Não há Gaiatos na Casa do Gaiato

auschwitz07

Há muito que ouço dizer que a Casa do Gaiato é tudo menos o paraíso na terra para as crianças a quem o azar leva para aquela instituição. Tenho ouvido relatos estarrecedores de pessoas que sabem do que falam porque o seu trabalho é lidar com essas crianças.
Recentemente, num jantar de Natal, voltei a ouvir falar sobre o assunto. Um grupo de amigos com quem entabulei animada conversa relatou, mais uma vez, o que sabia daquelas crianças.

Por motivos óbvios, não poderei entrar em pormenores. Tenho escutado testemunhos destes vindos de muitas pessoas diferentes, que frequentam Casas do Gaiato por motivos muito diversos.
Posso apenas adiantar que estes amigos, conhecedores e apoiantes de longa data daquela instituição, não conseguem esconder a tristeza e revolta quando falam nos Gaiatos da Casa do Gaiato.
Trata-se de uma situação tanto mais chocante quanto cada um de nós tem crianças que são tratadas com todo o mimo e trabalha com crianças/ adolescentes, todos eles mimados, amados pelos seus familiares, bem tratados (por vezes em demasia) por todos.
Segundo o que ouvi, aquelas crianças são quase escravizadas por quem supostamente lhes dá a mão.
Levantam-se de manhã bem cedo e, antes de irem cumprir com as suas obrigações académicas, tratam dos animais que a Casa tem para consumo. Diariamente dedicam-se à horta, cozinham refeições para todos os utentes, lavam a louça das refeições à mão e arrumam-na.
Durante todo o tempo em que estão institucionalizados ali, não sabem o que é receber um carinho ou uma atenção especial. São tratados com rispidez, como se tivessem culpa de terem sido já rejeitados pelas suas próprias famílias.
Sendo muitos deles crianças, estes seres em formação perderam o direito de o ser no momento em que passaram o umbral da porta que os acolhe. Vivem para o trabalho. Pouco tempo lhes deve sobrar para brincar, para tentarem encontrar alguma normalidade nas suas vidas tão pouco normais.
Onde se pratica o lema “somos a família para os que não têm família”, frase do fundador, Padre Américo?
Falta, ali, como em muitas outras instituições regidas por membros do clero ou muito ligados à Igreja, a evolução natural dos tempos. Já Camões advogava que as mudanças dos tempos levavam à mudança de atitudes, José Mário Branco cantou essa necessidade de mudança, mas a Igreja e os seus elementos continuam cegos perante a realidade circundante.
Era normal, nos anos 70 e antecedentes, que as crianças trabalhassem arduamente, mas a sociedade evoluiu e ninguém é melhor progenitor ou melhor cuidador por obrigar a trabalhar. E desengane-se quem pensa que esta exigência vai certamente dar os seus frutos em cidadãos muito trabalhadores e honestos. Nem sempre isso acontece. Muito frequentemente isso não acontece.
Há uma «dureza», eu diria uma quase insensibilidade, que me choca particularmente quando se trata de pessoas que dão a cara e o nome por uma instituição que defende, pelo menos teoricamente, a solidariedade, o amor ao próximo. Amar é respeitar e ajudar e não apenas exigir e humilhar.
Claro que nem todas as instituições ligadas à ICAR são tão frias no trato com os seres humanos.
Fui, durante algum tempo, colaboradora de uma instituição fundada por um padre na minha área de residência. Destinava-se também a acolher crianças. Enquanto o seu fundador foi vivo, as crianças eram felizes e viviam como crianças. Todos os anos alguns dos residentes eram seleccionados para acompanhar o Padre Ivo a Itália, o seu país-natal. Quando o fundador faleceu, a instituição foi entregue a outro padre que não tinha a mínima empatia pelas crianças. Pouco tempo depois, foi substituído por um colega de profissão mais «humano» e as crianças voltaram a ser felizes. Este novo padre levava os meninos à escola na carrinha e, no aniversário de cada um deles, levava-o à mercearia para escolher um chocolate. Era a sua prenda de aniversário.

