Biografia breve do PAI NATAL

Séc. XX, Dezembro 1952, Aeroporto, Ilha de Santa Maria

A chegada do Pai Natal ao Aeroporto da Ilha de Santa Maria
(Dezembro 1952) © Grupo Facebook Memorias Santa Maria

QUEM É O PAI NATAL?
Chamêmos-lhe S. Nicolau, Papai Noel, Papá Noel, Père Noël, Viejito Pascuero (chileno), Santa Claus, Joulupukki (finlandês), Father Christmas, Ded Moroz (russo), ou Kris Kringle (um nome que se julga derivar do alemão Christkindl – Menino Jesus – apropriado pelo «vernáculo» dos primeiros colonos norte-americanos), é tido hoje como verdadeiro que mora longe, muito longe da grande maioria dos beneficiários da sua acção benévola: para lá do círculo polar árctico, no sopé de uma misteriosa montanha chamada Korvatunturi, com os seus duendes ajudantes, as suas renas e, enfim, toda a parafernália de espantosas excentricidades a que já nos habituou. Trata-se da mais intricada das fantasias demiúrgicas do nosso tempo, pejada de zonas sombrias, contradições e, claro, grandes cedências ao marketing, constantemente necessitado de renovados ícones.

Um concorrente de Jesus
Patrono dos marinheiros (sobretudo dos holandeses), dos comerciantes de todas as latitudes, dos guardas-nocturnos arménios, dos meninos de coro italianos, das raparigas solteiras e casadoiras, o multinacional padroeiro Nicolau terá sido antes de mais um protector dos fracos e dos oprimidos, fama que se por um lado o tornou amado um pouco por todo o mundo cristão, por outro o colocou em franca posição de concorrência com Jesus, o que terá determinado (juntamente com a Reforma protestante que aboliu o culto dos santos, e com a escassez de documentação sobre a sua vida) a decisão do Papa Paulo VI em retirar, em 1969, as festividades de São Nicolau do Calendário Oficial Católico.

Dispensa que em nada afectou os holandeses, que prosseguem ainda hoje celebrando a chegada de Sinterklaas à Holanda (sempre acompanhado pelo seu ajudante Zwarte Piet – Pedro Negro), num navio enorme carregado de presentes e guloseimas, ao que consta vindo de Espanha. Chegam em meados de Novembro, envoltos em grande aparato televisionado em directo, Nicolau vestindo de bispo, e Zwarte Piet pronto para dar com uma vara castigadora nos meninos que não se portaram bem, ou para levar para Espanha (dentro do saco de Sinterklaas) aqueles que foram desobedientes. Após o que Nicolau monta num cavalo branco e desfila pelas ruas para ser aclamado pelas crianças, numa tradição que culmina na véspera do Dia de São Nicolau (6 de Dezembro), altura em que as crianças deixam um sapatinho junto à lareira, bem como cenouras e feno para o cavalo (as mais solidárias).

Um santo
Amigo dos pobres e das crianças, protector dos escravos e dos encarcerados, São Nicolau terá nascido nos finais do século III numa região que pertence hoje à Turquia. Santo padroeiro em países tão diversos como a Rússia, a Grécia ou a Noruega, nasceu filho de cristãos ricos, tendo por milagre escapado à morte por afogamento no momento do primeiro banho. Passou a infância a jejuar (constando mesmo que só mamava às quartas e às sextas-feiras) e a adolescência enfiado nas igrejas a estudar as santas escrituras. Contam as lendas que a sua generosidade era infinita (desbaratou a herança familiar generosamente ajudando os outros), tendo-lhe igualmente sido atribuídos vários e portentosos milagres. Senão vejamos.

Uma noite, Nicolau apareceu a uns marinheiros apanhados numa impiedosa tempestade, ajudando-os a manobrar o barco. Um dia, salvou uma província inteira da fome, entregando aos pobres o trigo destinado ao imperador, e devolvendo por milagre a preciosa carga aos navios. Uma outra vez, impediu o demónio travestido de anciã de envenenar um grupo de peregrinos. Noutra ocasião ainda, salvou da prostituição três donzelas, filhas de um homem demasiado pobre para lhes dar um dote, oferecendo a cada uma delas um saco cheio de ouro.

