Notícias da reserva agrícola

Lagostins

Nasci e vivi no campo, nos campos de arroz, durante muitos anos, dos quais guardo algumas histórias engraçadas e que até poderão ter interesse para publicar. Um dia, talvez, que esse não é agora o momento. A ribeira da foto acima passa num desses campos, os quais há uns anos foram classificados como reserva agrícola. Essencialmente, isto significou que a vida de quem os trabalha ficou mais difícil, porque um qualquer manga de alpaca achou que era preciso proteger não se sabe o quê, num vale onde há décadas não nasce uma única edificação. Pelo contrário, o número de fogos até tem vindo a diminuir. Mas já se sabe, quem não produz, não é preciso e um burocrata produz regulamentos, logo seria uma questão de tempo até que o incansável braço da papelada viesse aborrecer quem trabalha.

Sendo reserva agrícola, poder-se-ia pensar que a protecção do ecossistema estaria assegurada. Errado! Recentemente, o vale levou com uma autoestrada fresquinha em cima, que isto das reservas, vamos lá ver, não é assunto para fundamentalismos. Salvo, claro, se o agricultor precisar de construir um barracão para as alfaias, pois isto começa num muro e, vá-se lá ver, nada tarda acaba numa via rápida. Ups, essa já lá está.

Depois há a questão dos lagostins, que são uma espécie de camarões que nunca ficam com sabor em condições por mais sal que se lhes meta na cozedura. Há quem diga que foi acidente, mas não faltam vozes a lembrar que se procurou criar uma actividade secundária nos campos do Mondego, deliberadamente introduzindo o bicho nos aquíferos da região. A praga, sem predador, rapidamente se espalhou e, até na minha ribeira, lá andam eles aos magotes, a subir a corrente e a destroçar as plantas do arroz quando ele ainda é viçoso.

Naturalmente, a reserva agrícola não foi impedimento para este irresponsável experimentalismo. Tal como não o foi para a introdução de outras espécies que não fazem parte desse meio, como esquilos*, aves de rapina e javalis. Se bem que águias e gaviões não atacam o milho e os legumes, já o mesmo não se pode dizer dos javalis e dos esquilos, os quais podem ser muito giros para quem gosta de caçar, mas são uma dor de cabeça para quem os tem que aturar, a par com os burocratas do ministério e outras pragas que atacam as culturas.

São estas as notícias da reserva agrícola. Mais gente a trabalhar no ministério da agricultura e nas suas delegações regionais do que agricultores tinha que dar nisto. Mas atenção, as pastas documentais do ministério sobre a reserva estão impecáveis.

* Veja-se esta experiência, noutro local

Comments


  1. Sim, a RAN deu lugar ao espectáculo indecoroso das desanexações. Muitas foram para construção de “casa própria” de terceiros. Estranhos à família. Uma pessoa vai por aí e vê as coisas bonitas que se fizeram.