E é assim que eu entendo um lugar onde se acolhem crianças e jovens. Já basta a tragédia por que passam ao ser abandonados pelas próprias famílias. A partir desse momento, necessitam de todo o amor e respeito que se lhes possa dar.
Sim, eu também acredito que o trabalho dignifica, ou, pelo menos, contribui para a nossa dignidade. Mas trabalho infantil é outra coisa. Defendo que as famílias devem dar pequenas tarefas aos seus pequenos, de modo a promover a autonomia e a auto-estima. Mas uma coisa é dar pequenas tarefas, outra coisa totalmente oposta é obrigar a cozinhar ou lavar a louça de mais de meia centena de pessoas.
Sabe-se hoje que as crianças necessitam de tempo para brincar, para ser crianças, que necessitam de carinho e reforço.
E isto a Casa do Gaiato não dá aos seus Gaiatos.

Comments

  1. Zé Carioca says:

    E? Então D. Noémia, essa instituição recebe dinheiro do Estado? E mesmo que não receba, não se deve averiguar? É que a misericórdia do deus (seja lá qual ele fôr) é praticada pelos homens, é, e isso é uma chatice.

  2. Luís says:

    Excelente Noemia!
    Bonito texto a emoldurar um quadro tão negro de uma sociedade implacável a lidar com os mais fracos.

  3. maria celeste ramos says:

    Acrescento à sociedade implacável a lidar com os mais fracos mas ainda a fazer tudo para enfraquecer os que ainda como eu, tinham – têm – alguma força – pois que um homem também se cansa e tem limites e por isso por vezes, se for caso disso, se une e/ou ampara aos outros, para não sossobrar – mas pode sossobrar não por falta de força, mas de cansaço- de cansaço – de cansaço

  4. sibila says:

    Lembro-me de a minha mãe contar como saiu a chorar da casa do gaiato em Beire, Paredes, conhecida como calvário. Dizia que nunca pensou que pudesse haver tal frieza para com crianças, especialmente tão carentes de afecto e com deficiências. De nada valeu tentar denunciar.

    • Henrique Luís says:

      Tenho imensa pena de não estar na Casa do Gaiato de Beire,bem juntinho do Cálvário,para doentes incuráveis,com a sua capela feita a partir de um espigueiro,em granito,com os seus belos vitrais,para receber a sua mãe.Eu aproveitaria para apresentar a sua mãe ao snr, Padre Batista,hoje bem mais velhote,mas magro e alto e que fala baixinho.Que dava banho aos doentes do Cálvário,os carregava ás costas e os deitava na cama.Eu diria á sua mãe quantas vezes descasquei batatas para aquela gente,um ou outro natural da minha aldeia.Eu conduziria a sua mãe á rouparia da casa e apresentava-lhe um doente incurável que ali colaborava com as suas forças.O doente era capaz de lhe dizer que andava zangado com a colega do lado que era muito chata.Coisas de velhos.A sua mãe, teria ocasião de ver com que carinho e desvelo as pessoas tratam os seus semelhantes,já no ocaso da vida Aqueles que a Sociedade não quer,por serem velhos,não tem dinheiro.Cheiram mal.São o rejeitados da sociedade.Quanto á Casa do Gaiato de Beire,situada uns metros mais abaixo,dentro da mesma quinta,que eu frequentei,durante dois anos, em que estudei,em Paredes eu diria á sua mãe que os rapazes que ali se encontram,são moços com problemas do foro para-psiquiátrico, que tem uma escola com professores especiais.São rapazes vindos das outras casas do gaiato que vêm para ali para terem um tratamento especial. São moços de comportamento difícil,por razões de saúde e que até se pegam uns com os outros.Todos trabalham.Ali não há lugar a manguelas.Todos tem um papel a desenpenhar naquela sociedade.Eu mostraria á sua mãe as camaratas,com as caminhas com colchas chita e a cama bem feita.Com roupa branca e fresca.A primeira vez que eu soube como era bom bom dormir numa cama,com lençóis por cima e por baixo,foi na casa do Gaiato.Ali aprende-se.Ali somos criados uns dos outros.Os portões estão sempre abertos para quem quizer fugir.Eu conheci alguns miúdos que fugiam e passados alguns dias já rondavam os portões.Sujos e com fome.Parece que cá fora não era bom.Liberdade,mas com relfa não dá.A barriguinha quer papar.É melhor regressar á base.Lá dentro há cama,mesa e roupa lavada.Criados não.Eram sempre bem recebidos embora ás vezes merecessem umas galhetas. Aquelas que mais tarde agradecemos aos nossos pais ou quem fez as vezes deles.Sim ás vezes os pais existem,mas não estão lá.Alguns apareciam por lá para recuperar os filhos.Para os levar para a miséria ou os pôr ao seu serviço mendigando nas ruas da cidade. Por fim, e como a nossa mãe é sempre a pessoa melhor do mundo, não deixaria de num gesto de solidariedade agradecer a visita e entregar um óbulo que eu levaria ao sr .Padre Batista.Bom Natal para o snr.Pe. Batista.Bom Natal ao snr. Pe. Mendes,filho de Júlio Mendes,motorista de Pe Américo.Bom Natal a todos os Gaiatos.Henrique Luís
      Henrique Luis


