Os donos da língua

Pinda Simão, que se reuniu hoje em Lisboa com o ministro da Educação português, Nuno Crato, afirmou que Angola quer “fazer incidir esforços” na qualidade do ensino, referindo que em três províncias, Namibe, Benguela e Cabinda, há professores portugueses que estão envolvidos na formação de professores, em Língua Portuguesa, Matemática e Educação Física.

nac3a7c3b5es-da-lusofonia1O texto é da Lusa, escrito, portanto, segundo o chamado acordo ortográfico. Por acaso, foi publicado no jornal i, que não adopta o chamado acordo ortográfico. Os professores portugueses, em Portugal, são forçados a aplicar, nas escolas portuguesas, o chamado acordo ortográfico.

Alguns professores portugueses estão em Angola, participando na formação de professores angolanos. Angola não aplica o chamado acordo ortográfico, continuando a utilizar a ortografia de 1945. Deduzo, portanto, que os professores portugueses não possam utilizar, em Angola, o chamado acordo ortográfico que são obrigados a utilizar em Portugal, pela simples razão de que não seria aceitável esses mesmos professores imporem uma ortografia portuguesa a uma escrita que é angolana. [Read more…]

Editora Leya confirma inutilidade do acordo ortográfico

Segundo muitos defensores do chamado acordo ortográfico (AO90), o mundo lusófono, por obra e graça de tão fantástico instrumento, iria ficar coberto de edições únicas. Basta lembrar o que disseram Fernando Cristóvão e Evanildo Bechara, entre outros.

A editora Leya é praticante da religião acordista e, depois de ter comprado meio mundo editorial em Portugal, estendeu os seus negócios ao Brasil. Tal circunstância poderia servir, portanto, para confirmar que as edições brasileira e portuguesa das mesmas obras seriam completamente iguais.

A propósito, Thais Marques, directora de marketing da Leya no Brasil, produz estas surpreendentes declarações:

A facilidade do idioma comum, segundo a diretora, não pode ser apontada como um facilitador, já que muitas obras seguem passando por um processo de “abrasileiramento” ou, ao contrário, quando se trata de obras brasileiras levadas a Portugal.

“Não adaptamos obras literárias, mas livros de ficção comerciais continuam a ter de passar por uma edição, para ser ‘abrasileirados'”, comenta, a acrescentar que os direitos de publicação de obras estrangeiras, por exemplo, são feitos país a país e muitos títulos que são da Leya no Brasil, não o são em Portugal.

O português utilizado é um pouco estranho, com uma “facilidade” que não é “um facilitador” ou a referência a um contrário de “abrasileiramento” que poderá corresponder a um “desabrasileiramento”. Independentemente disso, é fácil perceber que a Leya não tem edições iguais para os dois países e Thais Marques chega ao ponto de afirmar que, no fundo, estamos separados por uma língua comum.

Nada de novo: o poder dos levianos é o prejuízo dos cidadãos. Enquanto os primeiros brincam aos acordos, os outros são reduzidos a mexilhão, vítimas de uma instabilidade ortográfica que é filha de uma quimera.

Grafias duplas e uniformização ortográfica

Lúcia Vaz Pedro é professora de Português e formadora do acordo ortográfico. Declarando estar ciente de que há, ainda, muitas dúvidas acerca do novo acordo ortográfico, promete dedicar o mês de Agosto a esclarecer “as questões mais problemáticas sobre esse assunto”, começando “por abordar a supressão das consoantes mudas”. Vale a pena acompanhar o esforço da articulista.

No segundo parágrafo, afirma que a dita supressão é a “maior alteração na ortografia da língua portuguesa, na variante lusoafricana [sic]”. Para além de existir um problema grave na solidez dos alicerces legais que sustentam a aprovação do chamado acordo ortográfico (AO90), a verdade é que, nos países africanos lusófonos, não está a ser aplicado. Conclui-se, portanto, que, na realidade, as alterações incidem, apenas, na variante lusa, sem a companhia da africana. De qualquer modo, seria bom que uma professora de Português, ainda mais se formadora do acordo ortográfico,  soubesse que, com ou sem AO90, se deve escrever luso-africana. Sim: com hífen.