Nicolau foi ordenado bispo de Mira (antigo nome de Dembre, na Turquia) devido ao facto de ser um inveterado madrugador. Após a morte do antecessor, Deus decidira que seria bispo aquele que fosse o primeiro a entrar na igreja: esse foi Nicolau. Depois da morte dos pais, Nicolau foi visitar a Palestina e o Egipto, e durante essa viagem uma grande tempestade acalmou por via da sua reza fervorosa. Morreu em 6 de Dezembro de 342, e o santuário onde foi sepultado transformou-se numa nascente de água. São Nicolau foi visto em numerosas aparições, tendo supostamente a mais famosa ocorrido em Espanha, em 1853, quando, atendendo às orações de umas senhoras fervorosas, salvou do frio e da fome um grupo de miseráveis desesperados.

Naquele que é considerado o seu mais brilhante milagre (palmas para ele!), Nicolau salvou da condenação à morte por duas vezes consecutivas três justos príncipes, da primeira vez tirando-os das mãos do carrasco e denunciando uma pérfida cabala, e da segunda aparecendo em sonhos ao imperador Constantino que se preparava para os mandar matar, tendo-os libertado na manhã seguinte. Consta que transformava hóstias em pão e também que tinha o poder de fazer ressuscitar as crianças, milagre póstumo que se julga ter tido origem em França, no século XII, quando três crianças perdidas foram albergadas certa noite na casa de um talhante malvado que as degolou, cortou em pedaços e pôs a salgar. Nicolau, que passava por ali e insistiu em comer o que estava na salgadeira, terá ressuscitado as três crianças. Inexplicável, porém compreensível.

Talvez tudo isto possa explicar que milhares de igrejas por toda a Europa tenham o seu nome, sessenta das quais em Roma e mais de quatrocentas em Inglaterra. Em 1087 os seus restos mortais foram transferidos para a cidade de Bari, em Itália, que se converteu num centro de peregrinação em sua homenagem. Idolatrado pelos povos escravos cristianizados, que adoptaram São Nicolau como patrono, é venerado no Mundo inteiro. Na Europa do Norte medieval, a 6 de Dezembro eram realizadas procissões protagonizadas por duas crianças, uma vestida de bispo que oferecia presentes aos meninos que se portavam bem, e outra vestida de ajudante que punia os ingratos e os indisciplinados. Na Rússia anterior à revolução de 1917, a Igreja Ortodoxa venerava Nicolau, e dois czares tiveram o seu nome. Quando emigraram para a América no século XVII, os holandeses levaram Sinterklaas com eles. Nos países europeus católicos, o culto a São Nicolau perdura para além dos mandamentos da Santa Sé.

O guardião de Nova Iorque
O escritor oitocentista Washington Irving foi quem pela primeira vez escreveu sobre um velhote holandês fumador de cachimbo, que passava pelos céus de Nova Iorque num carro puxado por cavalos. Tratava-se de uma importação do Sinterklaas dos colonos de Nova Amesterdão (mais tarde Nova Iorque), que descrevia a chegada desse velhote holandês ao porto da grande cidade. Chegava de calções, anafado e sorridente e, depois de deixar o seu barco, sobrevoava a cidade num trenó puxado por um cavalo voador, atirando presentes pelas chaminés. Irving chamava- lhe «o guardião de Nova Iorque», o que levou à sua popularização também entre os nova-iorquinos de origem inglesa. Conta-se que Irving, que criara com os amigos uma sociedade literária dedicada a São Nicolau (com sede na sua própria casa), promovia reuniões onde eram observados vários costumes holandeses, e durante as quais era obrigatório fumar cachimbo.

Um poema de Natal
Mas o Pai Natal tal como hoje o conhecemos nasceu em 1822 com grande distinção, às mãos de um poema. Assinado por Clement Clark Moore, teólogo e professor de Literaturas Clássicas, o autor de A Visit from Saint Nicholas viu o seu poema publicado em 1823 num jornal nova-iorquino. Nele se dava conta de que São Nicolau, já velhinho e com feições de gnomo, viajava num trenó, puxado por oito renas e enfeitado com sonoros sininhos, entrando nas casas das pessoas pela chaminé. Escrito para os seus filhos, descreve a noite mágica em que o Pai Natal apareceu pela primeira vez como absolutamente serena e silenciosa, deitada no sono profundo de todos. Eis senão quando surgiu St. Nick de bochechas rosadas, nariz vermelho e barriguinha proeminente, acompanhado pelas renas Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder e Blitzen. Conta-se que a nona rena, Rudolph, terá sido a posteriori contratada pelo Pai Natal por ter um nariz vermelho e brilhante, muito jeitoso para ajudar a guiar a trupe de incansáveis durante as tempestades.

