Grafias duplas e uniformização ortográfica


Lúcia Vaz Pedro é professora de Português e formadora do acordo ortográfico. Declarando estar ciente de que há, ainda, muitas dúvidas acerca do novo acordo ortográfico, promete dedicar o mês de Agosto a esclarecer “as questões mais problemáticas sobre esse assunto”, começando “por abordar a supressão das consoantes mudas”. Vale a pena acompanhar o esforço da articulista.

No segundo parágrafo, afirma que a dita supressão é a “maior alteração na ortografia da língua portuguesa, na variante lusoafricana [sic]”. Para além de existir um problema grave na solidez dos alicerces legais que sustentam a aprovação do chamado acordo ortográfico (AO90), a verdade é que, nos países africanos lusófonos, não está a ser aplicado. Conclui-se, portanto, que, na realidade, as alterações incidem, apenas, na variante lusa, sem a companhia da africana. De qualquer modo, seria bom que uma professora de Português, ainda mais se formadora do acordo ortográfico,  soubesse que, com ou sem AO90, se deve escrever luso-africana. Sim: com hífen.

A seguir, faz referência à possibilidade de haver duplas grafias, dependendo da “oscilação da pronúncia”, o que tornou possível o surgimento de oscilações ortográficas, no caso de palavras como espectador e sector, entre muitos outros exemplos. No mesmo parágrafo, aparentemente a propósito, recomenda que devemos ter presente a ideia de que “tendo cada variante a sua pronúncia, deve seguir-se a respetiva [sic] grafia.” Pela mão de Lúcia Vaz Pedro, estamos, mais uma vez, prestes a confirmar que o AO90 não trouxe uniformização ortográfica.

Lúcia Vaz Pedro explica, então, que é este critério que leva a que os brasileiros continuem a escrever “recepção” e os portugueses passem a escrever “receção”. Do mesmo modo, os portugueses conservarão o P em “corrupto”, enquanto os brasileiros escreverão “corruto”. É por estas e por muitas outras que teria sido possível continuar esta série ad nauseam.

A autora termina, afirmando que “o Acordo Ortográfico de 1990 teve como finalidade reduzir ao mínimo possível as diferenças existentes.” Reconhece, portanto, que continua a haver diferenças, o que já é um princípio.

Confirma-se, assim, uma crença do acordismo: a partir do momento em que haja um critério considerado uniforme e relacionado com ortografia, passa a haver uniformização ortográfica. Não importa, para o caso, que continue a haver grafias diferentes ou que nasçam diferenças anteriormente inexistentes. Trata-se de uma situação em que a invenção de um diploma alegadamente legal é suficiente para fazer de conta que a realidade mudou e que, agora, há uma ortografia única.

Entretanto, Fernando Cristóvão, Evanildo Bechara e outros apóstolos da religião acordista, contradizendo, aparentemente, Lúcia Vaz Pedro, continuam a afirmar, por exemplo, que a ortografia está tão unificada que não existirão diferenças entre textos produzidos em qualquer um dos cantos da lusofonia. Leia-se, a propósito, o que declarou Bechara: “Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma.”

Será que, face a estas afirmações do linguista brasileiro, Lúcia Vaz Pedro irá sentir-se traída? Quando Bechara afiança que “a língua portuguesa será grafada de uma só maneira” estará a querer dizer que, afinal, não poderá haver diferenças entre recepção e receção, não podendo, portanto, existir diferenças mínimas possíveis? Ou será que admitir que uma palavra possa ter grafias diferentes em diferentes países é o mesmo que dizer que há uma grafia única?

Lúcia Vaz Pedro limita-se às habituais falácias da seita acordista, sem uma palavra para os vários erros que começaram a surgir depois do AO90, sem uma reflexão sobre o valor diacrítico e etimológico de muitas das consoantes suprimidas e sem alcançar a simples constatação de que o AO90 é uma coisa completamente inconsistente.

Nada de novo, portanto, na galáxia do acordismo, esse composto de incoerências e leviandade.

Comments

  1. Bechara não é idiota, sabe bem que o que diz não é possível com o texto do acordo e exprime o objectivo final – conhecido apenas de alguns: a total subjugação do português à ortografia brasileira. Só isso permite explicar que, por exemplo, os “fatos” do Diário da República de Portugal não sejam objecto da devida rectificação.
    A explicação de Vaz Pedro um estadio intermédio de preparação para os profanos, sendo possível que essa subjugação seja completada com uma aparente concessão a Portugal nas consoantes que os brasileiros conservam.
    Será difícil combater eficazmente o acordo ortográfico enquanto se escamotear a identidade dos seus proponentes e os métodos da execução da sua imposição.

