A coragem política

Diogo Freitas do Amaral disse na entrevista que deu ontem à TVI24 que “o CDS-PP não tem coragem política.” Tenho ouvido demasiadas vezes essa acusação dirigida ao CDS-PP, como se fosse muito normal, uma consequência natural da acção governativa, não ter coragem política, neste caso para se chegar à frente e assumir divergências votando contra, dizendo basta, num compromisso claro com a ética, e sobretudo com o povo, para cujo sofrimento o CDS-PP está a contribuir de forma aviltante, desonrosa para gente nascida e criada nos valores da democracia cristã. Mas afinal quando se não nos momentos difíceis da vida política se espera coragem política dos políticos?

Comments

  1. Konigvs says:

    Coragem na política?
    Qual a área onde as pessoas têm menos voto na matéria senão na política? O que é um deputado senão um pau mandado que levanta o braço quando lhe mandam e abre a boca se e só se lha deixarem abrir?
    Coragem é o quê? Mentir descaradamente em campanha eleitoral sabendo que se está a mentir e se por mero acaso se chegar ao poder vai-se fazer exatamente o oposto?
    Coragem e política não se fizeram um para o outro. À medida que o poder se aproxima a coragem subitamente diminui.Até o tom de voz muda. Era ver o Portas a falar grosso antes das eleições, agora que está com as mãos na massa, pia baixinho, parece um menino em primeiro dia de escola que não tem amigos com quem falar. Tudo ensaiado ao mínimo detalhe.
    Política é cobardia e não coragem.

    • Sarah Adamopoulos says:

      Não, política não é isso que diz. Isso é conversa de quem se abstém de votar acreditando estar no bom caminho. A História das ideias políticas está cheia de gente corajosa, que lutou e muitas vezes morreu por elas.


      • Eu, a esses, os da coragem, da luta, da morte pelos ideais, chamar-lhes-ia militantes de causas, idealistas. A política deixou de ter causas, por mais que concorde consigo quando nos coloca perante a História das ideias políticas. Só que, como nós que vamos perdendo tanta coisa ao longo da vida, a política foi perdendo os valores no decurso da história.
        Ficou-lhe o pragmatismo, palavra com que mascaram a ausência de causas, de ideias, ideais, valores.
        Ademais, Diogo Freitas do Amaral, por muito que doa a muita boa gente o que afirmo, não é um bom exemplo de coragem ou coerência.

        • Sarah Adamopoulos says:

          A política, como a concebo, e sabendo que não estou sozinha nessa forma de encará-la, faz-se ainda de ideais – independentemente de quem vai nesse outro sentido que gerou o derrotismo das suas palavras, a abstenção, o laxismo – essa tolerância feia -, a passividade. Ideais são ideias para concretizar, nas quais se acredita, não por fé, que essa é outra matéria, mas por convicção, porque se aspira a melhores valores, pelos quais se está disposto a lutar. Não foi a política que perdeu o rumo, foram os homens e as mulheres que escolheram (porque de uma escolha se trata) isso a que chama pragmatismo, em detrimento daquilo para que a política serve.

          • MAGRIÇO says:

            Estou consigo Sarah! Pelo facto de haver mixordeiros não se pode negar a existência de boa cozinha. Infelizmente a política foi tomada de assalto por indivíduos sem escrúpulos que não olham a meios para conseguir os seus fins, e o pior é que isso se está a afirmar como regra, quando devia ser uma efémera excepção.
            Hoje o mundo está a ser governado por uma máfia que inverteu o objectivo da política, sonhando pôr os povos ao serviço da sua economia, quando deveria ser o inverso. Até quando vamos suportar isso?


          • Claro que não está sozinha, Sarah!
            A Sarah tem causas, ideais, convicções, não nego. E, como a Sarah, há uma legião de pessoas que ainda acredita.
            Mas seria um bom princípio, para que essa luta desse certo, não ceder à tentação de chamar laxistas ou abstencionistas àqueles que têm da luta política ideias diferentes e afastar uma certa crispação quando mexem nos seus gurus ideológicos. Ao entrarmos por aí, perdemos credibilidade. E somos facilmente trucidados pela máquina do marketing do arrivismo político, que se serve dessa agressividade para afirmar, com ouvintes e seguidores, que, os que lutam contra o sistema, o fazem porque querem destruir a democracia, o sistema democrático, recriando uma nova ditadura, dita de esquerda.
            Temos de atacar o sistema, não frontalmente, mas sendo guerrilheiros. O sistema político tem fragilidades, mas nós, contentes com algumas liberdades, nunca soubemos aproveitar a vantagem moral para a transformar em pequenas vitórias consolidadas. Esquecemos depressa o que se fez antes de 74 para minar a ditadura. Foi uma luta de décadas, mas que deu resultados, exactamente porque se falava pouco em público mas se fazia muito na calada das trincheiras. Não no conforto da liberdade, mas no frio da perseguição.
            Foi o que reaprendi mais tarde com os movimentos de libertação. Vi como eles combatiam e com que armas, se é que poderíamos chamar armas a alguns canhangulos que ainda utilizavam perto do final da luta armada pela libertação.
            O actual sistema político, com a falta de vergonha que se lhe conhece, perdeu o medo ao barulho, que vale o que vale: muito pouco.
            A verdadeira refundação do estado tem que passar por nós. Mas não é com crispações entre aqueles que lutam por um ideário comum, ainda que nem sempre da mesma forma. Isto, eu aprendi em quase três décadas de experiência diária em estruturas de trabalhadores, quando, por exemplo, um administrador, nomeado pela tutela política, de um dos maiores grupos nacionais referia, com o melhor dos sorrisos, que até podíamos ter razão. Se a tínhamos, fôssemos para os tribunais. Com a morosidade da justiça, se os tribunais viessem a dar-nos razão, ele já estaria reformado. E estava, mas nós vencemos. Custou a alguns marcar passo na carreira, mas valeu a pena no final. Porém, se cada um tivesse lutado por si, sem unidade e coesão, não teríamos conseguido.
            Com esta massa de responsáveis, a luta tem de ser outra! Infelizmente, já não se vai lá com palavras.


  2. Pode retirar a palavra “coragem” do título. O CDS não tem política, isso sim. O lema deste CDS de Portas & Cia é sempre o mesmo: tentar encontrar a melhor forma de enganarem o povo para chegarem ao poder. Eles lutam pelo poder em si, sem qualquer intenção de fazer algo de bom com esse poder!

  3. Sarah Adamopoulos says:

    Não quis dizer que o Armindo se abstém ou que é laxista. Quando escrevo aqui, espaço público, escrevo sobre todos, e muitas vezes sobre a generalidade. Não quis particularizar, muito menos falar de si. Dizer-lhe, também, que não tenho gurus ideológicos, embora perceba o que quer dizer. E sim, concordo que os combates políticos requerem mais do que isto que aqui fazemos, ou nem sequer isto de todo, num tempo em que a palavra efectivamente pouco significa. Mas a palavra, que é acção, tem outras qualidades, e é com os olhos postos nelas que prossigo lendo e escrevendo. Sou uma idealista, mas não tenho nenhum problema com isso, muito pelo contrário.


    • Eu também sou idealista. E, porque acredito que os idealistas por vezes se excedem, deixemos, então, as palavras temperarem para a acção, sem nos perdermos neste toma-lá-dá-cá com que os inimigos comuns se comprazem, gulosos, porque, enquanto andamos pela dialéctica, nos perdemos muitas vezes. Mas concedo que, sem palavras, a acção não se concretiza: concordo consigo. As palavras são também uma arma, tantas vezes única para tantos.

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