  5. “Enquanto o seu fundador foi vivo, as crianças eram felizes e viviam como crianças. Todos os anos alguns dos residentes eram seleccionados para acompanhar o Padre Ivo a Itália, o seu país-natal. Quando o fundador faleceu, a instituição foi entregue a outro padre que não tinha a mínima empatia pelas crianças. Pouco tempo depois, foi substituído por um colega de profissão mais «humano» e as crianças voltaram a ser felizes.”

    É esse o problema em quase tudo na vida. Há os sensíveis e os desumanos. Também na casa do gaiato as crianças já foram felizes.

    Infelizmente, todos nós sabemos como se “constroem” certas “vocações” religiosas!

    • Henrique Luís says:

      Ás vezes,para ser feliz é preciso ter juízo.Ter um bocado de tola.Não ser burro.Ás vezes não chega.Ainda não conheci ninguém não fosse feliz na casa do Gaiato.”Também na Casa do Gaiato as crianças já foram felizes”.Eu não era criança e fui muito feliz na Casa do Gaiato.Mas eu sou um caso especial.Consigo ser feliz com pouco.Sou pobre de bolso mas rico noutros valores.No banco não sou rico.Normalmente não falo do que não sei.Prefiro investigar em busca da verdade.Receba com amizade esta minha sugestão.Com desculpas pela eventual ironia.Henrique Luís

    • Francisco says:

      Só hoje li esta crónica. Apenas um conselho; antes de opinar veja com os seus olhos, ouça com os seus ouvidos e fale com a sua boca. Para isso necessita de ver e visitar as Casas do Gaiato. A casa-mãe. em Miranda do Corvo, é uma boa hipótese. Não julgue sem saber. Quem lho aconselha é alguém que viveu nessa instituição.

      • Mariana Silva says:

        Tem razão, ninguém deve criticar sem ver com os seus proprios olhos, acho que ler este texto foi uma perda de tempo, já visitei a casa do gaiato e reparei no olhos brilhantes e felizes das crianças, no conforto que lá tem e o amor que recebem, aconselho a sr. noemia a ir la ver com os seus proprios olhos.