  2. felix says:

    Que desgraça! E não digo mais nada.

  3. João Galizes says:

    Este é mais um excelente texto onde podemos constatar as incongruências da uniformização ortográfica.
    Duplas grafias são coisas que não preocupam os portugueses, pois são muito solícitos a “adatarem-se” a qualquer inovação, de preferência que não seja nacional, faz parte do nosso “know-how” mostrar que estamos sempre no “timing” certo da evolução e que não somo meros “espetadores”. Tenho ouvido alguns portugueses dizerem “fato”, “indenização”, “contato” e até há por aí “adetos” do AO90. Poderemos ver que, em breve, e à parte as barbaridades que andamos a inventar, iremos conseguir eliminar com muita facilidade as duplas grafias que andam, por aqui, a incomodar a ortografia única!

  4. Filomena Cardoso says:

    grafias duplas existentes: agrafo / agrafe; agridoce / agrodoce; aliciamento / aliciação; alvoraçar / alvoroçar; ameixieira / ameixoeira; amolgadela / amolgadura; aquicultura / aquacultura; assassínio / assassinato; assimptota / assímptota / assíntota; assobio / assobio; asteroide / astroide; bêbado / bêbedo; boroa / broa; cálix / cálice; códex / códice; computorizado / computadorizado; covarde / cobarde; debotar / desbotar; desprezável / desprezível; dezassete / dezessete; doravante / de ora avante / equipa / equipe; ervanário / herbanário; estratega / estratego; fêveras / febras / fevras; glucose / glicose; gole / golo; guedelha / gadelha; impacto / impacte; inapto / inepto; lagrimejar / lacrimejar; lida / lide; louça / loiça; lousa / loisa; lustre / lustro; magnata / magnate; mouro / moiro; murmuro / murmúrio; nevrite / neurite; nevrose / neurose; ouço / oiço; pascal / pascoal; pequeneza / pequenez; perca / perda; radioativo / radiativo; ranhoso / ronhoso; registado / registrado; repertório / reportório; rutura / rotura; síndrome / sídroma; taxionomia / taxinomia / taxonomia; terremoto / terramoto; touro / toiro.

    • David Silva says:

      Alguns casos são duplas grafias que coexistem no português (luso, pelo menos); outros, são mesmo erros e apenas uma das palavras está correcta…

    • Filomena,

      Eu procurei no dicionário (http://www.priberam.pt), e eis os meus achados:

      – agrafe não existe como substantivo, que é o que agrafo é. Agrafe é a 1ª pessoa do singular do verbo agrafar, no conjuntivo: que eu agrafe…

      – alovoraçar não existe, apenas alvoroçar.

      – equipe é uma grafia brasileira, os portugueses escrevem equipa.

      – de ora avante não é uma locução reconhecida em gramáticas, o mais certo é ser um erro de quem o usa, como quem escreve concerteza em vez de com certeza.

      – dezessete é grafia brasileira, os portugueses escrevem dezassete.

      – ronhoso existe, mas não é um sinónimo de ranhoso:

      ronhoso |ô|
      adj.
      1. Que tem ronha.
      2. [Informal] Malicioso, velhaco.

      – registrado é grafia brasileira, os portugueses escrevem registado.

      – ruptura e rotura têm etimologia diferentes: uma vem do latim ruptūra, a outra vem do português roto.

      De resto, temos de dar a mão à palmatória, duplas grafias já existiam antes do AO. Não conheço aliás nenhuma língua que não as tenha. Mas o que este levantamento me mostra, muitas vezes, é que, apesar de alguma pronúncia variar, a raiz etimológica permanece a mesma. As inflexões mudam, como em assassínio e assassinato, mas a raiz está lá, assim como em murmúrio e murmuro, magnate e magnata, lustro e lustre, e por aí fora. Muitas destas variantes são o resultado de a língua portuguesa ter sufixos morfológicos com o mesmo significado.

      Agora objecto e objeto; uma mantém a raíz (latim objectum) intacta, a outra não. Aqui temos o oposto das grafias acima: a pronúncia é a mesma, mas perdeu-se a etimologia.

      Todavia, devo confessar que estas questiúnculas linguísticas pouco me importam. Para mim a questão é uma e apenas uma: um governo tem o direito de legislar sobre a uma língua? Eu, por razões políticas e éticas, acredito que não. Acredito que há aspectos da vida humana em que o governo não se deve intrometer: sexualidade, religião, e língua. Mas aqui estou a revelar o meu anglofilismo e o meu amor pela tradição liberal inglesa, na qual a língua é um organismo livre que se desenvolve sem interferências oficias e estadistas, alterada apenas pelo uso comum e diário dos seus falantes.