O primeiro desenho que retrata a figura do Pai Natal data de 1862, e foi feito pelo cartoonista norte-americano de origem alemã Thomas Nast, que foi também quem criou vários outros ícones americanos, tais como o Uncle Sam, o Burro Democrata ou o Elefante Republicano. Publicado no semanário nova-iorquino Harpers Weekly numa edição especial de Natal, Nast desenhou para a capa e para as páginas centrais um trabalho de ilustração que pretendia homenagear os sacrifícios familiares nortistas decorrentes da guerra civil. Assim se explica que a figura do Pai Natal (inspirada no São Nicolau de tradição alemã) surgisse aqui significativamente solene. Mas Nast viria a desenhar muitas mais vezes o Pai Natal, que se em 1863 aparecia a distribuir presentes pelos soldados, em 1866 surgia já bastante menos grave e a cores – sobretudo a vermelho –, e em 1890 era visto a andar pelos telhados e a entrar pelas chaminés, após o que regressava à sua residência oficial no pólo norte.

A Coca-Cola
Em 1931, Haddon Sundblom, um jovem pintor e artista gráfico de origem escandinava, desenhou uma série de anúncios para uma campanha da Coca-Cola protagonizada por um Pai Natal que personificava o providente avô universal, que Sundblom desenhou a partir de Nast. Foi este idoso vestido de vermelho e branco (as cores da marca), tornado mais realista (mais humano, alto, gordo, amável), que trouxe para a Europa a bebida mais famosa de sempre – um estimulante xarope medicinal cheio de cafeína, criado por um farmacêutico militar a partir da noz de cola, conhecida pelas suas propriedades revigorantes e antidiarreicas. Mas aquele que foi de certa forma considerado um regresso do filho pródigo às origens, seria também marcado por algumas acções revoltosas, que davam conta da indignação dos europeus perante a americanização de um ícone cristão. Nos anos 1950, o então secretário-geral da ONU, o sueco Dag Hammarskjöld, levantou a voz contra o americanismo de um Pai Natal desembarcado nas malas do Plano Marshall. Em França, a Igreja condenou o carácter pagão entretanto conferido ao símbolo natalício, corrompido pela lógica do negócio multinacional. Ainda assim, Sundblom desenharia o Pai Natal para a Coca-Cola centenas de vezes, entre 1931 e 1976.

Residências oficiais
Nos países da Europa do Norte acredita-se que o Pai Natal não vive no pólo norte, mas na Lapónia (Finlândia), numa cidade próxima do círculo polar árctico chamada Rovaniemi. Aí recebe as mais de 700 mil cartas/ano enviadas por crianças do mundo inteiro, e daí pode ser visto através da internet, em transmissões em tempo real, regularmente anunciadas no seu site oficial. O actual escritório oficial do Pai Natal abriu em 1992, tendo sofrido obras de ampliação, absolutamente necessárias devido ao número crescente de visitantes. Fiquem ainda a saber que o Pai Natal tem também uma residência de Verão na região de Penedo, Itatiaia, no Rio de Janeiro, Brasil – região onde no final dos anos 1920 se fixou uma colónia finlandesa. Um parque temático («Pequena Finlândia») e a «Casa de Papai Noel» constituem um chamariz para os visitantes sedentos de compras e ideias que cruzam culturas e paisagens perfeitamente distintas – basta dizer que a casa de Verão do Pai Natal fica situada junto a cachoeiras tropicais.