  6. Henrique Luís says:

    Sou um ex-gaiato.Frequentei a Casa do Gaiato de Beire,em Paredes,durante dois anos.Nesse período estudei a expensas da Casa do Gaiato – Obra da Rua.Fui para aquela obra porque sendo orfão e querendo estudar não tinha possibilidades para o faze,r por ser paupérrimo.Andava a pedir ou esmolar.Fui para a Obra da Rua porque quiz.Ninguém me obrigou ou raptou.Fui sempre muito bem tratado.Não passei fome,antes pelo contrário.Fiz algumas asneiras?Sim.Assaltei o pomar de laranjas da casa.Eram muito boas.Fui-me confessar e rezei a penitência.É verdade, era acordado pelas 8 horas da manhã.Fazia a cama.Descia á capela e rezava.A seguir tomava um bom pequeno- almoço feito pelo Passos que se levantava mais cedo para pôr a cozinha a funcionar.Era servido por um outro gaiato de quem até gostava.Um excelente moço que se chamava Festas.Eu ia para o colégio a pé e gostava.Quando chovia ia de camioneta a expensas da Obra.Os outros gaiatos, +- 50 trabalhavam no amanho da terra naquela quinta maravilhosa. Chefiados por um mais velho aprendiam como se fazem as coisas.Cozer o pão,dobrar a roupa.Trabalhar na lavandaria.Cortar mato,sempre tudo com muita alegria.Escrevi algumas vezes no periódico O Gaiato sobre os pobres que habitavam nas imediações e que vizitava ao fim de semana sempre com uma oferta.Açucar,massa,arroz.Nas férias cuidava do jardim,cortava as sebes e gostava do que fazia.Jogava a bola no recreio,após almoçar.Aprendi a lavar a loiça e a cozinhar.Alguns meus colegas gaiatos aprenderam uma profissão lá dentro.Ao fim de semana,quando o Paredes jogava chefiava um grupo de mais novos para ir ao futebol.Tínhamos entrada de borla.As pessoas gostavam de nós.Havia disciplina?Havia.Quem fizesse asneiras era castigado?Sim.Mas não cortavam o pescoço á vítima.Aqui,em minha casa,quando o meu filho fazia asneiras levavas umas lapadas. Hoje,surpreendentemente,agradece-me.É verdade que os critérios educacionais evoluiram.Na escola já não há palmatória de quatro olhinhos.Visito de vez enquando aquela obra e emociono-me ao longo daquela avenida que tantas vezes varri.Aquela piscina onde ao sábado e ao domingo de tarde tomava umas banhocas!!!!!!Muito daquilo que eu hoje sou devo á Casa do Gaiato de Beire.Visitem a Casa do Gaiato. A sua obra continua.Agora também em África.Vejam no yotube os videos de Príncipes do Nada, com Catarina Furtado.Henrique Teixeira Luís 66 anos de idade. hetelu@hotmail.com.Bom Natal


  7. É, agora as crianças ficam traumatizadas de lavarem um prato ou derem de comer às galinhas. Se não ficarem agora ficam depois, quando casarem e não tiverem mãezinha que faça tudo. Depois admiram-se da taxa de divórcios.

    • Henrique Luís says:

      Há já algum tempo que saltou para os jornais uma polémica pelo facto de um sacerdote,no seu papel de educador,terá dado uma “galheta” num miúdo da instituição.Se bem me lembro,o rapaz veio cá para fora a chorar “baba e ranho” e terá falado com um suposto redactor,daqueles que não percebem nada do assunto e tem necessidade de arranjar notícias,para no seu periódico colocar em letras “garrafais” e naturalmente venderem o papel.Parece que a Seg.Social ficou muito preocupada com a situação e partiu para as diligências investigatórias.A que conclusões chegou não sei.Parece que não as publicaram.Ora, notícias recentes, alguém ligado á Casa do Gaiato, terá feito saber ás pessoas que actualmente a Seg.Social deixou de enviar miúdos para aquela obra.Não sei porquê.Não sei dos seus receios.Posso-vos garantir e com alguma emoção envolvida eu tenho muitas saudades da casa do Gaiato de Beire.Da praia que frequentava ali,na Azurara.Das tratantadas que fazia aos mais pequenos, de noite vestido, de fantasma.Só lá estive dois anos.Dos 16 aos 18 anos.Quando saí chorei por deixar os meus amigos.Ando com uma enorme vontade de dirigir uma carta ao sr. Secretário de Estado da Seg.Social, dr. Marco António Costa, de Vila Nova de Gaia,ou ligado aquela Câmara Municipal,pedindo que me esclareça o porquê da postura da Seg.SOcial,acima relatada´.Já alguém, da oposição, me disse que andam muito ocupados com os problemas que a troika quer ver resolvidos.Logo não tem tempo para se ocuparem destas coisas.Quem sabe se os serviços de apoio do snr. secretário não lerão estas minhas palavras e não irão de imediato esclarecer-me.Até tenho,próximo dele, um amigo laranja,que comigo se pica no facebook.Vou aguardar.Bom Natal

