Voluntariado

dia-do-voluntariado-001Ontem, 5 de Dezembro, foi o Dia Internacional do Voluntário.
É uma data importante para assinalar e reconhecer o esforço de muitas pessoas que dão uma parte de si a favor de outros. Muitos dão muito de si.
Não me encaixo nesta categoria de pessoas. Não sou abnegada. Não dou muito de mim. O meu voluntariado é mais uma forma de egoísmo. Sou voluntária porque não sei ser de outra forma. Porque toda a minha vida tentei ajudar outros, embora até há uns anos atrás a ajuda que eu dava fosse algo incipiente. Mais voluntarismo do que voluntariado.
Não me sinto bem comigo própria quando não faço algum tipo de voluntariado. Numa sociedade com tantos problemas, tenho que arregaçar as mangas e fazer alguma coisa. Tenho que ajudar outros a pegar o touro pelos cornos. Pegar o touro pelos cornos?? E logo eu que «dou a cara pela abolição»… Isto promete!
A verdade é que sempre que fiz voluntariado institucional saí enriquecida, muito enriquecida de cada uma das experiências. E preciso disso como do pão para a boca. Preciso de me dar com pessoas diferentes, com formas de pensar muitas vezes opostas às minhas, às vezes mais intolerantes do que eu, outras, infinitamente mais tolerantes do que eu. Ser voluntária é um vício.
Quando, como aconteceu há ainda pouco tempo, deixo totalmente de ser voluntária, sinto que me falta algo, sinto-me incompleta.
Não, não me sinto muito boazinha por ajudar, merecedora de toda a admiração por ser tão generosa. Nada disso. Tenho a convicção de que a sociedade como um todo é responsável pelos seus e é muitas vezes a sociedade civil que tem que agir e evitar atropelamentos aos direitos individuais, às necessidades básicas de cada um. Nós, indivíduos, temos que fazer alguma coisa para corrigir o que está mal. Não podemos constantemente criticar e nada fazer. Se algo está errado, juntemo-nos e tentemos resolver. Cada um de nós e todos juntos somos a força de que o país precisa para ser mais humano e mais justo. Não há exemplos por parte de quem os devia dar? Invertamos a pirâmide, sejamos nós os exemplos. Envergonhemos, pela nossa acção, quem nada faz.
O respeito pelos outros faz parte dos meus valores inalienáveis. Nunca abdicarei dele. Por isso afirmo que ser voluntária é, para mim, uma forma de egoísmo. Não consigo viver comigo própria se não me envolver em algum projecto. Uma grande parte do que sei, aprendi como voluntária. Muitas pessoas que conheço e de quem gosto, conheci por serem voluntárias. Os meus animais chegaram-me quase todos por ser voluntária. Dou mais valor à minha vida por ser voluntária.
Comecei o meu envolvimento de forma mais organizada numa associação de defesa animal. E aí fiz de tudo, vi de tudo. Revoltei-me com a crueldade humana, emocionei-me com a bondade humana, envolvi-me em discussões, apaziguei discussões, co-escrevi uma coluna semanal num jornal, colaborei na organização de eventos, cozinhei, atendi o público, ajudei a dar vacinas, aprendi a dar vacinas, alimentei a biberão e limpei muitos animais, alberguei temporariamente imensos, entreguei-os para adopção, fui buscá-los, voltei a ficar com eles. Adorei cada momento. Claro que foi cansativo, muitas noites a deitar tarde, muitas noites a levantar para dar biberão ou medicamentos, muita ansiedade, muita raiva e também muito amor. E algumas pessoas, amigos, espantavam-se de eu albergar temporariamente os animais e depois os entregar para adopção, sem criar vínculos com eles, achando-me fria. Não sabiam de nada. Não sabiam da dor de alma cada vez que tinha que deixar partir um dos meus gatinhos, do controlo apertado que fazia e, mesmo assim, nem sempre eficaz.
Em simultâneo, fui voluntária numa sala de convívio da terceira idade. Aprendi tanto com aquelas idosas! Sobretudo elas, sim. Os homens sentavam-se a jogar cartas ou dominó. As mulheres eram activas, faziam peças em barro e bonecas de trapos. Tinham experiências de vida totalmente diferentes da minha, vocabulário completamente diferente do meu. Aí, aprendi algumas anedotas que me envergonho de contar, mas de que me lembro. Aprendi dixotes e expressões que nunca antes tinha ouvido. Conheci pessoas maravilhosas, idosos dignos e úteis, cujas rugas eram o fruto de uma vida de trabalho honesto. Pessoas, nunca velhos.
Actualmente, deixei-me «disso dos animais». Voltei às pessoas. Até ver…
Portugal precisa de voluntários em todas as áreas. Os voluntários são, pela natureza daquilo que estão predispostos a fazer, pessoas com energia, com capacidade de unir forças e remover obstáculos do seu caminho. Tudo para transformar a sociedade em algo de muito melhor. Vivem-se tempos duros, duríssimos no nosso país. Podemos ajudar a combater, dar o nosso contributo ao sermos voluntários. Façamos da nossa infelicidade a felicidade dos outros. Seremos brevemente muito mais felizes do que alguma vez imaginamos.
Eu tenho um sonho.
Sonho com hordas de voluntários a limpar e reflorestar as matas, a pintar e a reparar as casas e escolas abandonadas, a devolver estes espaços às cidades, às comunidades.
Sonho com grupos de voluntários a tirar animais da rua e dos canis e a contribuir para a sua esterilização.
Sonho com multidões de voluntários a ensinar a dignidade, o respeito pelo outro, o amor-próprio, a indignação contra o que está errado.
Sonho com paletes de voluntários a passear os idosos pelas ruas.
Sonho com batalhões de voluntários a construir, reparar ou embelezar escolas, jardins de infância, parques infantis.
E, sobretudo, sonho com montes de voluntários a recolher bifes para dar às crianças cujos pais carecem de responsabilidade ou de tempo para os alimentar.
Leitores, voluntariem-se!!! O voluntariado liberta!!!