Um impostor
O Pai Natal divide os homens. Uns há para quem ele representa o coração generoso dos homens bons e rectos, e apenas isso em toda a sua imutável grandeza. Mas outros há para quem ele não passa de um impostor, cuja inexistência (em toda a sua horrorosa evidência) marca os mais inocentes e crédulos, confrontando-os com uma encenação de qualidades afinal duvidosas. Senão vejamos: se um Pai Natal de 113 quilos cobrisse 91,8 milhões de habitações, trabalhando ao longo de 31 horas (de leste para oeste e de acordo com os diferentes fusos horários), realizando 822,6 visitas/segundo, percorrendo um total de 121 milhões de quilómetros em cima de um trenó seguindo à estonteante velocidade de 1046 quilómetros/segundo (ou seja, três mil vezes a velocidade do som), puxado por nove renas sobrenaturais que fazem o trabalho de 214.200 renas reais, carregando 321.300 toneladas de presentes, isso significa que as renas aqueceriam como um vaivém a entrar na atmosfera terrestre, sendo que o primeiro par de renas absorveria 14,3 quintilhões de joules de energia/segundo, transformando-se em chamas quase instantaneamente, fazendo com que a equipa inteira fosse vaporizada em 4,26 milionésimos de segundo, e também que o Pai Natal fosse esmagado contra o assento do seu trenó por forças centrífugas correspondentes a 1.957.290 quilogramas de força (isto é, 17.500,06 vezes maiores do que a força da gravidade). Estamos entendidos?

Texto anteriormente publicado na revista Notícias Magazine (edição de 23.DEZ.2007)
Principais fontes consultadas:
L’Usage des Saints, Michel Braudeau, Gallimard 2004
Santa Claus Office
Hélder Costa em Toda a Verdade sobre o Pai Natal

Comments


  1. Gostei! E fiquei com a certeza de que a NASA devia ter o Pai Natal como consultor. 🙂

  2. maria celeste ramos says:

    Sarah-quando era menina fazia o presépio em casa com musgo que ía apanhar na serra de Sintra – havia as figurinhas do natal mesmo que poucas e a ceia de natal e a missa do galo e o recolhimento da famíla à volta da mesa e o amigo bacalhau porque o peru era para os ricos – e havia uma prendinha mas não a orgia comercial nem sequer o pai natal gordo e farto que descia pela chaminé onde se deixava a meia para encher de prendas que já não eram o oiroincenso e mirra porque agora há contimentes e Pães-de-Açúcar para tudo perverter- Como éramos pobres pois nascemos em tempo de guerra a prendinha era roupa nova e livros que serviam para a vida ser um bocadinho melhor incluindo o jantar – era um dia de Sol Novo e nascimento antecipado de um ano novo, cheio de frio mas a alma aquecida – o Presépio nas Igrejas que agora passou para a rua e é lindo, na rua também o arder do “madeiro” vão-se alterando e esquecendo e passou quase a ser comercial e a Igreja já não tem sempre a porta aberta como tinha a nossa casa (vivi com a porta da rua sem chave) e agora as Igrejas são roubadas pelo telhado e até os sinos que já não tocam nem quase se vai à missa do Galo nem os meninos têm o crucifico nas paredes das salas das Escolas porque é preciso tudo abolir e engordar “o pai natal” que coitado alegra as crianças mas já não é simbolo de dádiva mas de todos os Continentes e Pães-de-Açúcar e o Anjo já não vem anunciar a Maria o nascimento de um menino-deus que seremos todos nós para nossas-mães e pais porque nascer é nascer e é a mesma família sagrada que já não se senta à mesa recolhida mas em festa mais que pagã da abundância e não para agradecer mais um ano de vida cristã porque já não há oiro incenso e mirra mas uns livros e uma sacola para a Escola sem Crucifico e lá se lembram, ainda bem, dos homeless e lhe fazem ceia de natal e que existem por causa de todos os homeless sem lugar para a alma e apagam-se todos os simbolos e tradições que marcam ritmos e acordam ciclos da nosso história interior e social – os sinos já não tocam pois que até eles são roubados como a arte centenária das igrejas para vender por aí por grandes traficantes internacionais – e musgo se o houver é de plástico como a vida da abundância – um dia no lugar do crucifico das escolas haverá um são nicolau gordo pendurado – Santo Natal a todos e Ano Novo mesmo novo e que desaparecem do meu +ecram todos os que retiramm os crucificos das Escolas mas nos crucificam em vida para que outros engordem

    • Sarah Adamopoulos says:

      Celeste, nasci e passei a minha infância na Holanda, com o Pai Natal (o São Nicolau), que era uma espécie de “arma de arremesso” da geração dos meus pais contra o Menino Jesus, ou enfim, o que representava. No entanto, lembro-me bem dos presépios com os pais de Jesus e o menino em palhinhas deitado, que a nossa mãe insistia em fazer lá em casa, para honrar a memória da sua própria infância portuguesa, e por isso tudo isso acabava por ser misturado, para grande confusão nas nossas cabeças.


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