      Por isso, olho com repugnância para qualquer alteração à língua portuguesa provocada por forças exteriores aos falantes.

      Compreendo que a minha posição lhe seja bizarra, Filomena, visto que Portugal, em menos de 100 anos, teve 4 reformas da língua (sem contar com a abortada de 1986, que subtilmente se transformou no AO90). Compreendo que haja uns quantos portugueses para quem isto não seja absurdo e exagerado, mas eu olho para a língua inglesa, que nunca teve uma reforma oficial, e está tudo bem com ela – vital, relevante, língua franca – e por isso não vejo qualquer necessidade de mais um acordo, ou qualquer acordo.

      Resumindo a minha posição: deixem a língua em paz, que ela cuida de si mesma!

  5. Filomena Cardoso says:

    O AO não traz nada de novo. Por que motivo estão vocês a complicar?

  6. Filomena Cardoso says:

    Para um bom entendedor…

  7. Estes textículos do articulista Nabais já metem um bocado de nojo. O pior é que obrigam uma pessoa a deixar de ler o Aventar, não vá calhar mais uma destas bostadas.

    • António Fernando Nabais says:

      Ó Artur, tem tantas escolhas e uma delas é deixar de ler o Aventar. Outra é não ler os meus textos. Também pode pedir ao resto dos aventadores que me expulsem. Ajudei?

  8. Quero eu dizer: eu até nem sou contra o AO. Quem é o Nabais para dizer que faço parte de uma “seita”?? Haja respeito!

  9. Eunice Mota says:

    Nota-se desde o início a má vontade e a parcialidade na análise ao artigo de LVP, o qual desde logo diz que vai tratar de questões supostamente menos esclarecidas durante o corrente mês – ainda assim, o autor acusa-a de não dizer isto e aquilo, em vez de esperar pela série toda. E depois vêm as falácias do costume: que LVP confirma que não houve uniformização ortográfica, e mais adiante que reconhece continuar a haver diferenças (redundância). Primeiro, o autor confunde uniformização de regras com uniformização de grafias. Segundo, o próprio AO reconhece ser impossível uma uniformização de grafias a 100% (desiderato de 1986 que provocou vívida reação contrária) – logo, não se vê a novidade da constatação de LVP. Entretanto, o autor alega o AO não estar a ser aplicado nos países africanos, para criticar uma afirmação de LVP – totalmente a despropósito, pois isso em nada afeta a veracidade dessa afirmação. É mais uma tentativa de deitar areia para olhos incautos! Depois, finge continuar a não perceber que se trata de um normativo único, independentemente de perpetuar algumas duplas grafias e criar umas poucas novas (enquanto elimina muitas mais), chamando a isso “crença acordista”, como se o fenómeno da dupla grafia fosse coisa portuguesa pós-AO e inexistente nas outras línguas! Duplas grafias que irão constar de um vocabulário comum que o AO vai possibilitar, coisa que os puristas da língua nunca se lembraram de fazer. De resto não vejo contradições nem traições: vejo, sim, que o autor do texto não compreendeu o propósito do AO, arreigado como está a questiúnculas semânticas de grafia única vs normativo único. E termina ignorando completamente que LVP vai debater mais aspetos do AO… e indo buscar a falácia recorrente do valor diacrítico e etimológico das consoantes mudas. Finalmente achará ele que se pode partir da conclusão (“o AO é uma coisa completamente inconsistente”) para chegar às premissas? Acho que o autor está a ver o filme ao contrário…

    • António Fernando Nabais says:

      1 – é claro que sou parcial, porque sou contra o AO. A crítica ao texto serve-me, ainda, de ponto de partida para outras questões que não estavam ali a ser tratadas. São opções minhas, evidentemente.
      2 – A regra que dita a supressão das chamadas consoantes mudas é tão clara que não precisa de ser esclarecida: só se escreve o que se pronuncia. O problema é ser uma regra com consequências disortográficas, porque cria duplas grafias que não existiam, para além de ter dado origem, devido ao fenómeno da analogia, a erros que não existiam antes do AO. Além disso, serve para demonstrar mais uma das inconsistências do documento: se o H inicial não se lê, o que está lá a fazer?
      3 – o texto de Lúcia Vaz Pedro não se debruça sobre o facto de o AO não ter sido adoptado nos países africanos lusófonos, mas esse facto é só mais um sintoma de um processo que nasce torto, o que merece referência. Graças à leviandade de brasileiros e portugueses, temos, agora, três ortografias diferentes, por muito que se queira fazer de conta que no Brasil e em Portugal há só uma.
      4 – a Eunice confirma a ideia de que os “acordistas” acreditam que um normativo único é razão suficiente para se dizer que existe uma ortografia única. Questiúncula semântica? Quantos exemplos quer de diferenças ortográficas que se mantêm a acrescentar a outras que, entretanto, surgiram? Facto: a existência de diferenças ortográficas é razão suficiente para se afirmar que existem ortografias diferentes. O normativo único não tem poderes mágicos.
      5 – relativamente à “falácia recorrente do valor etimológico e diacrítico das consoantes mudas”, poderia deixar-lhe aqui uma lista de linguistas que defendem esse valor (e o valor diacrítico não se aplica a todas as consoantes mudas), mas penso que o nome de Antônio Houaiss pode ser suficiente, por ter sido um dos defensores do AO.
      6- sobre as inconsistências do AO já escrevi: https://aventar.eu/2012/02/13/contra-o-acordo-ortografico-um-texto-inconsistente/.
      7 – fico à espera que a Eunice comente as afirmações de Evanildo Bechara acerca das edições únicas que percorrerão, alegremente, todo o mundo lusófono. Na minha simplicidade, uma edição única será aquela que não apresente diferenças (ortográfica, sintáctica, lexical), independentemente do país em que for publicada. A não ser que a Eunice considere que passa a ser edição única se, mesmo com variantes, tiver a chancela do normativo único. Aproveito para dizer que sempre fui contra as adaptações de autores brasileiros em Portugal e continuarei a ser.

    • David Silva says:

      “Duplas grafias que irão constar de um vocabulário comum que o AO vai possibilitar, coisa que os puristas da língua nunca se lembraram de fazer.”
      Pelo contrário, os puristas foram os criadores das primeiras tentativas de uniformizar a língua! É claro que na altura não havia telenovelas brasileiras na TV (credo! nem havia TV!).
      Vocabulário comum?! O que é isso? Se for o que estou a pensar, é melhor esperar que o Brasil, em toda a sua federação de estados, o consiga aplicar primeiro!
      PS: As criticas que apontou ao texto como análise… aplicam-se muito bem ao seu.

  10. Afinal o desacordo não é só ortográfico – anda muita “coisa” a estragar-se ultimamente – dommage – ontem vi uma reportagem da “colonização portuguesa” da terras do brasil desde o 1º que lá pôs os pés – que ódio que ficou desde há tantos séculos – quem quizer que veja – ontem – sic (05 ago 2013) – o servilismo português provoca-me curtos circuitos nos neurónios – nenhum outro país lusófono adoptou ou adotará o AO – não têm ódio aos portugueses

  11. Não adoptou nem adoptará – tinha esquecido o “p” e nunca adoptarei língua regionalizada mas posso fazê-lo porque “não faço lei” – também não falo mirandês apesar de ser língua oficial portuguesa

    • Filomena Cardoso says:

      Ahahah! O /p/ não dá jeito nenhum, pois não? Eheheh!

      • António Fernando Nabais says:

        Pois é, Filomena: já só falta suprimir o H inicial e outras excrescências que não dão jeito nenhum.

        • Filomena Cardoso says:

          Quem está a falar do h é o sr. Se ler o texto das bases a supressão do h não acontece por emudecimento, mas por junção com prefixos, por exemplo, o que já acontecia antes (desarmonia). Para professor, sabe pouco sobre este assunto!

          • António Fernando Nabais says:

            A Filomena fez um comentário jocoso a propósito da necessidade de suprimir consoantes que não se lêem (pelos vistos, o /p/ de adoptar “não dá jeito nenhum”). Na minha resposta, chamei a atenção para o facto de que esse critério deveria conduzir, também, à supressão do H INICIAL (desculpe as maiúsculas, mas penso que não leu o adjectivo), outra consoante que “não dá jeito nenhum”. Se se concentrar mais um bocadinho, quando estiver a ler, vai ver que percebe.

  12. Saiu, há cerca de quinze dias, no Jornal de Angola, a notícia do lançamento, em Luanda, pelo Sr. Ministro da Educação (acompanhado de outros membros do Governo Angolano), de um conjunto de três obras, que revelam uma parte substancial do trabalho produzido por Angola quanto ao A. O. (e que ajudam a esclarecer a decisão tomada nesta matéria). Essas obras, impressas – como se vê na capa de uma delas – em Abril de 2010, foram agora disponibilizadas ao grande público. Duas delas [onde se inclui um “Parecer sobre o A. O. de 1990” (196 pp.)] são, como ali se refere, da autoria de um português.

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  1. […] tive ocasião de comentar dois textos de Lúcia Vaz Pedro (“Grafias duplas e uniformização ortográfica” e “As duplas grafias como falsa questão”). Ontem, numa página brasileira descobri um […]

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