A seguir, faz referência à possibilidade de haver duplas grafias, dependendo da “oscilação da pronúncia”, o que tornou possível o surgimento de oscilações ortográficas, no caso de palavras como espectador e sector, entre muitos outros exemplos. No mesmo parágrafo, aparentemente a propósito, recomenda que devemos ter presente a ideia de que “tendo cada variante a sua pronúncia, deve seguir-se a respetiva [sic] grafia.” Pela mão de Lúcia Vaz Pedro, estamos, mais uma vez, prestes a confirmar que o AO90 não trouxe uniformização ortográfica. [Read more…]

O mundo encantado das edições únicas

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Richard Zimmler, na sua página do facebook, mostra uma muito compreensível alegria com o facto de haver, agora, uma edição brasileira do seu livro para crianças. O título do livro em Portugal é Dança Quando Chegares ao Fim; a edição brasileira intitula-se Dance Quando Chegar ao FimO autor comenta: “Chegou hoje a versão brasileira do meu livro para crianças Dança Quando Chegares ao Fim. Todos os “tu” agora são “você”, claro. Daí a diferença no título.”

Os vendedores de virtudes do chamado acordo ortográfico (AO90) têm anunciado aos quatro ventos a ideia de que, agora, é possível haver edições únicas no Brasil e em Portugal.

Talvez o meu conceito de edição única seja um bocado redutor, mas, mesmo correndo o risco de ser considerado muito limitado, passo a explicá-lo: uma edição única seria aquela em que não houvesse nenhuma diferença de nenhum tipo, com mesmas palavras, as mesmas frases, os mesmos períodos e os mesmos parágrafos, no Brasil e em Portugal. Mesmo podendo parecer um perigoso radical, atrevo-me a afirmar que uma edição única deveria ter, exactamente, o mesmo título, sem tirar nem pôr, o que implicaria a inexistência de alternâncias como dance/dança ou chegar/chegares.

Como é evidente, a fotografia e o comentário do autor são suficientes para demonstrar que a realidade é extremamente maçadora e que o AO90 não cumpre um dos seus principais objectivos. Ainda assim, seria interessante ir além do título, porque, ou muito me engano, ou será possível encontrar mais diferenças entre as duas edições e é quase certo que algumas dessas diferenças serão, também, ortográficas.

Fotografia do facebook de Richard Zimmler

Acordo ortográfico aumenta as diferenças ortográficas entre Portugal e o Brasil

NAO2cOs criadores e os defensores do chamado acordo ortográfico (AO90) procuram vender, desde o início do processo, a ideia de que o dito AO90 veio trazer ao mundo da lusofonia a uniformização ortográfica, o que permitiria acabar com a angústia da escolha de uma ortografia em instituições internacionais e operaria o milagre das edições únicas de livros nos países aderentes.

Não é, portanto, invulgar, ouvir a frase “Agora, escrevemos todos da mesma maneira.” Ora, isso não é verdade sob nenhum aspecto, o que inclui o sintáctico, o lexical e, surpreendentemente, o ortográfico. Fazendo de conta que os dois primeiros não têm importância, é importante ir repetindo e demonstrando o último: mesmo depois do AO90, Portugal e Brasil não têm a mesma ortografia, o que deveria constituir prova suficiente do falhanço do chamado acordo.

No Público de hoje, surge um texto de Maria Regina Rocha, professora e consultora do Ciberdúvidas, em que são apresentados alguns factos que surpreendem mesmo os que já estavam surpreendidos: a autora, recorrendo ao Vocabulário de Mudança, informa-nos de que, com o AO90, aumentam as diferenças ortográficas entre Portugal e o Brasil. Deixem-me, apenas, realçar: aumentam. [Read more…]

Acordo ortográfico: mas então não íamos todos escrever da mesma maneira?