      • leife says:

        QUATRO ANOS DEPOIS A BESTA DO PADRE VAI A JULGAMENTO……O ESTADO DEVIA FECHAR DE VEZ ESTAS CASAS DO GAIATO…

  8. MARIO says:

    PRIMEIRO ESSA NOEMIA DEVIA TER RESPEITO PELOS JUDEUS MORTOS NA 2 GUERRA.SOU DESCENDENTE DE JUDEUS RESPEITO .SENHORA SE LHE POSSO CHAMAR ASSIM .SEU VERME

  9. MARIO says:

    PARA OS PADRES DA CASA DO GAIATO! UM OBRIGADO EM NOME DE TODOS OS CIDADAOS DE BEM EM PORTUGAL E NO MUNDO .ESTAS POBRES ALMAS DEDICARAM TODA A VIDA A TROCO DE NADA AOS GAIATOS .E QUE DO IMPOSSIVEL FIZERAM PAIS DE FAMILIA TRABALHADORES RESPEITADOS POR TODOS VIVA OS GAIATOS E CASA DO GAIATO


  10. apenas um testemunho, que reitera o apreço pela educação recebida na casa do gaiato, onde me fiz homem de bem…

    Conheço muito bem a vida quotidiana das Casas do Gaiato. Fui educado na Casa do Gaiato, em Paço de Sousa, de 1959 a 1975, mantendo ainda ligação à Obra da Rua. Tive oportunidade de acompanhar o crescimento de muitos dos rapazes, sendo voz amiga aos seus desabafos, partilhando os anseios e angústias dos padres da Obra. Não nego que, a exemplo do que acontece desde sempre em todos os internatos, não haja casos pontuais de alguma prepotência dos mais velhos sobre alguma criança mais pequena. Mas, quando esses casos são detectados, os protagonistas são devidamente castigados quando a gravidade do caso o justifica.

    Reconheço que a vida nas Casa do Gaiato não é fácil – para os filhos deserdados e sem família, que conhecem o sofrimento e o sabor da miséria, a vida na cidade é bem mais amarga -, mas da minha vivência como gaiato ficaram valores éticos e princípios de vida que me são muito gratos – solidariedade, justiça social, liberdade, entre outros. Ficou ainda o gosto pelas artes, pela literatura, pela música, pelo desporto e um humor quase perverso de encarar a vida.

    Não resisto deixar o testemunho de um percurso que, eventualmente, vos poderá ajudar a melhor compreender a importância da Obra da Rua e a abnegação dos que dedicam a vida para concretizar um dos sonhos de Pai Américo – “Fazer de cada rapaz um homem!”, o que seria impensável se, como refere o incongruente Relatório de uns burocratas da Segurança Social, o “vive-se um clima de isolamento, repressão e clausura e abundam o trabalho, a disciplina e os castigos” fosse verdade.

