A voz de Sócrates: a morbidez que a direita adora

Imaginava eu que José Sócrates estivesse politicamente defunto ou, pelo menos, em estado de morbidez profunda. Iludi-me. O homem, incapaz de assumir os danos infligidos aos portugueses, perfilou-se de súbito na boca de cena, no refúgio parisiense em que se albergou, declamando em tom pseudo-pedagógico:

A minha visão é esta, para países como Portugal e Espanha, agora é preciso pagar a dívida é uma ideia de criança…as dívidas dos países são por definição eternas…

A desastrosa intervenção dispensa comentários, porque já contém, em si, os ingredientes que a qualificam. Todavia, há a considerar as consequências para a dialéctica e a retórica no ambiente político nacional. Na hora, em que os portugueses são castigados com duras medidas de austeridade, a voz de Sócrates, remendada por esta desajeitada explicação, é um precioso activo que a direita no poder arrecada e com que se delicia.

A voz de Sócrates é, pois, a morbidez que a direita adora. Enquanto servir de tema central, esquecem-se os aumentos das taxas de moderadoras na saúde, o agravamentos dos impostos, a captura dos subsídios de Natal e de férias e mais o que está para vir, segundo se depreende da entrevista de Passos Coelho à SIC.

Só um pedido: “Cala a boca Zé Sócrates! Os teus disparates, mesmo de Paris, ainda fazem mossa.

Comments


  1. “É claro que não podemos deixar [a dívida] crescer muito, porque isso pesa sobre os encargos. Todavia, para um país como Portugal é absolutamente essencial, para a sua modernização e para o seu desenvolvimento, ter financiamento, quer para a modernização das suas infra-estruturas, quer para a modernização das suas políticas, quer para o crescimento da sua economia”
    Se isto é uma desajeitada explicação gostaria de o ver a explicar melhor.

  2. Carlos Fonseca says:

    Desajeitada, porque não eliminou os efeitos do que houvera dito antes, ou seja: “As dívidas dos países, pelo menos foi o que eu estudei em economia, são por definição eternas. As dívidas gerem-se, foi assim que eu estudei”.
    Há duas questões de fundo a ter em conta: (1) a avaliação generalizadamente negativa do desempenho político de Sócrates e (2) os efeitos nefastos, na vida dos portugueses, da ampliação irracional da dívida, agora e nos próximos anos.
    Para bem da esquerda, incluindo projectos sérios da social-democracia e do socialismo democrático, Sócrates prestará um serviço de inestimável valor a elevado número de cidadãos nacionais, se permanecer calado sobre temas em que agiu desastrosamente. Que goze umas férias políticas alargadas!


  3. Infelizmente, o idiota desta desta vez está mesmo correto, e enquanto a europa não se voltar a lembrar de como funciona o sistema financeiro não vai resolver absolutamente nada.
    Esperemos, para o nosso bem, que as agências de rating comecem segunda-feira a explicar ao Merkozy a realidade.


  4. …será que também já tirou a licenciatura em economia??? 🙂

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