À atenção do filho da puta

Mais um dia de despedidas no Centro Infantil de Valbom. Como se sabe, a instituição foi privatizada e entregue à Cruz Vermelha, que logo que pôde tratou de se livrar de tudo o que cheirava a passado. Não descansaram enquanto não correram com quem incomodava.
Desta vez, chegou a hora das educadoras de infância, que há mais de 30 anos, geração atrás de geração, abraçaram, beijaram e amaram os nossos filhos. E ao vê-las chorar no momento da despedida, também não consegui evitar as lágrimas e pensar em tudo o que fizeram pelas minhas meninas nos últimos dois anos. Porque quem faz o bem às minhas filhas tem a minha gratidão eterna.
O trabalho de mentalização vinha feito de casa e se com a mais velha resultou – «depois a Imelda vem visitar-nos!», dizia com alegria – com a pequenina as coisas foram diferentes. Sem a Paula dela, com quem estava todos os dias, a quem tanto se afeiçoara, não quis ficar. Queria vir comigo. Mal conhece a nova educadora e, para uma criança de 2 anos, ser deixada pelo pai no meio de caras estranhas deve ser algo que um adulto não consegue imaginar.
Mal sabia a pequenina que a sua Paula estava lá dentro a chorar, por causa da despedida e por causa das injustiças dos pais que durante anos lhe confiaram os filhos. E mal sabia a mais velha que não voltará a ver a sua Imelda, pois agora que conseguiu livrar-se delas, a Cruz Vermelha, instituição dita de solidariedade social, a última coisa que permitirá é que elas voltem a pisar o lugar que foi seu durante décadas. O lugar que É seu por direito próprio.
No dia em que se fizer a história do Centro Infantil de Valbom, esta fase que agora termina estará em lugar cimeiro. Fará parte dos momentos mais brilhantes da instituição. E da fase que agora se inicia, a de uma instituição dita de Solidariedade Social, suponho que nada constará. Uma nódoa negra que só a muito custo se conseguirá apagar. Pela minha parte, não pretendo fazer parte dessa nódoa.

P. S: – Podes ter-me mentido descaradamente durante a campanha eleitoral, podes ter-me descontado no ordenado, podes ter-me roubado os subsídios e a qualidade de vida que tinha, podes insultar-me todos os dias sempre que sais à rua com essa cara de pau, fronha bafienta e salazarista. Mas não podias afectar directamente as minhas filhas da forma que o fizeste. Roubando-lhes aquela base, aquela basezinha que todos os dias encontravam pela manhã quando eram deixadas pelos pais. Isso nunca te perdoarei. Filho da puta.

Comments

  1. henrique luis says:

    Moro perto da Cruz Vermelha, aqui no Porto.Costumo contribuir para a mesma.Diga-me o que tem eles a ver com este caso?


  2. Com todo o respeito, repito solidário contra o algoz das crianças: Filho da Puta!!!!


  3. Meus caros, com o devido respeito, vocês são mesmo muito ingénuos!

    Desde quando é que os valores, os princípios e os afectos estão à frente dos ignóbeis e abjectos interesses politico-partidario-economico-fincanceiros?


  4. Começar discurso com FDP, dramatizar as emoções (naturais) das crianças perante a mudança, e terminar praguejando não contribui grandemente para esclarecer questões de fundo. Neste mundo, uma organização que obtém a responsabilidade de gerir algo, tem todo o direito a criar a sua própria equipa. Ainda que naturalmente isso implique danos colaterais. Coisa que é dramática para uns e desagradável para outros. Não tenho registo de que a Cruz Vermelha tenha “lastros de barbaridade” no seu passado. Não obstante, existe o “fenómeno” contas e custos, algo que no mundo real (mais uma vez), convém ter sempre em conta… Todo o benefício tem um custo que alguém tem de o pagar.


    • “Não tenho registo de que a Cruz Vermelha tenha “lastros de barbaridade” no seu passado.” Pois não tem, não, caso contrário veria as coisas de outra maneira!

      “Todo o benefício tem um custo que alguém tem de o pagar.” Desde que não seja V. Exa. ou os seus a pagá-lo, não é verdade?”

      Pimenta no “assento” dos outros é refresco!


  5. Cara Isabel, imagine um cenário em que a discussão (seja do que for) se faz com recurso sistemático ao insulto e “FDPutismo”.
    Imagine um cenário em que os nossos desejos individuais sempre se sobrepõem ao interesse colectivo e ao possível (de pagar)!
    E depois, nós, os que temos internet, e gostamos de escrever umas coisas, vimos para aqui lamentar as nossas pequenas mágoas, quando temos na dobra da esquina um País de fome, de desemprego, de velhos esquecidos e sós. De pobreza e miséria… E esse, é o País real, que é também um País que não tem voz!
    A realidade é essa, sabe? A democracia desenvolveu-se mal e não chegou a todos… A esquerda antiga, a que se bateu “contra a burguesia”, aburguesou-se, manteve a generosidade emocional da reivindicação, criou “folclore” e clichés (e preconceitos), mas ausentou-se completamente do país real, o que mais sofre, o que poucos reconhecem ou defendem… Perdeu a iniciativa progressista, a qual em certos aspectos (num paradoxo incompreensível), passou para “certa” direita…
    E é graças a esse “legado” egoísta duma certa “classe média esquerdista”, alimentada pelo Estado, que tem de ser entidades como o FMI a dizer-nos que somos um País com diferenças abissais e iniquidades profundas…
    Infelizmente nem toda a gente compreende que o mundo não é apenas preto e branco…
    Peço-lhe por favor que não leve a mal o desabafo. Ele é, em certa medida, uma prova de profunda decepção. E algo que vai além do texto em questão, o qual, do ponto de vista individual compreendo.