    • Filho de uma prostituta profissional, sem tempo e afecto para aos filhos, fui para a Casa do Gaiato, em Paço de Sousa, em Fevereiro de 1959. Pai Américo tinha morrido há cerca de dois anos e meio, mas a sua presença ainda estava presente no espírito de todos os “gaiatos” da altura, o que era natural – quase todos os rapazes abandonados das ruas do Porto conheciam esse bom Padre que a morte surpreendeu estupidamente, após o despiste do pequeno Morris preto, ocorrido em S. Martinho do Campo.

    • Como tinha 9 anos e andava na 3ª classe, fui trabalhar para o grupo da “lenha” – rapazes com menos de 10 anos sob a direcção do “Sô Jaquim”, um velho cego de bom coração e gargalhada fácil, mas austero como era comum na época – a quem cabia todo o serviço de limpeza da aldeia, entre outros trabalhos de pequena responsabilidade.

    • Com 10 anos e feito o exame de 4ª classe – na impossibilidade de continuar os estudos, como queria – fui trabalhar para a vacaria durante quase 3 anos – cortar erva, limpar as cortes, mungir vacas e dar de comer ao gado era as principais tarefas.

    • Com 12 anos fui estudar para o Porto. Ao fim de um ano, como a vadiagem se tornou uma realidade, regressei de castigo à aldeia – mais três anos de trabalho na lavoura, que reforçaram a paixão pela vida campestre.

    • Aos 16 anos fui aprender o ofício de tipógrafo-compositor, profissão que exerci durante alguns anos, depois de feito o trajecto de aprendiz a mestre, com a responsabilidade de, durante mais de dois anos, compor e paginar “o gaiato”.

    • Com 17 anos fui escolhido para chefe. Dois anos depois, fui eleito chefe maioral da Comunidade – foi a aprendizagem da democracia.

    • Pouco depois de terminar o serviço militar, na Armada, fui trabalhar como “linotipista” na Empresa do “Jornal do Comércio”, onde fiquei até fins de 1979. A grave crise que afectou o sector gráfico obrigou-me a procurar novo emprego. Concorri a dactilógrafo na EDP-Electricidade de Portugal, passando depois a escriturário. Entretanto, como trabalhador-estudante, fiz uma licenciatura em Política Social e uma pós graduação em Marketing.

    • No momento – casado e pai de uma filha, também licenciada e pós-graduada -, sou quadro superior numa grande Empresa do Grupo EDP, responsável pela Formação e Desenvolvimento, na Direcção de Recursos Humanos.

    Como podem compreender, a Casa do Gaiato ajudou a fazer de mim um homem, inquieto e contraditório, atento aos problemas sociais, que sente satisfação em afirmar que muito do que é o deve ao facto de ter sido “gaiato”!

    A Casa do Gaiato não fez tudo, mas “preparou a terra e lançou a semente…”

    Para finalizar, devo dizer que Pai Américo – cuja Obra evita que muitas “crianças da rua” se tornem delinquentes -, continua a ser para mim uma referência ética e pedagógica de relevo.

    Seria bom que cada um fizesse o seu trabalho com honestidade e rigor, evitando preconceitos e chavões pedagógicos que não asseguram um futuro melhor às crianças que encontraram uma família – com as virtudes e as fraquezas de qualquer família – nas Casas do Gaiato!

