O fim dos planos de recuperação

“passas o tempo a esfolar para o patrão
que dá um pão mas que o tira sem razão
deixas o emprego mas o esquema continua
contrato de 6 meses e depois vais para a rua
pára de sonhar, estás embalsamado
recebe as tuas ordens como um teleguiado”

A primeira página do jornal Público traz em destaque, mais uma vez, uma questão do foro educativo – os planos de recuperação.publico

Mesmo para quem não está por dentro destas coisas, já não será surpresa o destaque dado pela comunicação social escrita às questões da educação, porque apesar dos milhares de despedimentos, ainda há uma centena de milhar de docentes nas escolas, mais uns quantos por aí desempregados ou a tapar buracos e há, claro, muitos pais e muitas pessoas sempre interessadas na cousa educativa.

E, desta vez, Crato dá uma no crato e outra na ferradura, que é como quem diz, faz um bonito junto de parte da classe, que assim se vê livre duma burocracia sem sentido. No entanto a questão central está longe de se resolver e quanto a isso Nuno Crato e o seu Ministério dizem zero!

Vamos então aos detalhes.

Os planos de recuperação (Despacho Normativo 50/2005, de 9 de novembro) começam por ser um documento preenchido pelo(s) professor(es) de um aluno do ensino básico e tem fundamentalmente duas áreas: identificação das dificuldades e propostas para as resolver. São uma “estratégia de intervenção com vista ao sucesso educativo dos alunos.” Podem consultar alguns exemplares disponíveis por aí: exemplo 1ºciclo; exemplo 2ºciclo; 3º ciclo.

Foram introduzidos por Maria de Lurdes Rodrigues e isso é sempre um bom indicador – a sua validade é questionada desde há muito.

Para os seus defensores, os PR têm dois méritos – obrigam a sistematizar informação e comprometem, formalmente, os envolvidos.

Se a primeira dimensão é verdadeira, apesar de ser uma imensa fonte de problemas e de dificuldades de carácter burocrático, o comprometimento das partes está longe de ser alcançado com este tipo de documento.

Como já antes escrevi os professores devem colocar nos PR as estratégias a desenvolver para tentar resolver as dificuldades identificadas. E nessa planificação entram os próprios professores, quer sugerindo apoio dentro da sala de aula, quer indicando o aluno para apoios fora dela. Podem e devem também identificar novas formas de abordar as matérias e até sugerir um ensino mais individualizado.

São também incorporadas acções que o próprio aluno tem que desenvolver, bem como a sua família e a escola, nas dimensões extra sala de aula.

E esta ultima referência é um elemento chave deste processo – não é possível controlar, no decurso da aplicação do PR, o comprometimento de pais, nem tão pouco a escassez de recursos das escolas, nomeadamente ao nível dos técnicos especializados da área social, por exemplo.

Isto é, os PR falham totalmente no fim para o qual foram pensados – resolver os problemas em torno do insucesso dos alunos. Se calhar, Maria de Lurdes, na sua permanente desconfiança em relação ao trabalho feito pelos professores pensou este documento como uma forma de controlar a coisa. Falhou! Como o Paulo escrevia ” acabaram por tornar-se um instrumento defensivo de muitos desses professores, em especial Directores de Turma, para se resguardarem das investidas dos Encarregados de Educação.”

Nas reuniões onde estive presente ao longo destes anos, os PR, passam de mão em mão para fazer as cruzinhas, o Diretor de Turma acrescenta umas dicas, dá aos pais e ao aluno para uma assinatura algumas vezes durante o ano e pronto! Dever cumprido! Resultados? Zero!

Num momento Marcelista, diria que Crato faz bem em acabar com uma coisa que não serve para nada! Faz mal quando acaba com algo que poderia ser um instrumento válido no combate ao insucesso e não aponta qualquer caminho para o fazer.

Da parte das escolas palpita-me que vamos ter um processo semelhante ao dos PCT’s: a lei acabou com os PCT (agora sem qualquer enquadramento legal), mas as escolas, quais cordeirinhos transformam os PCT em PT. O Plano Curricular de Turma (PCT) perde o c, de coragem, e fica tudo na mesma. Para breve a mudança de nome dos PR.

Continuem – eu vou dizer que não! Está na minha mão!

Comments

  1. João Paulo says:

    Pronto, aí está um comentário a levar em ENORME consideração 🙂

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    E depois como ontem e há já muito tempo o jornalista faz pergunta e ninguém – nem crato respondem – viram a cara e vão-se
    de facto não têm nada para dizer mas assim tão desprezivamente

    Quando acaba este penar ??
    porque não é só Crato são todos fogem – entrampela porta do fundo saem esgueirados
    governam em “casa” então porque saem à rua onde são vistos ???

  3. maria celeste d'oliveira ramos says:

    DEsapareçam para sempre

  4. Jorge says:

    Crato vai abrir um debate sobre a refundacao do ensino em Portugal com o lema: ” Deve o povo aprender a ler, escrever e contar”?

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