Comments

  1. Pedro Pinguela says:

    É também verdade que ser voluntário é uma forma de egoísmo. Somos voluntários porque também pensamos em Nós mesmos , porque queremos algo em troca nem se ja só reconhecimento.É uma posição honesta. O acto generoso é muito dificil para cada um de nós. Temos de assumir que isso é extremamente dificil. Basta ver o que nos dia a Etologia Humana. Parabéns pelo texto.


  2. fale por si, pinguela.
    Venha ser voluntário, numa instituição que ajuda os pobres e vai ver o agradecimento que recebe. Eu que o sou raramente recebo um agradecimento, mas recebo ameaças, pressões, acusações e insultos. Se andar no terreno, a visitar as famílias mais carenciadas, a dizer que não a uns e sim a outros, vai ver que arranja muito mais inimigos que amigos.
    o que me acontece é ajudar uma família durante meses, depois quando essa família está um pouco melhor temos de cortar a ajuda. Julga que essa família fica agradecida? Raramente, o mais frequente é ficarem zangados porque lhes tiramos um direito.
    Mais os esquerdistas de sofá, que conhecem mais bares que famílias pobres, e que dizem que fazemos caridadezinha, tipos não fazem e dizem mal de quem faz.
    Reconhecimento? Você não sabe do que fala, não me sinto minimamente reconhecido pelo tempo que dou gratuitamente, nem pelos donativos que dou (verdade que também raramente sabem que os dou). Sou mais vezes caluniado que elogiado.
    Talvez noutro tipo de voluntariado tivesse mais reconhecimento, mas basta ver que em Portugal a grande maioria do voluntariado é feito dentro da igreja católica e como ela é violentamente atacada para perceber que o agradecimento não é muito frequente.

  3. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Sim é bom ser voluntário e fui muitas vezes mas muitos coices se levam – mas fui – já não sou como era – já fiz a minha parte não para aliviar consciência mas porque há outras coisas a fazer de outra forma – e fui coluntária 1 mês também na EXPO 98 e adorei embora fosse tão cansativo que só quando parei percebi que até me tinha exedido no esforço – mas gostei – mas não repetiria

  4. Konigvs says:

    Está a fazer um ano, fui ao Porto a um fórum sobre o voluntariado, em que estiveram presentes o bispo, o presidente da câmara, o presidente da Cáritas, o gaijo da TSF que fazia um programa sobre o voluntariado e que também era um concurso, e mais um série de gente ilustre.
    Fui porque já estava desempregado há algum tempo e quis-me inteirar sobre esse mundo “institucional” do voluntariado.
    Pois a verdade é que eu saí de lá a pensar que afinal estava completamente enganado sobre o que é ser voluntário, não tem nada a ver. A palavra voluntário remete-me desde logo para algo feito de livre vontade, remete-me para os bombeiros voluntários que todos os anos arriscam a vida para apagar os incêndios, mas afinal ser-se voluntário como vários ilustres oradores quiseram desde logo esclarecer, ser voluntário não é ser-se voluntarioso – e como aqui parece que a semântica é muito importante! – para se ser voluntário diziam, é preciso fazer formações, é preciso ter um horário, é preciso darmos as mesmas horas todas as semanas, é preciso que as empresas quantifiquem o voluntariado. Ser-se voluntário diziam, não é estar desempregado e querer ir socializar, ou estabelecer uma rede de contactos. E eu comecei a ficar intrigado. Afinal existem profissionais do voluntariado, e nem sequer quero misturar as coisas com as centenas de associações que neste país a troco de supostas ajudas aos “coitadinhos” muitas que até se dão ao desplante de fazerem peditórios fraudulentos na TV, não, refiro-me só às pessoas que livremente se dedicam a ajudar os outros.
    No fundo todo aquele discurso moralista fez-me sentir que eu não mereço ser voluntário. Ser voluntário deve ser só para “special ones” da sociedade, porque devo ter interpretado tudo ao contrário do que aquelas pessoas ilustres ali estavam a dizer, porque afinal o que eu senti foi que me estavam a vender a história dos estágios não remunerados, ou outra qualquer forma de exploração, então quando falaram de voluntariado associado às empresas, não sei, deu-me assim uma volta ao estômago… E eu que pensava que ser voluntário era só ajudar quem precisa, quando se podia e sem obrigações. E tão enganadinho que eu andava.

    • armindo vasconcelos says:

      Aqui, estamos no mesmo campo. Também passei por isso (desemprego e tentativa de voluntariado) e depressa me dei conta de que o voluntariado instituído é demasiado profissional, tem demasiado pedigree, e por aí fora!

      Voltei a dedicar-me a outras coisas que, às tantas, dão mais aos outros que estes profissionais. Às tantas, não! Dão mesmo!

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