    Manuel-António

  11. Santana says:

    Só agora vi, só agora respondo.
    Em poucas palavras respondo à Sr.ª de seu nome, Noémia Pinto.
    A Sr.ª deve ser muito revoltada!!! Não sei se terá nascido em berço de oiro, ou vivido em alguma barraca mal amanhada. Se na primeira situação, não deve ter sido bem tratada, pois mostra ser uma pessoa… melhor é não dizer…. se tem filhos… terá? não sei que educação lhes terá dado. Mas existam eles… coitados, não têm culpa…
    Se na 2.ª,situação, teria tido bem mais sorte em frequentar uma das casas do Gaiato. Estou certo, hoje não teria motivos para para infundadamente, atirar para o papel letras de texto tão descabido.
    Dona Noémia, com conhecimento de causa, lhe digo eu, pois de casa tenho muitos anos, sim eles são já, 52, portanto conheço o passado bem como o presente pois com eles ainda lido. E lhe digo, do maior ao mais pequeno, todos se dão bem comigo. coisa verdadeira…. se é que entende isso.
    Já agora, para que a possa ajudar a ficar mais bem informada, lhe falo da minha pessoa. Quem era eu? Eu não era nada. Mas aprendi dentro desta casa tudo quanto hoje sei. Aprendi a fazer muitas tarefas. Não preciso de quem me façam a comida… sei lavar, cozer, passar entre outras coisas. Muitas mulheres não o sabem. Nem lhe pergunto se o sabe.
    A Casa, não são só as paredes que a rodeiam…. veja quantos todos os dias por lá passam a pedir ajuda. E mesmo fora, temos situações em que é a casa a assumir as coisas… Veja o caso de Moçambique…
    Também aprendi uma profissão, estudei., constitui família e criei um casal.
    Como Gaiato, minha educação não deve ter sido assim tão má. Minha filha tirou direito, ele, entre outras, Sociologia….
    Felizmente, a Casa do Gaiato, ainda tem muitos amigos…. com o nosso modo de viver, e com nossos amigos com seus gestos materiais ou afectivos, de certo modo, a casa também se torna um pouco sua…

    É por essa e por outras, que hoje vemos na sociedade o impensável acontecer. É em lares, escolas, nos transportes, é em qualquer sítio… Não será necessário entrar em pormenores pois não?
    É por haver gente como a Sr.ª com esse tipo de “paleio”, que as coisas “descambam”. e a sociedade está como está, e mais não digo.
    Dediquei-lhe de muitos anos, apenas alguns minutos… veja o que lhe poderia dizer…
    Seja portanto, Feliz.

  12. Maria says:

    Uma simples frase: As casa do Gaiato são muito ricas à custa da miséria das crianças que desde tenra idade realizam trabalho escravo, são maltratadas, vitimas de abusos sexuais. Fechem-nas!!!!

  13. luisa Juiz says:

    Quanta barbaridade se escreve. Talvez pessoas vitimas de maus tratos se tornem imunes a maus tratos, e percam qualquer discernimento. Q anormalidade. Como se não se soubesse a maldade que existe nessas casas com os seres mais indefesos deste mundo, a troco de dinheiro do estado. Quantas noticias de suspeitas e investigações, que nunca mais desvendam a verdade horrorosa que habita nessas casas de terror. Talvez alguns sejam protegidos e consigam chegar aos dias de hoje de boca cheia e vida completa, SORTE A VOSSA. SORTE A VOSSA. De não serem os escolhidos para serem vitimas de maus tratos e abusos! Incrível como o Estado se desresponsabiliza totalmente, entregando estas instituições a qualquer pessoa, sem existir uma avaliação rigorosa e exaustiva do projecto pedagogico, do dia-a-dia destas crianças e da gestão do dinheiro que é “injectado”. O Estado alimenta estes monstros, que têm nas suas mãos crianças orfãs, sozinhas no mundo, vitimas de vidas injustas e madrastas. Histórias macabras, que esta justiça medíocre teima em não resolver – como o grande psicopata Pe Baptista de Beire que leva 3 míseros anos de prisão, por ter TORTURADO pessoas indefesas durante 9 anos. Perpétua era o que merecia e que alguma alma, tivesse a criatividade de lhe fazer o mesmo que ele fez às suas vitimas, o resto da sua vida. Mas aos poucos, o povo vai fazendo justiça pelas próprias mãos e aos poucos havemos de salvar todas estas queridas crianças, sem culpa nem protecção. Vamos todos ajudar a acabar com estas casas de terror. Podem ter a certeza, que muitos de nós vamos arregaçar mangas para limpar esta corja.

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