    • Paulo Sarnada says:

      Sr Luis,
      Não vejo que haja uma relação estreita entre o que aconteceu em “Valbom” com a entrega da gestão do infantário à CV e o texto de um pai que não aceita que uma “gestão solidária” desempregue edicadoras para empregar outras com uma esquerda antiga que se aburguesou.
      Se for pai e educador percebe que os filhos são os seres mais importantes.
      Tirar-lhes as pessoas com que m se relacionam todos os dias sem uma preparação ou explicação é desumano.
      À semelhança do outro senhor do banco, ironizarei:
      Se as crianças aguentam!? Ai aguentam, aguentam…
      O pai que escreveu o texto tem a minha compreensão e a minha compaixão e direi como ele: FDP.
      P.S. A CV é uma instituição não está em causa a sua missão. Quem quiser que lhe tome o gosto.
      A propósito: É de solidariedade social!? Quando pobres ou classificados como tal, estão nos seus órgãos dirigentes? Então ela não deve apelar à participação deles para mudarem?
      Teriamos muito para dizer ou perguntar.
      Balelas…
      Fazer solidariedade com o dinheiro dos outros é muito lindo…
      Não sou da esquerda antiga que se aburguesou.
      Sou trabalhador com trabalho, por isso sou burguês…
      Lendo a enciclica do Papa Sollicitudo Rei Socialis perceber-se-á que tudo transitará. Todos nós trasitaremos. Tudo fica cá e nada nos pertence.
      Muitos merdas ainda não perceberam isso.
      Perdão pela linguagem.
      Passem bem.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Vai manter a mesma opinião quando a Cruz Vermelha subir de forma dramática as mensalidades mesmo dos mais pobres, como já avisou que vai fazer? Quando os pobres deixarem de poder ter lá os seus filhos? Não, isto é muito mais do que uma questão pessoal.

    • Nascimento says:

      “Infelizmente nem toda a gente compreende que o mundo não é apenas preto e branco”
      Ai pois não. A começar por aqueles que nos tentam vender uma imagem de educadinhos, do tipo: “tenham paciência” é a vida,…olha, são “danos colaterais”!!!.
      Como eu os “entendo”.Foi de certeza a “esquerda aburguezada”, que construio o edificio de merda em que assenta o regime!!! ÓH Ulrichezinho, explica aqui ao Luis, tá???LOL…


  6. Caro Luís, acho que há aqui alguma confusão. Tentando pôr um pouco de ordem, analisemos a coisa ponto por ponto:

    1. O uso do calão tem, a meu ver, duas vertentes: a vertente da utilização pontual em situações de revolta, choque, ira, etc., e a vertente de utilização devido à falta de educação, de cultura. Obviamente, neste caso, o Ricardo usou-o numa nítida e gritante revolta. Parece-me por isso que este ponto nem sequer tem discussão.

    2. Quanto às “esquerdas” e às “direitas, venha o diabo e escolha. Os partidos sempre desempenharam o seu ignóbil papel da mesma maneira ao longo do tempo: sobrevaloriza-se o partido, manipula-se o militante, anestesiam-se e esmagam-se as massas, mais ou menos, conforme os interesses pontuais e, entre acusações, contradições, mentiras e palmadinhas nas costas, esquecem-se as gentes e os seus reais problemas, estes, muitas vezes, de sobrevivência. Os partidos não são mais do que marionetes ao serviço de um poder maior. Não se trata aqui também, parece-me, de um problema partidário.

    3. Finalmente, chegamos ao ponto fulcral da questão, pelo menos tal como eu o vejo: as pessoas comuns, nelas incluídos adultos e crianças, são meros piões de um gigantesco tabuleiro de xadrez. Representemos a realidade por uma pirâmide. No topo está a minoria “desconhecida” que verdadeiramente está ao leme dos destinos do mundo. Em sentido descendente, os outros patamares vão sendo preenchidos com os poderes que agem de acordo com as directivas do topo (os países, os partidos, as grandes organizações de todos os ramos, etc., etc.). E finalmente, na base, estamos todos nós, os que somos dirigidos, programados, formatados e manipulados, o sustentáculo de toda a tenebrosa maquinação. E é aqui, na base, que ainda subsistem alguns valores, princípios e sentimentos. É aqui que o ser humano verdadeiramente sofre. E, para mim, qualquer grito de revolta, aqui, na base, é irrefutavelmente legítimo.

    Caro Luís, claro que não levo a mal o seu desabafo. Afinal, trata-se da sua opinião e tem todo o direito a ela, tal como o Ricardo tem direito à dele e eu à minha!

    Deixo uma pergunta no ar: como serão as futuras gerações, se as nossas crianças são tratadas como peças de xadrez e movimentadas ao sabor de interesses politico-partidario-economico-financeiros?

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