliz de entender a psicanálise Mohave, que ficou três anos sem sair das ruças. Um dos seus textos de 919 páginas, com o título de Ethno-psiquiatries dês Indiens Mohaves, 1961, Department Communication de la Universidade Smithon. Foi tanto o seu prazer de entender a forma em que as crianças eram tratadas, que solicitou ser enterrado entre eles quando a sua hora chegara, o que aconteceu e 1985, comigo já em Portugal.

Por possuir a sua obra completa e assistir aos seus seminários, após de ter organizado Antropologia da Educação, organizei Etnopsicologia da Infância.

Tenho defendido em vários dos meus textos, que todo o grupo social tem duas culturas: a do adulto e a da infância. O pensamento do adulto está formado, desenvolvido e sabe que ao falar ou agir, define uma interacção. O pensamento da infância está em formação e explora as várias alternativas para entender a realidade da mencionada interacção, da qual faz parte. O pensamento e agir da infância, é uma experimentação permanente tendo em vista a definição dos seus próprios conceitos e o entendimento dos usados na interacção. Especialmente, por existir uma contradição na vida adulta, entre o que se ouve que deve ser feito e o que se vê fazer. Estas são a hipótese que trato nas sessões: Preparar o discente na apreensão do comportamento infantil, para entender que está em formação. Essa formação, normalmente traz desgosto, é tratada como doença ou com desespero da parte do adulto. Especialmente, no processo de ensino – aprendizagem, que será a base substantiva da nossa análise, processo que começa no lar, continua entre pares, parentes, vizinhos e amigos, bem como com as materialidades, preparadas pelo adulto, que a infância deve enfrentar: comércio, escola, meios de comunicação, acontecer histórico e, especialmente, mágoas e alegrias, emotividades presentes no dia-a-dia de todos e que a infância nem sempre consegue saber. Um dos elementos mais falados, mas ignorado no dia-a-dia, é a sexualidade, o direito, as crenças e as formas contraditórias de agir entre seres humanos, a proibição das drogas e o uso das mesmas. Os mais velhos procuram um comportamento adulto na criança, enquanto esta se esforça, pela emotividade que a une a esse ascendente, por agir como lhe é solicitado e, ao que parece, a avaliação adulto – criança, raramente é positiva. Entendimento difícil de acontecer em matérias de emotividade e desejo, tema tabu que caracteriza os povos religiosos, como Portugal.

O trabalho será feito na base da experiência que os adultos discentes, especialmente pais, ou os ainda filhos, têm o tenham tido na sua vida cronológica, a partir do facto de existir consciência da vida e até a época de estar mudar pela atracção por pessoas individuais de fora de casa ou puberdade. A etnografia de outras sociedades é base para o método comparativo, tal e qual o tempo cronológico da nossa sociedade, método que permite inferir ideias novas para criar uma epistemologia da infância, que acontece ser o meu objectivo pessoal.

O sistema de aprendizagem da nova descoberta, baseia-se em texto e sessões seguintes:

1ª: A ilusão de sermos pais.

Eduardo Sá 2003 – Raúl Iturra 2000

Sessão 2ª: A realidade de se ser pai.

Raúl Iturra 1997 – Raúl Iturra 2002 a)

Sessão 3ª: “Este não entende, podes falar”.

Alice Miller (1985) 1990 – Wilfred Bion 1967

Sessão 4ª: “Cala, que te ouve…”

Cyrulnik, Boris, 2003 – Eduardo Sá 2000

Sessão 5ª: O que a brincadeira ensina.

Filipe Reis 1997 – Françoise Dolto 1981

Sessão 6ª: “Sermos médicos; sermos pais”.

Daniel Sampaio 1994 – Émile Durkheim 1897

Sessão 7ª: Os desenhos das crianças.

Sigmund Freud 1930 – Manuela Ferreira 2000-Alice Miller 1985

Textos escritos pelos mais novos.

Meyer Fortes 1938 – Paulo Freire 1972 – Françoise Dolto 1977

Sessão 9ª: Sentimentos, emotividade, desejo.

Miguel Vale de Almeida 1995 – António Lobo Antunes 1990 – Georges Devereux 1961

Sessão 10ª. A pedofilia e o incesto.

Raúl Iturra – Textos da Página da Educação – Sigmund Freud 1905 – Bronislaw Malinowski 1927 (por erro, o texto está datado 1921. A versão francesa da Net é de 1930).

Sessão 11ª: Masturbação.

Karol Vojtila 1993 – Giovanni Monitini 1966 – Martin Lutero (1529) 1991 – A Bíblia S/D-Al-Corão S/D – Françoise Dolto 1977

Sessão 12ª: Os direitos da criança, na lei portuguesa e na internacional.

Código de Direito Civil Português 2002- Declaração Universal dos Direitos das Crianças.

A bibliografia citada, resulta dos objectivos deste novo ramo da ciência do entendimento do pensamento de adultos e crianças.

Este foi o resultado de dezenas de anos de trabalho de campo. A maior parte dos meus colegas, não estimam importante entender o pensamento das crianças. No meu ver, sem sabe essa relação, a vida adulta passa a ser um incógnito para nós. Ou se começa dos começos, vaia a redundância, ou não sabemos ter comportamento de pais, avós e adultos, assunto que devo tratar no ensaio a seguir. Com base não apenas no estudo de crianças feitos por mim e equipe bem como por Malinowski, Margareth Mead, Pierre Bourdieu, Maurice Godelier e o meu mestre Sir Jack Goody, que soube incutir em mim o meu desejo de entender a mente dos mais novos, para saber como seriam em adultos.

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