o morto-vivo

Enterrámo-lo há muitos anos. Despedimo-nos dele, acompanhámo-lo, evocámos as melhores histórias, silenciámos as suas faltas, fizemos o luto, recordámo-lo, a princípio muitas vezes, depois cada vez menos, o normal. E, pouco a pouco, habituamo-nos a pensar nele sempre num passado que se ia afastando. Quanto mais tempo passa sobre um morto, menos espaço há para ele no nosso presente. Ele ficou lá, nesse tempo em que éramos mais jovens, e vivíamos noutra casa, e ainda não nos tinham acontecido certas coisas. Ele nunca chegou a conhecer a nossa vida presente, já não haveria espaço para ele nela.

Por isso, quando ele voltou, não sabíamos que fazer com ele. Voltou assim, sem mais, por capricho. Que não se tinha dado bem, que isso de estar morto não era para ele, que tinha pensado melhor, que ainda queria fazer coisas.

Era um problema. É certo que ele fez a sua parte para adaptar-se aos novos tempos. Comprou roupa nova, trocou a armação dos óculos, arranjou um telemóvel. Mas não havia como encaixá-lo nas nossas vidas. Não era por ele ter estado morto e haver ressuscitado, não havia nenhuma repugnância da nossa parte. Era porque ele nos recordava quem tínhamos sido. Chamava-nos constantemente ao passado,  enleava-nos as pernas para suster-nos aí, cuspia-nos para o rosto o bafo desse vida passada, das asneiras, das ingenuidades, das esperanças perdidas, e embrulhava-nos o estômago com isso, como um bêbado nos enjoa com um hálito de vinho.

A sua presença era uma incongruência, um paradoxo insuportável, e suportá-lo era um castigo que nós, os seus amigos, não merecíamos.

Por isso, combinamos uma tarde chamá-lo para uns copos, uma despedida amável. E depois matámo-lo entre todos, sem crueldade, sem furor, com a mão firme e o semblante sério de quem faz o que tem de ser feito, mas nem por isso gosta do que tem de ser feito. E assim o reenviamos para o passado, sabendo que desta vez ele não desejará regressar. É que agora ele sabe que não há ninguém à sua espera. Terá de ser ele a aguardar-nos.

Comments


  1. Pois é, Carla, às vezes, assim como assim, é bom que alguém ressuscite para desenterrarmos algumas dúvidas que tínhamos por certezas.
    Belo texto.

  2. Carla Romualdo says:

    obrigada, Pedro. Descreves com exactidão a experiência recente que me fez escrever isto

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