Uma história simples

supernova kepler

Era uma vez um político que queria ser eleito, tendo-o conseguido prometendo mundos e fundos, os quais trouxeram votos de quem não se importou em saber se os fundos existiam para os prometidos mundos.

Uma das promessas que ele não se importaria de quebrar era a de disponibilizar uma rede metropolitana de transportes moderna, com bilhetes acessíveis e  que incluísse passes sociais para os que tivessem menos rendimentos. Mas tinha acabado de ser eleito e não dava jeito nenhum acabar logo com o estado de graça. Assim, ordenou que a transportadora praticasse preços baixos e prometeu transferir dinheiro do orçamento de estado para a empresa, como forma de a compensar.

Ter conseguido simultaneamente comer o bolo e ficar com ele deixou-o contente consigo mesmo, especialmente porque não pagou o prometido à transportadora, autorizando-a a ir à banca buscar o dinheiro em falta. E autorizou uma, duas, tantas as vezes quantas aquelas em que não pagou o prometido, que isto do dinheiro faz sempre falta para a obra-seguro eleitoral.

Uma vez, o gestor da transportadora foi ter com esse político e disse-lhe que tinha ali mais um empréstimo para assinar, o qual incluía umas letras miudinhas organizadas em frases que começavam por um asterisco. Logo naquele dia, em que não tinha com ele os óculos de ler clausulas nocivas ao tesouro! Mas assinou, porque a transportadora onde viajavam os malandros com bilhetes comprados pelo valor que ele estabelecera estava falida e era preciso compor o buraco criado pelos fundos de compensação que não transferira para a empresa.

Os anos foram-se passando, com o negócio dos empréstimos quase todos satisfazendo (um ou outro pagador de impostos poderia ter uma visão diferente), até que um dia os asteriscos do contrato se transformaram em cifrões, num processo apenas comparável à transformação de uma supernova num buraco negro, sugando toda a luz que se pudesse fazer sobre esta metamorfose.

Todos ficaram às escuras, especialmente o político que prometera mundos e fundos, sem que alguém conseguisse apontar a razão de a esse ponto se ter chegado (um ou outro pagador de impostos tinha pistas bem claras). Até que o político da nossa história, qual grande líder, teve a genial ideia de realizar um voo espacial  até à Supernova de Kepler. Com bilhetes a preços sociais, graças a transferências do tesouro para a nova transportadora espacial, assim definiu ele o caminho para chegar à origem do problema, esse lugar remoto onde a gravidade é tão intensa que até transforma asteriscos em cifrões.

A vitória na eleição seguinte foi retumbante, amplificada por generalizado entusiasmo popular. Mas, logo depois, muitos pagadores de impostos acabaram com uma visão diferente quando, numa viagem bem mais curta, um mês de salário voou das suas carteiras para o contrato das letras miudinhas, o qual não se encontrava a anos-luz mas sim à distância de um clique no ministério das finanças. Já a ida à Supernova de Kepler, essa teve que ficar para outros voos.

[Imagem]

Comments

  1. Maquiavel says:

    Com a breca… e eu que já estava de malas feitas…

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