A bruxa

Cá no bairro todos os negócios vão mal excepto o da bruxa. Chamo-lhe bruxa de um modo se calhar abusivo, ou simplista, porque ela intitula-se “conselheira e terapeuta espiritual”. Mas tenho a atenuante de que sou do norte, e, nas duas margens do rio Minho, ser bruxa ou meiga não só não chega a ser insulto como até pode ser elogio.

Esta nossa bruxa é a mulher mais elegante da rua, tanto assim que parece sempre desenquadrada, como se se tivesse materializado de repente, com os seus vestidos negros de veludo e os sapatos de salto alto, num bairro de mercearias e casas antigas. Quando sai de casa deixa na rua um eco de tacones lejanos e um perfume denso, enjoativo, que sempre me faz pensar em plantas carnívoras, cheirem elas ao que cheirarem. Tem um olhar duro, demasiado impiedoso para quem aconselha e cura, e é isso, mais do que a sua linha de negócio, que me faz desconfiar das suas intenções.

O negócio corre-lhe bem, os clientes vêm todos os dias, mas ela parece sempre arreliada ou a braços com algum problema impossível de resolver. Talvez seja inevitavelmente assim para quem se move entre mundos, talvez todas as soluções deixem de parecer definitivas. Já dizia o Orson Welles que um final feliz depende de onde é que se pára de contar a história. Ou são os espíritos que nunca estão sossegados, ou os vivos que não lhe dão descanso, ou o facto de não haver uma linha clara a separar as duas margens, que a fazem andar sempre com os nervos em frangalhos. De vez em quando sai à rua com olhos de tresloucada e desata a salpicar a porta de casa com sal grosso. As vizinhas à janela encolhem os ombros e dizem para dentro, em voz baixa “Lá anda a bruxa a salgar a rua”.

Jamais se detém a falar com os vizinhos, nem uma palavra sobre o tempo, a promoção do supermercado, a existência de Deus, o buraco na rua, a crise. Quando se cruza connosco, coisa rara, prefere olhar para baixo e pôr cara de quem ausculta as entranhas da terra, ou os supliciados do purgatório, para que não ousemos esperar um bom dia –  prosaico, terreno, insignificante do ponto de vista espiritual “bom dia”.

No fundo, até se entende. Para quem escuta o outro mundo, as notícias deste devem parecer muito mesquinhas. Que interesse têm os mercados, a crise, o desemprego para quem já não precisa de comer? Que importa o rumo deste mundo para quem já se passou para o outro e sabe que a este já não volta?

Quando a patranha do Halloween chegou à minha rua, os miúdos foram bater-lhe à porta. Foi ela mesma a abrir, num desses momentos em que a ficção e a realidade mandam às urtigas a fronteira. Com um vestido preto, botins pontiagudos, e uma estola cinzenta, parecia a Cruella De Vil.  Os miúdos arregalaram os olhos porque era a primeira vez que encontravam alguém que se tinha dado ao trabalho de vestir-se para a ocasião. Ali estava uma senhora fantasiada de bruxa, que espectáculo. Despejou-lhes um pacote de oreos para dentro dos sacos e, sem mais, fechou-lhes a porta. Talvez tenha ido salgar a rua de novo nessa noite ou quem sabe pôde dormir descansada.

Todos os bairros precisam de um excêntrico para distraí-los da vida e a nós tocou-nos alguém que se ocupa dos mortos e do que eles ainda têm para dizer-nos.

Comments

  1. Amadeu says:

    Lindíssimo e divertido retrato. 🙂

  2. Sarah Adamopoulos says:

    Excelente. Gostei especialmente da perspicácia de ver no olhar demasiado duro da bruxa alguém que não pode curar.

  3. maria celeste ramos says:

    Gosto sempre muito de ler o que escreve a Carla Romualdo – santo Natal 2012

  4. Gostei do interessante texto. Parabéns pela sua qualidade. Continue a deliciar-nos com a sua prosa, por favor.

  5. Carla Romualdo says:

    obrigada a todos, um abraço

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.