  2. E qual a diferença, então, entre um burocrata ministerial e um javali?
    Certo: o javali não usa fatos com mangas.


  3. Não me apetecia dizer mas digo que desde que foram cridas as áreas protegidas – DL 613/76 com origem nas ideias de Ribeiro Telles e com quem aprendi e trabalhei, nunca até aí tinha havido tantos atentados aos territórios – o tal artigo que qualquer DL tinha de — em casos especais poderem certas áreas ser desafectadas -e até o senhor Berando comprou área de RAN no Algarve para construir como o eis persidente do Sporting comprou no Algarve área florestal de REN e construíu, como Macário Correia permitiu construção em REN quando era presidente da CM de Faro e depois Tavira etc como em 2011 o ministro do Turismo e o Secretário Estado Guedes mandou arrancar 400 sobreiros na véspera e saber que o PS tinha ganho e na Várzea Fresca Ribatejo para construir golfs que já davam que falar no mundo pela sua qualidade – Como eu 12 anos num serviço com área de administração de 83 mil ha no Alentejo fiz de toda a área Carta de RISCOS e ao desenhar a delimitação da mancha de sobreiros apenas e outra de sobreiros e pinheiro manso, para salvaguarda uma delas até para fazer Parque Desportivo para lhe dar uso sem perturbação nem vandalismos, alguém certamente do meu serviço tomou conhecimento e numa noite mandou arrazar os sobreiros – para construir golfs ou só por malvadez e até creio saber quem foi – etc – E os PDM não servem para nada – são 389 creio – que me passaram pelas mãos em 1981 (1ª geração) e tanto faz ser REN (reserva ecológica nacional) em que Macário autorizou co9nstrção do que não devia etc – Mas quando fui 12 anos júri do INH as casinhas dos pobrezinhos (onde mais tarde haveria riquinhos aliás como o projecto de Olivais SUL que foi a nossa primeira “Cidade Nova” quem para lá foi até prof meu de agronomia) onde fiz projectos de áreas verdes e planteia as árvores e assisti ao abrir das covas e como fertilizar e plantar – que ainda lá estão (logradouros) onde eram construídas – Mas entre 1999-2008 vi as tais casinhas do PER – programa especial de realojamento em áreas agrícolas abandonadas – etc – Como me recordo de o Guadiana ser ainda um rio mítico e sem má exploração mas onde introduziram o camarão vermelho americano e vía-se na TV como proliferaram de tal forma que não havia control e foi pedido à população que o colhessem sem ter de o comprar – Como houve já nem sei quando a introdução no Tejo do backbass – peixe de rio americano parecido com truta que se põe contra a corrente e abra a boca e come tudo e fez desaparecer a truta que era pescada mas o blackbasse “dava mais luta” a pescar ++ etc – é um pais-selva não importa onde e não sei se é por ignorância e/ou maldade – sei que 12 anos me bastaram para não reconhecer “o jardim à beira mar plantado” e recordo como na década 80 classifiquei a Ribª da Sancha com o santuário ornitológico que só eu e pescadores e aves conheciam mas já depois de ser extinto por corrupção o GAS – tive de ir a Sines e a “minha ribeira” era o depósito para onde corria a poluição de indústria de porcos implantada na nascente da Ribeira da Bêbeda + etc – Mas agora até se contesta o Tribunal Constitucional que é CONTRA a evolução etc – nada melhorou e pelo contrário degrada até ao abandono do campo e Espanha faz isso e aproveita bem deitar resíduos nucleares (até já ultrapassaram o tempo de vida útil) no Tejo Internacional Unesco – Almeria – porque ali tem a pia porque espanha é pequenina e não têm espaço para as suas (deles) cloacas e quando chove demais inunda-nos até à foz pois tem barragens que descarrega e estão-se nas tintas e quando há seca não debitam, como deviam, o caudal ecológico – são muito interessantes os vizinhos de quem todos dizem ser exemplo a seguir pela sua capacidade de desenvolvimento – por mim a pata que os pôs pois na fronteira norte têm as tais “estufas” diabólicas onde os portugueses adolescentes trabalham e pagam quando calha – ando mais atenta aos ricos e como enriquecem e à custa de quem – bem vou ver os futebolistas não a vencer o jogo mas a toalha de água da chuvada de hoje – (TVi24H)

    • j. manuel cordeiro says:

      Percebo o que escreve. As RAN não evitaram que quem tivesse posses tenha feito os atentados que fez e, por outro lado, aqueles que de facto trabalham a terra apenas tiveram a vida mais dificultada.

      As espécies introduzidas, em modo de experimentalismo económico, são atentados ambientais da maior gravidade. Quem autorizou? Quem investigou o que não tenha sido autorizado? Porque estão os nossos aquíferos inundados de perca, achigan (black-bass) e lagostins?

      Exemplos do que o estado – ou se quiserem, quem controla o estado num dado momento – tem de pior.


  4. Mas entretanto com os milhares de há que arderam este ano de 2013 – se chover como hoje, quantos aluimentos e desgraças iremos ver e o fogo pode-se evitar mas os aluimentos é que não pois não se fecha a torneira às chuvadas que hoje já provocaram muitos problemas até na Caparica – Do norte não vi noticiário


  5. A sério?! E onde é essa RAN que você conhece?!

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