Pedro Almeida é um cidadão brasileiro que se apresenta profissionalmente como “Editor-representante de autores e obras”. Neste texto, com base na sua experiência profissional (nos últimos dois anos, trabalhou numa editora “cuja matriz é portuguesa”) transmite uma visão arguta sobre a inutilidade do chamado acordo ortográfico (AO90) como meio para melhorar a comunicação entre brasileiros e portugueses, desmontando, mais uma vez, a ideia de que, com o AO90, passaríamos todos a escrever da mesma maneira e que, portanto, seria possível publicar uma edição única do mesmo livro no Brasil e em Portugal. Repita-se e relembre-se: não há uniformização da escrita, para além de não haver sequer uniformização ortográfica.

Aqui fica uma citação: “No trabalho editorial, muitas vezes tive de traduzir livros de autores portugueses ou, ao adquirir a tradução portuguesa de um livro escrito em inglês, traduzir esta versão para o português brasileiro.  Novamente, hifens e acentos não representavam nem 10% das diferenças.  Vocabulário, ordem e encadeamento das frases, expressões, essas sim, eram importantes para a compreensão do texto.”

Acordo ortográfico: os dislates de Evanildo Bechara

Evanildo Bechara é um importante linguista brasileiro e uma das figuras de proa do acordismo, ou seja, um defensor daquilo a que alguns chamam acordo ortográfico (AO90). Que um amador profira disparates sobre assuntos que não domina é coisa que não me espanta, espantando-me, no entanto, a facilidade com que os amadores dão opiniões, usando de uma pose profissional que não é mais do que leviandade. Desgosta-me muito, no entanto, que um especialista debite disparates sobre a área que domina ou devia dominar.

Evanildo Bechara, para defender o AO90, prescinde de ser linguista e nada diz ao senso comum, acumulando vários dislates numa entrevista ao Estadão. Citarei e comentarei alguns deles, porque a entrevista está exaustivamente analisada aqui. [Read more…]

Acordo ortográfico e a tradução para português

No Público do passado dia 28, foi publicado um texto de Paula Blank sobre os problemas causados pelo chamado acordo ortográfico (AO90) no âmbito da tradução e revisão de textos em inglês sobre equipamento médico. Podem ler aqui.

Note-se que o texto de Paula Blank não trata propriamente das questões ortográficas, debruçando-se, antes, sobre as diferenças terminológicas e sintácticas que separam o português do Brasil do de Portugal. Essas diferenças fazem com que um técnico português tenha graves dificuldades de compreensão, quando consulta uma tradução feita por um brasileiro. Depreende-se, aliás, que um técnico brasileiro sinta as mesmas dificuldades, se for confrontado com uma tradução portuguesa. [Read more…]

Desidério Murcho sobre o acordo ortográfico

Cristalino: O acordo ortográfico outra vez.

Acordo Ortográfico: um vídeo penoso de Fernando Cristóvão

Neste vídeo, Fernando Cristóvão, eminente estudioso da língua e da literatura portuguesas, faz uma defesa penosa do chamado acordo ortográfico (AO90).

Um dos primeiros argumentos usados consiste no facto de ser uma lei. Para além de haver muitas dúvidas acerca da legalidade do AO90, as leis podem ser revogadas, a não ser que estejamos diante de algum fenómeno religioso e o dito acordo tenha descido do Monte Sinai pelas mãos de algum iluminado. [Read more…]

Contra o Acordo Ortográfico: não há uniformização da escrita

No texto anterior, com a ajuda do AO90, Nota Explicativa incluída, ficou demonstrado que o dito AO90 não foi suficiente para alcançar a desejada uniformização ortográfica, o que, só por si, deveria ter sido suficiente para desencorajar tão escusado trabalho.

O texto que hoje publico serve para confirmar aquilo que há muito sabemos: mesmo que tivesse sido possível unificar a ortografia, continuaria a haver diferenças sintácticas e semânticas que continuariam a inviabilizar que um texto pudesse ser escrito da mesma maneira em Portugal e no Brasil. [Read more…]